A funcionalidade da classe média
- Valdemir Pires
- há 1 dia
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Contemporaneamente, a classe média, na maioria, senão na totalidade, dos países/sociedades, independentemente do sistema econômico e do regime político vigentes, abarca um conjunto de indivíduos que não é tão pequeno quanto o dos ricos nem tão grande quanto o dos pobres. Em geral, o que se configura em cada país e, por somatório, no mundo, é um todo em que se manifesta uma elasticidade das relações econômicas que favorece ou desfavorece a distribuição da renda e da riqueza e a mobilidade social, determinando o tamanho e a participação relativa da classe média no conjunto de indivíduos e famílias. Tendencialmente, quanto maior essa elasticidade – que tem a ver com a propensão marginal a consumir descoberta por John Maynard Keynes nos anos 1930 – menores os obstáculos para o crescimento do emprego e da renda nacionais.
Não é necessário um esforço analítico excessivo para constatar que a dimensão relativa da classe média é vital para a ampliação e diversificação do volume das transações comerciais praticadas numa economia, assim como para a participação das vendas cujas mercadorias envolvidas representam maior valor agregado, ou seja, são mais caras. E neste fato reside a funcionalidade da classe média para a manutenção e ampliação de uma economia de mercado, mesmo não sendo ela assumidamente capitalista. Sem a classe média ou sendo ela ínfima, mercadorias de custo e preço um pouco mais altos não são produzidas porque não serão compradas, o que trava o sistema num patamar de qualidade mais baixo, pois os ricos não desejam tais mercadorias (inferiores para eles) e os pobres não têm renda suficiente para demandá-las. Operando no nível econômico, esta funcionalidade da classe média se alia a outra funcionalidade de natureza ideológica.
De fato, o indivíduo de classe média assume para si, e diante do mundo, uma postura meritocrática que justifica a desigualdade social e, ao mesmo tempo, valida a sua posição na sociedade: ele acha que sua condição econômica deriva de suas capacidades (herdadas ou cultivadas, como estudando, por exemplo) e de suas inciativas (empreendedorismo), podendo, com elas, ir cada vez mais longe (tornar-se rico um dia), assim como evitar a marcha a ré (cair na pobreza). Essa mentalidade faz com que a classe média sinta-se compelida a viver ao lado dos ricos e não dos pobres (aos quais às vezes se dirige praticando caridade, olhando de cima). E aí está a segunda funcionalidade da classe média para uma economia baseada nas trocas, nas relações mercantis.
Os apetites materiais e as percepções sociais e políticas da classe média, juntos e assim mantidos sob uma ansiedade doentia (aliás crescente e propiciadora do crescimento de várias indústrias, como a hospitalar, a farmacêutica e a de soluções psiquiátricas conveniente para o mercado), fazem dela o alvo ideal para, por um lado, expandir o nível de atividade econômica sem combater a desigualdade social (justificada) e, por outro lado, para disseminar uma cultura que nem é popular nem erudita – uma colcha de retalhos que, por exemplo, reduz a arte a entretenimento de massas.
Então, se, economicamente falando, a classe média é indispensável à exigência de escala (quantidade) que viabiliza uma economia de maior porte e com um mínimo de diversificação de produtos, ideologicamente ela é fundamental para que o sistema econômico não seja ameaçado por questionamentos ao regime político e às condições sociais vigentes. Do mesmo modo, a classe média se contenta com um padrão cultural nada emancipador, suas famílias não raro avessas ou até apavoradas diante, por exemplo, da possibilidade de que seus filhos venham a ser artistas: ofertantes de bens que em geral apresentam dificuldades para ser convertidas em mercadorias a serem vendidas com suficiente lucro – a não ser que se trate de artes ou esportes, nos quais o fanatismo de massas permite o surgimento de personalidades-mercadorias regiamente remuneradas.
O estilo de vida perseguido pela classe média é um estilo que se pode classificar como tosco ou algo parecido: ao passo que tangencia o estilo dos pobres (do contrário se tornaria financeiramente inacessível ao nível de renda médio), emula o estilo dos ricos – a meio caminho, o consumo típico da classe média chega a ser risível, nem por isso deixando de se manter e de ser funcional para os sistemas econômicos baseado na desigualdade e nas trocas.
A classe média foge ao modo de vida pobre e não atinge o modo de vida rico, por isso seu estilo de vida é uma espécie de Frankeistein, obrigando-a a adotar jeitos de viver que estraçalham a alma de quem a ela pertence, na busca frenética de uma identidade pessoal e de relacionamentos interpessoais que a indústria da auto-ajuda lhe apresenta com uma moldura supostamente filosófica, quando não enganosamente religiosa, não raro com ares científicos.
Assim como o avanço político da tirania para a democracia exigiu, historicamente, um despotismo esclarecido, o adequado enfrentamento da desigualdade social (para que pelo menos cesse de se aprofundar) exige, hoje, a existência de uma classe média esclarecida, pois sem isso, esta classe servirá como ponta de lança para um mundo pior que o atual. O que seria uma classe média esclarecida? O que fazer para que ela venha a existir? Perguntas cujas respostas não podem ser facilmente obtidas, mas não perderão nada se partirem da aceitação de que a indústria cultural, tal como teorizada pela Escola de Frankfurt, é um dado de realidade altamente prejudicial à emancipação do indivíduo e à construção de um mundo melhor, menos competitivo e mais solidário.
[Existe uma classe média global]




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