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  • Foto do escritorValdemir Pires

Quando eu fui a Macau (2ª. parte)


Carimbos no passaporte


Fazendo o check-in no hotel, cansadíssimo, esgotado, eu comemorava mentalmente, aliviado, o fato de ter chegado ao destino, a isso se acrescentando a gratidão pela sorte de ter entrado no prédio minutos antes de cair uma chuva que me encharcaria até os ossos, caso não estivesse abrigado. Depois de passado o encanto com a imensidão, a beleza arquitetônica, a organização e a decoração do quatro estrelas, evoquei o processo todo de planejamento da viagem. Comparado com os procedimentos da segunda década do século XXI para se viajar para o exterior, aquilo havia sido um empreendimento de fôlego. Era preciso contar com o apoio de uma agência de turismo (a tradicional e eficientíssima Monte Alegre, em Piracicaba) para comprar as passagens, fazer o seguro de viagem, reservar hotel etc. Tudo em papel, usando telefone para contatos – assinaturas, carimbos, contratos, pagamentos. E, além disso, como marinheiro de primeira viagem, no meu caso, era preciso pesquisar e consultar pessoas sobre uma porção de coisas: câmbio, o que levar e como cuidar das malas, precauções nos lugares e traslados, o que fazer em possíveis casos de roubo, acidente, problema de saúde, extravio de bagagem, atrasos e cancelamentos de voos etc. Foi calmante o alívio pela chegada à promissora casa provisória, seguido de expectativa com o que viria a seguir.



Folha com orientações da agência de turismo


Mas era preciso, antes de tudo, descansar. O quarto era o lugar mais desejado, naquele momento. O check-in foi rápido, apesar do meu inglês então precário e do inglês “macarrônico” do recepcionista – naquele tempo acho que Macau não era tão internacionalizado e os serviços turísticos não tinham facilidade para contratar funcionários bilíngues. E o português, língua oficial, apesar de aparecer em dobradinha com os ideogramas chineses nas placas por todo o lugar, era pouco falado nas ruas e estabelecimentos comerciais e de serviços.


Fiquei feliz e escandalizado ao chegar num dos 347 quartos (o de número 2019), no vigésimo andar. Que acomodações! Grande, dois ambientes mobiliados com eficiência e bom gosto, cama king size, banheiro maravilhoso com banheira de hidromassagem e utilidades em profusão, TV a cabo, frigobar bem abastecido, sachês de chá à vontade, tudo muito organizado. O escândalo foi por conta da comparação do lugar onde eu estava com as moradias logo à frente. Da janela do meu quarto eu pude ver o tamanho minúsculo e a precariedade dos apartamentos dos prédios à frente; à noite, observei não poucas pessoas (principalmente moças e rapazes) estudando até tarde, apertadas entre cama e escrivaninha em quartos de ínfimas dimensões. Acho que no meu quarto de hotel caberiam inteiros dois daqueles apartamentos que eu via do outro lado da rua. Pois então! Eis os extremos, uma pequena amostra deles, do modelo de desenvolvimento (ferozmente competitivo) que impulsionou as principais economias do Sudeste Asiático.


Identificação de hóspede: a porta já era destrancada com cartão magnético


Mergulhei num sono profundo durante umas quatro horas, depois de tomar uma ducha relaxante e perfumada. Quando acordei, quis imediatamente sair para comer alguma coisa – a fome era forte, mais que a vontade de conhecer o que haveria de comida de rua. Vesti-me e desci, apreciando, antes de entrar no elevador, a vista bonita do espaço vazio entre as laterais do prédio ocupadas pelos apartamentos. Avaliei (com possibilidade de erro, dada minha condição de plebeu) que quatro estrelas eram poucas para o Grandeur de então (hoje Metropark). No Brasil, seria um hotel cinco estrelas, tendendo à sexta inexistente na classificação.


Ao primeiro passo na rua, dois absolutos flagrantes – um calor úmido bastante desagradável e desestimulante e um trânsito medonho – e uma suspeita tendente a constatação: essas centenas de carros de luxo (muitos Mercedes) pertencem a pessoas que moram longe do lugar em que fica o meu hotel, e essas milhares de motonetas estridentes são o meio de transporte diário daquela gente que reside nos apartamentos que eu pude conhecer lá do meu vigésimo andar.


Eu caminhei dois ou três quarteirões e quis mudar para o outro lado da rua. E, surpresa!: não foi nada difícil, apesar do trânsito pesado e conturbado, pois os motoristas davam preferência aos pedestres (coisa inacreditável – até mesmo suspeita – para um brasileiro). Demorei a ganhar confiança, mas ganhei, caminhando ao léu por uns dez quarteirões, virando de uma direção a outra sem premeditação. Até que encontrei uma portinha atraente, algo mais próximo que há, por lá, do que seria no Brasil um bar/lanchonete de esquina.


Um cantinho para matar a fome e satisfazer a curiosidade


Primeiro fui e voltei, fiquei observando o lugar. Muita gente entrava e saía, sem grande demora – algo como o tempo de “tomar uma e beliscar algo”, no Brasil. Então concluí que era, mesmo, o que eu procurava, para comer. Entrei, havia bastante gente, todo mundo ao redor de mesinhas circulares um pouco altas, comendo, a maioria alguma coisa dentro de uma espécie de cumbuca; enquanto, em fila que avançava rápido, outros faziam, pagavam e pegavam seus pedidos. Procurei cardápios e não havia. Mas logo vi na parede um cartaz com uma lista, para mim incompreensível, com itens seguidos de preços (isso eu podia entender). Fiquei tentando inventar uma maneira de me fazer entender para conseguir comprar comida. Circulando, ouvi um trio conversando em inglês. Eureka! Fui até a mesa em que eles estavam e perguntei ao mais velho, um senhor de uns quarenta e poucos anos, o que estava comendo (eu já tinha observado e me pareceu um bom prato) e como eu poderia pedir a mesma coisa. Gentilíssimo, ele se prontificou a me auxiliar assim que chegasse a minha vez de fazer o pedido, na fila: bastaria chamá-lo. Foi assim que comi pedaços de carne suína cozida em um caldo branco, sem saber do que se tratava nem descobrir jamais o que era. E foi bom. Saí do lugar me sentindo um explorador ultramarino capaz de levar a cabo o seu empreendimento.


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