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Doha: turismo e futurismo

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 8 horas
  • 18 min de leitura


Originalmente, o indivíduo humano, nu ou precariamente trajado, despojado de ferramentas e instrumentos, errava sem planos em determinadas áreas do planeta, só ou em pequenos grupos, em busca de água, alimento e abrigo ou esconderijo, sempre sob ameaça de animais maiores e mais fortes do que ele.   Andar por aí, parecia, então, ser a sina do homem. Até que ele despertou para outra possibilidade: fixar-se, deixar de ser obrigatoriamente nômade e tornar-se sedentário, a ponto de, mais tarde, inventar a cidade, que nunca parou de transformar, enquanto transforma a si mesmo.

 

Uma vez fixado ao terreno, por vontade própria e habilidades adquiridas (pecuária, agricultura, conservação de alimentos, indústria, transportes, comunicações), nem por isso o homem despojou-se de sua propensão a deslocar-se e a explorar lugares que não os seus; o que, de fato, passou a fazer com maior capacidade e potência, na medida em que as manchas urbanas foram aumentando e tornando necessárias as numerosas vias de ligação entre elas, até o ponto em que as conexões deixaram de ser apenas terrestres, lacustres e fluviais, atingindo o alto mar (grande embarcações) e os ares (aeronaves). Até mesmo o satélite natural do planeta, a Lua, já recebeu visita humana, como prova de que o céu deixou de ser o limite às andanças, “nadanças” e “voanças” humanas.

 

Viajar, a partir do momento em que a tecnologia libertou a espécie humana dos restritos meios vinculados aos próprios músculos ou à ajuda de animais (cavalos, camelos etc.), tornou-se algo banal, inclusive a longuíssimas distâncias e com velocidades há pouco inimagináveis. Além disso, viajar deixou de ser uma prática fundamentalmente econômica, pragmática (uma necessidade), para se tornar um novo modo de conhecer e usufruir o mundo (um desejo). Vem daí o turismo de massas, sucessor, não muito natural, das práticas de viajantes históricos, como o lendário Marco Polo, por exemplo. Turismo de massas que é muito diferente daquele praticado por descobridores e exploradores a partir do século XIV e também pelas elites britânicas e do norte da Europa que, entre os séculos XVII e XIX, enviavam seus filhos para longas viagens pela Europa, especialmente França e Itália (conhecidas com Grand Tour), com finalidades educacionais e culturais.

 

Atualmente, viajar para simplesmente conhecer lugares e culturas, viajar a passeio, compõe uma parte do jeito de viver acessível a milhões e milhões de pessoas (muitas das quais o fazem regularmente em seus períodos de descanso do trabalho), configurando uma demanda em grande escala, explorada pela indústria do turismo, parte expressiva da produção anual de muitos países, graças a seus atrativos e iniciativas específicas. Agências especializadas, em conexão com redes hoteleiras e empresas de transporte, oferecem pacotes turísticos em formato padronizado a preços convenientes, assegurando um fluxo de turistas que, em dados locais, começa a incomodar. Não é forçar a lógica dizer que existe hoje, na linha do que poderia afirmar a Escola de Frankfurt, uma “indústria cultural do turismo”, dada a natureza rasa e nada emancipadora das práticas turísticas, levadas a efeito como anestesia diante da realidade, ou fuga dela, em vez de servir para aprofundar a compreensão da multiplicidade e diversidade da vida mundo afora.

 

Na “indústria cultural do turismo”, a competição é acirrada, não somente entre as empresas participantes, mas também entre destinos turísticos. Regiões como Europa – o Velho Mundo, Estados Unidos – o Novo Mundo econômica e culturalmente exuberante, América Central e do Sul – Novo Mundo “exótico” (não muito diferente da África, na mentalidade turística corrente) agora rivalizam com os países asiáticos recém-enriquecidos e reconfigurados, destacando-se no século XXI a China e a Península Arábica. E nesta, Doha aparece como um paradigma, na esteira de uma estratégia governamental de desenvolvimento do Catar, mormente a partir de 2010, quando foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2022. Desde então, a impressionante skyline desenhada pelos edifícios do distrito de Al Dafna, na região conhecida como West Bay, difundiu-se em todo o mundo como uma espécie de cartão de visitas inconfundível da cidade, especialmente se visto da Doha Corniche, longo calçadão à beira-mar também globalmente conhecido. Uma vista completa da cidade intencionalmente espetácular que é Doha, especialmente à noite, é proporcionada pelo Bandar Skyview Point.

 

China e Sudeste Asiático passaram por profundas transformações socioeconômicas, políticas e urbano-arquitetônicas nas décadas finais do século XX, impulsionadas por inovações científico-tecnológicas, rearranjos no sistema financeiro internacional e mudanças geoestratégicas pós-Guerra Fria. Essas regiões entraram o século XXI surpreendendo o mundo, atraindo investidores e turistas, lançando, enfim, a sombra de suas skylines e grandes e modernos edifícios sobre a hegemonia europeia e norte-americana nos movimentos financeiros, de mercadorias e de turistas da era que se convencionou chamar de globalização.  Os países da Península Arábica (exceto o Iêmen), a seu modo, acompanharam as mudanças, buscando se reposicionar com a preocupação genérica de preservar seu desenvolvimento econômico futuro, quando do previsível esgotamento de suas reservas de petróleo e gás.

 

Arábia Saudita (muito fortemente, com seu ousado e controverso Projeto Neom ), Kwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes e Omã (este, um pouco menos) são países que, sem abrir mão de governos fortes com fundamentação islâmica, recentemente se reinventaram face ao mundo, deixando de ser simples ofertantes de petrodólares para projetos mundo afora e passando a investir seus recursos abundantes, em articulação com os de fundos de outras nações, na criação de uma economia baseada em finanças, construção civil/arquiteturaq, logística e turismo de luxo, atraindo para dentro de suas fronteiras um colossal contingente de trabalhadores não especializados e técnicos, além de grandes escritórios de engenharia e arquitetura, ao passo que investem massivamente em educação para se libertar da dependência criativo-tecnológica.

 

A vertente turística da economia do Catar não apenas cresce a largos passos, como lança luz sobre este fenômeno na Península Arábica e no mundo. Ela é fruto de uma estratégia governamental deliberada, articulada com interesses de empresas globais em busca de valorização de seus capitais em parceria com os de fundos soberanos árabes, e carrega a novidade de fazer de cidades (especialmente suas capitais), como um todo, e não de alguns atrativos específicos, o foco da política de disputa da demanda internacional por turismo, lazer e entretenimento. Nesse processo, faz-se uso propagandístico inteligente de dois fatos capazes de despertar interesse e desejo: o exotismo da região desértica e das culturas ali manifestas, que historicamente atraem a curiosidade ocidental, desde antes das Cruzadas; e o fato notório e admirável de que ali antigas localidades cujos habitantes viviam de pesca e coleta de pérolas, ao se depararem com a descoberta de petróleo e gás, com o tempo se tornaram metrópoles singularmente vibrantes. Este ó o caso de Doha, capital de um país de dimensões territoriais menores que a do menor Estado brasileiro (Sergipe), porém com um dos maiores PIBs per capita do mundo.

 

Doha ostenta a condição, facilmente verificável, de um lugar voltado ao turismo de luxo, focado em qualidade de vida (para quem pode) e experiências imersivas individualizadas, caras e não raro extravagantes. Para isso, foi dotada de todo o necessário. Sua rede hoteleira de nível internacional é extensa e bem pode ser representada pelos dois hotéis que ocupam as Katara Towers, um dos ícones arquitetônicos do local. Hospedar-se num deles, o Raffles, por exemplo, é vivenciar momentos dignos das mirabolantes histórias de riqueza e exuberância das Mil e uma Noites. As acomodações são de extremo requinte arquitetônico, paisagístico e tecnológico, oferecendo serviços que, ao mesmo tempo, desoneram o cliente de toda e qualquer preocupação quotidiana e lhe permitem desfrutar de uma gastronomia sem par (elaboradas por renomados chefs com ingredientes frescos trazidos de toda parte do mundo, já que no deserto sua produção em escala não é viável) e de entretenimentos de todo tipo, desde academia, piscinas e massagens, a cinema e passeios na cidade e no deserto. No 27º. Andar do Raffles tem-se uma formidável vista panorâmica de Doha, para ser apreciada com a luz do dia ou com a espetacular iluminação noturna.

 

Embora isso pouco importe ao turista capaz de pagar pelo luxo (o Raffles, por exemplo, manda buscar seus hóspedes no aeroporto com um luxuoso veículo eivado de facilidades e mimos), a infraestrutura de mobilidade urbana de Doha é excelente, contando com um metrô de alta tecnologia desde 2019, com três extensas linhas – Vermelha (que conecta o aeroporto internacional às áreas de interesse), Verde e Ouro, apoiadas, nos pontos a que não chega, por ônibus e vans especiais (Metrolink e Metroexpress); os trens e as estações são muito funcionais e também bastante bonitos, sinalizados com muita clareza, indicando inclusive pontos de interesse e atrações da cidade. O que ampara e encanta o turista comum, de classe média, por exemplo, que também tem à disposição, a bons e controlados preços, uma frota governamental de táxis (os Karwa Taxis azul turquesa) e numerosos veículos da Uber. Os trens e carros circulam em um sistema viário inteligente, limpo e organizado, juntamente com uma frota notável de veículos particulares de luxo de todas as grandes marcas. Bicicletas e patinetes de aluguel ficam disponíveis em várias partes, não sendo porém tão populares como em países onde o calor os torna convidativos.

 

Em Doha, respira-se riqueza, os locais ricos e os turistas bem aquinhoados sendo gentil e zelosamente servidos, em tudo (de transporte e alimentação a cortes de cabelo e limpeza de calçados) por um contingente de imigrantes de numerosos países, que chega quase aos 90% da população total de aproximados três milhões, o que dá à capital do Catar uma condição multicultural notável, em meio a uma Babel de idiomas mal disfarçados pelo inglês rudimentar e utilitário, em geral suficiente.

 

O surto desenvolvimentista proporcionado pela realização do Campeonato Mundial de Futebol de 2022 legou ao Catar, e a Doha em particular, uma força turística que se juntou ao que anteriormente havia no país em termos de priorização dos esportes como vetores de desenvolvimento sociocultural, sem que se tenha aberto mão de tradições como as relacionadas aos camelos e falcões (aves-símbolo do país, que chegam a ser atendidas em hospitais especializados e abastecidas em locais especialmente dedicados a elas e seus proprietários). A Copa de 2022 movimentou a economia e, particularmente, a construção civil, não apenas para a construção dos numerosos estádios (entre os quais os notáveis Al Thumama e 974, além do Museu do Esporte), mas todo um complexo de obras que mudou o perfil urbano e turístico do Catar. O Estádio 974 tem a peculiaridade de ser construído todo em ferro e com containers, com a finalidade de ser desmontado após a Copa, os materiais doados a países africanos.

 

Não fugindo à tentação da comparação com o Ocidente, Doha é dita a Suíça do Oriente Médio, por sua solidez e relativa liderança nas finanças e por sua postura pacifista numa região sempre conflagrada. Tal tentação se manifesta na forma de imitação, em casos como o do luxuoso Villaggio Mall, que procura replicar a Galleria Vittorio Emanuele II, de Milão; assim como da área do antigo porto, reformulada para a acolhida da Copa do Mundo, chamada Mina District, mas apelidada Santorini do Oriente Médio devido à semelhança de sua arquitetura com a daquela ilha grega. Mesmo na mais icônica área de comércio, hotelaria e residências, que a The Pearl, há uma réplica da Ponte Rialto de Veneza.

 

Se há algo que legitimamente Doha precisa não simplesmente imitar, mas concretamente reproduzir, a fim de se tornar habitável, antes de usufruível, é a temperatura. Atingindo patamares de 50 graus centígrados, impossibilita a permanência em áreas abertas antes do início do pôr do sol (aliás uma atração se vista de determinados lugares na cidade), problema contornado pelo uso extensivo de aparelhos de ar-condicionado, havendo até sistemas que funcionam a céu aberto, como na interessante região da Katara Cultural Village e do belo Crystal Walk (cujo nome se deve ao uso de cristais – e também ouro – nas ruas, prédios e adornos em toda a área), localizada na Gewan Island.

 

A Gewan Island se liga por uma ponte à famosa The Pearl, um luxuoso conjunto de residências e comércios construído sobre solo acrescentado por assombrosa engenharia nas águas do Golfo Pérsico. Chama-se A Pérola porque foi-lhe dado o formato de duas ostras com uma gema no centro de cada, funcionando como espetáculo urbano, da mesma forma que os numerosos arranha-céus artisticamente concebidos, com iluminação externa colorida, acionada à noite, exatamente para regozijo dos observadores.

 

Uma cidade para se admirar enquanto cidade, e não apenas como área urbana que contém, aqui e ali, sítios, prédios ou monumentos dignos de admiração, como ocorre nas cidades turísticas convencionais, a capital do Catar oferece a sensação de imersão espetacular em toda a sua extensão. Em poucas palavras, Doha convida ao espetáculo e ao consumo, como formas de preencher o tempo e usufruir a vida, tão profundamente quanto as posses do convidado possam alcançar. Mesmo ao circular pelas vias e bairros não turísticos, reforça-se esta possibilidade, na medida em que o ostentatório brilha ainda mais quando diretamente comparado ao simples e despojado que é o seu oposto. Nas áreas pobres, destinadas aos não locais que oferecem mão-de-obra para que tudo se construa e passe a funcionar, o espetáculo é o da forma pela qual a riqueza acomoda a pobreza ao seu redor, o da maneira como o consumo popular se acopla ao consumo de luxo de modo raramente conflitivo. Modos de vida (rico, médio e pobre) se interpenetram, gerando estilos de vida e singulares jeitos de viver que a moldura urbano-turística propicia e o viajante pode apreciar, simplesmente observando e fruindo ou se pondo a refletir, conforme as suas particulares inclinações.

 

A quem apetece refletir, Doha enseja passar do turismo ao futurismo: a que tipo de mundo e de relações sociais e interrelações subjetivas remete o que hoje se pratica quotidianamente em Doha, como de resto em Dubai, Riad, Manama, Mascate, Ahu Dhab etc.? Trata-se de uma vitrine de modos de vida, estilos de vida e jeitos de viver aceitáveis para configurar o mundo desejável para os próximos passos da espécie humana? O que o espetáculo e o consumo ostentatórios escondem (com seus traços, luzes, sabores, sons e agitações), como, por exemplo, as condições de trabalho de imigrantes quase escravos sob o conhecido kafala system, a extrema concentração da riqueza nas mãos de poucas famílias (que açambarcam também o poder político e impõem restrições até mesmo à vida quotidiana, especialmente da mulher), ao abrigo de um tipo específico de fé, pode ser tomado como aceitável ou tolerável? Quanto custa ao quotidiano e às perspectivas de vida de mais de oitenta por cento de três milhões de pessoas a manutenção do espetáculo e do consumo de que Doha é um paradigma? Esse custo pode ser esquecido, sob a justificativa de que os próprios indivíduos que nele incorrem se sentem melhores onde agora estão do que nos lugares de onde vieram?

 

Seja apreciando acriticamente, seja refletindo a respeito do que vê e vive, o turista ocasional em Doha, se dispõe de uns poucos dias e de recursos limitados (se é um turista de classe média), não pode parar, tem que se movimentar o tempo todo, para lá e para cá, se deseja de fato, simplesmente aproveitar a fuga ou, querendo mais, colher elementos para que sua passagem pela cidade seja tão rasa a ponto de não ter lhe dado condições para restaurar o queixo caído e os olhos arregalados de quem se depara com tanta informação e tanta agitação, num único lugar, ao mesmo tempo. Com um mês de estadia, é possível um início de vislumbre relativamente sólido, para colocar no lugar do deslumbre gasoso.

 

Começa-se a compreender que nem tudo que reluz é ouro, que existe em abundância ouro de tolo, que muita ostentação cansa e entedia, que inovações localizadas escondem a manutenção do status quo generalizado, que nem toda reverência à tradição é praticada por apreço à História... Grande parte do que embasbaca o turista mediano em Doha tem a ver com o que ele não pode, ou seja, vivenciar/aproveitar/usufruir tudo, como conseguem os ricos e os muito ricos. O dito popular que se aplica a este viajante seria: “Vê com os olhos e lambe com a testa”.

 

Resta-lhe, para não se frustrar, chamar em seu socorro a razão. Usufruir, sim, do que está ao seu alcance, mas pondo à parte a condição de mero e inconsciente consumidor da indústria cultural do turismo: rejeitar quinquilharias, arremedos, imitações baratas, tolices, abrir os olhos para o que tem diante de si, diferente do que lhe é habitual, revelador de dimensões da vida que só para onde foi, curioso, pode encontrar. Flanar é o melhor a fazer, ócio contemplativo é o mais rico a buscar, interagir com locais é um caminho a seguir.

 

Perambular pelo Souq Waqif sem nada comprar, mas, tudo que puder, experimentar: ver, ouvir, cheirar, encantar-se. Também suspeitar: trata-se de um local de compra e venda, por excelência, desde os tempos em que os mercadores se encontravam para mercadejar em local combinado, cada qual trazendo suas tralhas; o conjunto de prédios está sobre uma área histórica que, incendiada, foi recentemente restaurada com notável fidelidade, mas, ainda assim, é réplica, não só em termos arquitetônicos, mas também no que diz respeito à prática de compra e venda, a atual envolvendo objetos produzidos massivamente, passíveis de comercialização até em sites da internet, embora resquícios de originalidade ainda persistam. Há no local um curioso monumento: um dedo de ouro gigante (The Golden Thumb Statue).

 

Como contraponto, ir logo em seguida ao passeio no Souq ao Villaggio Mall e, então, avaliar em que medida e de que forma, templos de consumo tradicionais (ou réplicas deles) e templos de consumo modernos e globais se diferenciam e se igualam, sob diversos aspectos. Do Souq Waqif ao Villaggio Mall, uma passagem não só de um espaço a outro, mas de um tempo a outro, com a consciência de que o passado de que se partiu já estava contaminado pelo presente.

 

Conhecer ruas e prédios, por fora e por dentro, em The Pearl, e se perguntar o porquê e o para quem de se substituir águas do Golgo por terra, ali edificando para o luxo ali hoje reinante, juntamente com algumas imitações caras, não necessariamente de bom gosto. Perguntar-se se, podendo, seria agradável ali morar; inquirir sobre as condições de trabalho dos que ali atuam como empregados para que tudo funcione. Sem que isso obscureça o fato de que The Pearl, em si, como arquitetura e urbanismo, e como empreendimento, é prova de potência tecnológica e de capacidade de transformação de ideia em realidade, assim como de habilidade artística.

 

Visitar as principais mesquitas, principalmente a azul e a dourada e tentar adentrar o clima da fé muçulmana, tão diferente de outras e também da falta de fé. Entender que a arte fala por si, à revelia de crenças e culturas, abrindo da vida dimensões que não servem para nada, a não ser deixar-se levar pelo mistério da beleza. Algo que também um imponente museu de Doha ajuda a fazer: o Museu de Arte Islâmica (mais de trinta mil peças), em cujo café tem-se uma boa visão da skyline da cidade e em cuja loja são oferecidos irresistíveis objetos e souvenirs; há ali uma sequência de arcos que servem como molduras perfeitas para vistas e fotos da baía e da cidade. Percorrer suas salas é uma experiência que provoca profunda admiração pelo Islã, enquanto fonte de inspiração para a confecção de artefatos artísticos, muito distintos dos produzidos sob inspiração cristã, principalmente pelo fato de nas mesquitas não serem admitidos ícones e imagens humanas, como as de Cristo, santos e anjos dos católicos. Nada mais esclarecedor, embora não ao nível estrito da razão, do que a comparação de uma grande mesquita com uma catedral, para intuir distinções fundamentais entre a fé do Oriente e a ocidental. O Museu de Arte Islâmica tem seu próprio parque, o MIA Park, que oferece a possibilidade de agradáveis passeios apreciando belas vistas e vegetação notável para o clima reinante; no final dele, abre-se uma das melhores vistas para a singular skyline de Doha.

 

Enquanto o edifício do Museu de Arte Islâmica, construído sobre uma ilha artificial e inaugurado em 2008, segue linhas típicas da arquitetura árabe, o Museu Nacional do Catar, inaugurado em 2022, adentra o terreno da absoluta ousadia: o arquiteto francês Jean Nouvel o concebeu em formato semelhante ao de uma rosa do deserto (formação mineral que adquire a forma aproximada de uma rosa. e que é comum no Catar) e a ele integrou partes do antigo palácio do Sheikh Abdulla Bin Jassim Al Thani, numa alusão à interpenetração entre o passado e o futuro do Catar. Seu acervo prima pela preservação da história local – marca pelos domínios português (1515) e otomana (1871) e pelo protetorado britânico (1916) até alcançar a independência em 1971. Este museu excepcionalmente bem organizado lança mão de tecnologias modernas, que, entre outras coisas, proporcionam notável possibilidade de interação do visitante com os acervos mantidos em onze galerias. Mais da história do país pode ser conhecida nos Msheireb Mueseums: um conjunto de quatro prédios históricos próximos entre si, cada um com acervo referente a um momento específico da história econômica do Catar, centrados ora na colheita de pérolas, ora no tráfico de escravos, ora no gás natural e, finalmente, no projeto atual diversificado.

 

Em Doha (em Al Rayyan, na verdade, na região metropolitana de Doha) existe uma Education City, onde estão instaladas escolas e universidades, inclusive unidades de algumas renomadas instituições de ensino superior e de pesquisas de outros países, como a Carnegie Mellon University in Qatar. Desde 2010 ali está a Hamad Bin Khalifa University. Nesta área é notável a presença do conjunto de esculturas gigantes em bronze chamado The Miraculous Journey: uma sequência de peças a céu aberto, mostrando a evolução humana da fecundação ao nascimento, da lavra Damien Hirst, sob encomenda da Sheikha Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani, irmã do Emir do Catar; há também a portentosa Biblioteca Nacional, de arrojada arquitetura e acolhedora estrutura, contendo mais de um milhão de livros, inclusive raros, como antigos exemplares do Alcorão.

 

A Katara Cultural Village, com a amenidade de um sistema de refrigeração ao ar livre (Katara High Street), oferece oportunidade para o turista se deleitar com exuberância e luxo (uma filial da francesa Galeria Lafayette e variados espaços de exposição/venda de obras de arte etc.) e também com encantos (um anfiteatro grego de 3.275 metros quadrados, para 5.000 pessoas, e uma acústica impecável; o Planetário Al Thuraya; o Oxygen Park Station; as extraordinárias Pigeon Towers para os pássaros, o divertido Gift Box Building para as crianças etc.). Não obstante a tênue alusão ao que foi e é a cultura popular no Catar, o que ali se respira é distinto dela, tomando-a por algo que se foi e agora se tornou objeto apropriado pelos apreciadores e compradores de artefatos e experiências da elite e de suas adjacências (leia-se classe média que deseja simular padrão de vida superior).

 

Passeios nas águas do Golfo Pérsico são uma experiência turística muito procurada para se apreciar Doha de um ponto de vista precioso. Eles podem ser feitos em embarcações tradicionais, do tipo em madeira utilizado pelos antigos pescadores, em geral manobradas por homens das mais variadas nacionalidades; e são praticados quotidianamente pelos ricos proprietários de modernos e vistosos iates que também compõem a paisagem local, usufruindo com facilidade dos prazeres da privada Banana Island, vendida no mercado turístico internacional como um paraíso tropical. Quem prefere praia, pode pagar para entrar nos Beach Clubs, relativamente caros e alguns com infraestrutura e serviços não muito convincentes. E quando estiver chegando a um deles (ou a qualquer outro lugar), deve se deter nas adjacências, abstendo-se de fotografar, caso ouça sirenes e perceba uma grande movimentação: quando o Emir vai passar, todos devem aguardar que ele e sua comitiva o faça, sob cerrado esquema de segurança.

 

Khor Al Adaid, ou The Inland Sea é uma área incomum do Catar, em Al Wakrah, a menos de cinquenta quilômetros de Doha, que o turista geralmente não resiste a visitar, para presenciar o singular encontro das águas do Golfo Pérsico com as dunas douradas, como se o mar beijasse o deserto, podendo ver a fronteira do Catar com a Arábia Saudita distante somente três quilômetros. Ali o pôr do sol é um momento de extrema calma e beleza, especialmente depois de um dia de aventuras com jipes 4x4 domando dunas gigantes.

 

Lusail, em Al Daayen, a 24 km de Doha, é tida como uma cidade inteligente concluída em 2010, onde fica a sede da Qatar Petroleum Company. Possui uma marina e um calçadão que a tornam irresistível aos que apreciam a interação cidade-mar, a prática de esportes e passeios ao ar livre sob o estímulo do vigor urbanístico e paisagístico do local.

 

Não houvesse iniciativas para resolver o problema, o Catar, apesar de seus atrativos, antigos e recentes, seguiria sendo um desconhecido país no Oriente Médio, lugar aliás mais conhecido pelos conflitos históricos que tendem a assustar eventuais turistas. Mas iniciativas foram tomadas, com extrema vontade política e amplo financiamento. Nem é necessário comentar toda uma estratégia de marketing, cujo ponto alto foi sediar a Copa de Futebol em 2022. Para isso, com amplo proveito posterior, foi criada toda uma infraestrutura, iniciando-se logo depois da aprovação da FIFA em 2010. O que não bastaria, se chegar ao país não fosse extremamente fácil, graças a seu moderno Hamad International Airport, que tem como atração o improvável Orchard Garden – exuberante jardim na área interna do prédio complexo e moderníssimo, que faz pensar que não se chegou a uma região de clima inóspito; e graças, fundamentalmente, à empresa aérea criada pelo governo, em 1993, e transformada, ao longo do tempo, numa potência conhecida em todo o mundo: a Qatar Airways, com suas duas centenas de aeronaves, percorrendo quase duzentas rotas internacionais e empregando mais de quarenta e três mil pessoas, a imensa maioria estrangeiros. O Catar não se limitou a dar asas à imaginação: deu (ou melhor, alugou e aluga) asas a quem quer se aproximar e usufruir do que a imaginação alada (ao lado de Alah, e do dinheiro, e do poder) fizeram de Doha, uma antiga vila de pescadores e coletores de pérolas, hoje cidade global admirada.

 

Pode-se dizer que Doha é uma cidade concebida e feita para o turismo, como exercício de futurismo bem-sucedido de seus idealizadores, no final do século XX, portadores que eram, e são cada vez mais, de um projeto de transição de uma economia baseada em petróleo e gás – dádiva da natureza que se esgota – para uma economia de serviços – obra de engenharia socioeconômica e político-cultural, que se arrisca no mercado global. Economia atual que, ao contrário da anterior (ainda importante no PIB do Catar) chama o mundo para o país, em vez de para ele enviar sua mercadoria vital para o sistema energético em vigor, aliás, sob acirrado questionamento da parte dos ambientalistas.

 

Que luxo e ostentação, para os ricos, e imitações mais baratas disso, para a classe média global, estejam na raiz da profusão de consumo e espetáculo inebriantes do que hoje é Doha como palco notável, é algo que leva a pensar: para onde caminha a Humanidade? A julgar pelo exemplo que o Catar oferece – luxo e poder de um lado, para poucos; migalhas e subordinação, de outro lado, para muitos, atraídos em meio à multidão de miseráreis de muitos outros países em busca de vida melhor; e tudo permeado pelo movimento do capital global, que vai para onde ganha fácil e não paga tributos, e pelo vai-e-vem dos turistas despidos de qualquer preocupação moral, em busca apenas de experiências sensoriais e agitação, a julgar por esses fatos, a Humanidade não caminha para um lugar que pode ser pior do que aquele em que atualmente se encontra? Mas dizer isso é fazer um exercício de futurismo bastante desagradável, num momento em que Doha vem se mostrando capaz de suspender o efeito muito mais desconfortável das temperaturas diárias em torno de 50 graus centígrados... Será que as pessoas capazes de tamanho feito tecnológico e mercadológico não poderão, em algum momento e por alguma razão desconhecidos, mas talvez imagináveis, dedicar seu talento e seus recursos abundantes à busca de uma sociedade menos excludente e também menos propensa a quinquilharias para se distrair? (Alerta: esta última questão é meramente retórica, mas a anterior não.)  

 

Outra maneira de falar de Doha, como buraco da fechadura (azeitada com petróleo) da porta para o futuro, é esta aqui.

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