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Dubai e a classe média global

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 3 dias
  • 10 min de leitura

“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, conclamavam o velho Marx e seu parceiro Engels, no famoso Manifesto de meados do século XIX. A classe operária bem que tentou, mas ainda não chegou lá e não se sabe se algum dia chegará, se é que segue tentando. A classe média, por sua vez – abominável contingente de “pequenos burgueses” na linguagem e na visão de mundo dos marxistas – nunca se sentiu atraída por manifestos ou chamados a agrupamentos e associações que ofuscam a inalienável individualidade do sujeito que é seu credo fundamental. E esta “não-classe” (na conceituação marxista e no próprio coração de seus membros) cresceu acompanhando a disseminação e a consolidação do modo de produção capitalista, dando sustentação aos mercados consumidores de massas em todo o mundo. Ela sim, a classe média, terminou se unindo, mesmo sem querer, ensejando mercados globais a toda espécie de mercadorias. Uma delas, os produtos turísticos, bem pode ser associado a uma paródia da frase inicial do Manifesto Comunista: “Consumidores [de classe média] do mundo, dispersai-vos!”, ou seja: viagem, adquiram seus pacotes turísticos e conheçam o mundo, desfrutem as delícias de outros lugares que não os seus. E então o êxodo voluntário e temporário tornou-se uma prática corrente. E a indústria do turismo de massas floresceu e frutificou, enraizou-se, aparentemente para sempre. Seus destinos são numerosos, seus operadores, incontáveis, sua fatia no PIB global, crescente. Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, ingressou nesta onda e hoje nela figura como estrela de primeira grandeza, rivalizando com capitais árabes, com potências turísticas tradicionais como as europeias e também com as regiões chinesas que estão conquistando fatias de mercados até há pouco inconcebíveis.

 

Que classe média é essa e por que é tão atraída por Dubai? O que essa atração revela sobre Dubai e sobre a própria classe média global?

 

É bom começar esclarecendo o que aqui se denomina “classe média global”. Uma vez mais, não se trata propriamente de classe, mas sim da aglutinação arbitrária de um conjunto de indivíduos, presentes no mundo todo, dotados de um poder de compra que torna cada um deles alvo atingível por produtos/serviços-mercadorias massificados (como pacotes turísticos internacionais, no caso aqui em pauta), oferecidos por empresas de segmentos cujos bens e/ou marcas, por um lado não são acessíveis aos pobres e, por outro lado, não interessam aos ricos. Ricos não demandam pacotes turísticos, possuidores que são de aeronaves ou adquirentes que podem ser de voos exclusivos, por exemplo, para ir de um país a outro com rapidez, além de poder escolher seus próprios hotéis de luxo nos destinos desejados; pobres, se adquirem pacotes turísticos, não o fazem, quando muito, senão para ir – geralmente de ônibus – à praia ou às montanhas mais próximas.

 

Compõem a classe média global, entre outros, os membros de categorias sociais como: ocupantes dos mais bem remunerados cargos governamentais e universitários, os principais agentes de organismos multilaterais e seus assessores de primeiro escalão, artistas e esportistas de alta performance e renda que não atingiram o estrelato (pois os que atingiram são ricos ou muito ricos), médios e grandes empresários bem-sucedidos, gestores de megaempresas e uma parte de seus colaboradores de primeira linha, profissionais liberais de expressivo renome (economistas, advogados, arquitetos, médicos etc.), profissionais de tecnologia da informação no topo da carreira (parte destes configurando o grupo crescente de nômades digitais, que trabalham em home-office, sendo a residência e o escritório móveis, pelo mundo), ocupantes do topo da cadeia de comando de empresas financeiras/bancárias/imobiliárias e de  transportes/logística, além dos “turistas profissionais”: os tradicionais aposentados de alta renda de países ricos e os recentes mantenedores de canais e contas  de grande audiência na internet (muitos dos quais explorando os temas viagens e turismo) etc. Em boa parte, são indivíduos que se beneficiam de vantagens advindas do acúmulo de milhas de viagens em companhias aéreas, de upgrades por fidelidade em redes hoteleiras, de pontos em cartões de crédito pelo volume de despesas realizadas, de tratamento exclusivo em aeroportos e agências de viagens, de benefícios em cartões de viagens etc. A eles se destina um volume bastante significativo de eventos internacionais que se realizam com regularidade, em todas as partes do mundo, constando do calendário de entidades, regiões ou países. De modo que aos deslocamentos por obrigações profissionais, costumam acrescentar um tempo e recursos para turismo.

 

A renda pessoal, em dólares, de alguém pertencente à classe média global costuma se aproximar, atingir ou até mesmo superar a renda dos indivíduos ricos quando se considera a pirâmide das remunerações num país pobre ou de renda média. No Brasil, por exemplo, o percentual da população economicamente ativa que se encaixa nesse perfil é bem reduzido: ganham aproximadamente entre vinte e trinta mil reais (entre quatro  e seis mil dólares) mensais, algo próximo de reduzidíssimo 1 por centro dos ocupados no país (dados de 2023-2025). O percentual de detentores de passaporte sobre a população economicamente ativa seria um bom indicador do potencial brasileiro de inserção no turismo internacional de classe média global, mas este indicador não é disponibilizado.

 

É a classe média global, portanto, que mantém a seu serviço um conglomerado de agentes que investe no turismo internacional padronizado, daí extraindo seus lucros, crescentes ou decrescentes, ao sabor de muita competição e de incessante correria atrás de novidades. E são esses agentes econômicos específicos que a atraem a Dubai: eles ali se instalaram ou ali mantêm relações para aproveitar as ofertas turísticas que os Emirados Árabes Unidos estão viabilizando como forma de transição de sua economia, de petrolífera para de serviços (financeiros, logísticos, turísticos etc.). São, portanto, uma espécie de sócios de ocasião e de periferia dos fundos soberanos do país em associação com grandes redes do capital global que migram para as nações árabes para aproveitar oportunidades de ganho e também para operar em locais onde não são cobrados impostos.

 

Explica-se por essa via, em grande medida, a emergência e consolidação de um destino turístico antes praticamente inexistente, inclusive por medo (já que a região é marcada por conflitos) e preconceito difuso (religioso/Islã e político-ideológico/monarquias absolutistas). Dubai sendo, talvez, o caso mais vistoso no qual se salta de uma inóspita e insípida área de práticas econômicas primárias para uma metrópole vibrante e potente, com visibilidade mundial. E isso não teria ocorrido sem que houvesse iniciativas próprias visando este resultado, dotadas de meios financeiros abundantes e adequadamente administrados para esta finalidade.

 

A marca essencial de Dubai no universo turístico é a do luxo. Um luxo que se bifurca em dois blocos: um, verdadeiro e muito caro, destinado a indivíduos realmente ricos ou muito ricos; outro, imitativo, mais barato, destinado à classe média global. Essa bifurcação é funcional para manutenção do arranjo turístico da cidade. Isso porque a classe média global tem os pés no andar de meio (com risco de cair para o de baixo), mas os olhos voltados e o coração batendo no andar de cima. Os que a ela pertencem necessitam sentir-se ou parecer, ainda que não sejam, parte de algo exclusivo, distintivo. (Vale, a esta altura, chamar a atenção para o fato de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, ter atraído para si o apelido de Dubai brasileira.)

 

Com que elementos concretos Dubai atinge a finalidade de chamar a atenção e provocar deslumbramento na classe média global, ao mesmo tempo em que atrai para seu território capitais volumosos para investimentos, e também seus donos em busca lazer e entretenimento ou até para qualidade de vida acessível a uma fração mínima de toda a humanidade?

 

São numerosos esses elementos, sendo importante ressaltar que eles surgiram como resultado de uma estratégia deliberada do governo dos Emirados Unidos Árabes (como, de resto, também de outros países da Península Arábica) com vistas a reorganizar sua economia face aos mercados/negócios globais, passando a fazer uso dos abundantes recursos oriundos da exploração de petróleo para criar e consolidar uma economia de serviços e de atração da atenção e do interesse internacionais, economia essa entendida como uma necessidade para a sustentação do país quando do previsível esgotamento das fontes petrolíferas. Dubai provavelmente é o caso mais bem-sucedido nessa perspectiva e direção, até o final do primeiro quartel do século XXI.

 

Pode-se afirmar com elevado grau de segurança que significativa parcela da atual economia de serviços de Dubai é bem definida se for rotulada como economia de serviços para manutenção de estilo – estilo de vida luxuoso, ostentatório, no caso, tão mais luxuoso quanto maiores as posses dos potenciais consumidores. Ou seja, quando se considera que existem cinco modos de vida (dos muito ricos, dos ricos, da classe média, dos pobres e dos miseráveis), conclui-se que a economia de Dubai prima por oferecer o estilo de vida que procuram ou mantêm os muito ricos e os ricos, com sobras miméticas para a classe média global, como aqui se tenta afirmar. Enquanto muito ricos e ricos desfrutam em Dubai de lazeres e prazeres absolutamente exclusivos (não encontradiços, inclusive, em outros lugares), a classe média global ali desfruta de diversões e entretenimentos que têm de exclusivos o fato de serem praticados exatamente em Dubai: uma coisa é um parque de diversões na Romênia ou na Suíça, outra é o mesmo parque de diversões em Dubai, com toda a carga de inovação e requinte tecnológico e urbanístico, novidadeiro, de Dubai que, além disso, situa-se em região do planeta ainda considerada um tanto exótica. É como se Dubai acrescentasse ao estilo de vida de quem a acessa e dela desfruta um elemento de requinte tendencial: o luxo do futuro. E isso o turista pode respirar no ar (quentíssimo, se não refrigerado) de Dubai; pode sentir nos olhares em Dubai; pode captar nos gestos e atitudes em Dubai, tanto de quem serve como de quem é servido. Isso tudo enquanto se sente aturdido nos primeiros momentos circulando nas vias e adentrando os recintos cinematográficos da grande cidade. Não sendo um expatriado (mais de 80% dos residentes), o turista de classe média global experimenta ali sensação (falsa, claro) de poder, riqueza, prazer e maravilha de um membro da própria família real: em tudo atendido e bem atendido por serviçais devidamente preparados, vindos de muitos países como Índia, Paquistão, Filipinas e outros do próprio Oriente Médio ou da África.

 

Dubai, por assim dizer, aluga por alguns dias, ao turista da classe média global, um arremedo do requinte, do luxo e do conforto de que quotidianamente, e sem se preocupar com custos e preços (ao contrário dos locatários), desfruta a poderosa família real quase dona, senão de fato proprietária, dos Emirados Árabes Unidos. Desde que isso não passe pela cabeça do mencionado turista, Dubai oferece, sem drama de consciência nem preocupação de qualquer natureza, uma experiência imersiva – urbanística, arquitetônica, paisagística, gastronômica, cultural, de lazer – como poucos outros destinos atuais.

 

Saltam aos olhos, em Dubai, os “grandes feitos”, que costumam virar atrativos e motivo de orgulho local. Ali há muito de único, mais caro ou maior do mundo. Logo ao chegar, o viajante topa com um deles: o Aeroporto Internacional de Dubai, há mais de uma década líder de tráfego internacional, cujo terminal 3 é um dos maiores do mundo. É uma obra-prima de engenharia e tecnologia, com sofisticada arquitetura, notáveis funcionalidade, limpeza e segurança, com admirável volume/qualidade de opções de serviços e compras (incluindo quase todas as marcas e redes globais).

 

Das compras no aeroporto às compras no destino – Dubai possui um dos maiores shopping centers do mundo: The Dubai Mall, com suas lojas e restaurantes de luxo, um aquário e um zoológico gigantescos, uma pista de gelo e um parque temático. É possível esquecer o mundo lá fora neste paraíso de consumo e entretenimento, com opções para os mais variados gostos e posses, a partir de um patamar não acessível aos mais pobres.

 

O Dubai Mall localiza-se no complexo do Burj Khalifa, o mais alto edifício do mundo (828 m), arrojada construção que se tornou um dos principais ícones da cidade, compondo destacadamente sua admirada skyline. Inaugurada em 2010, esta portentosa edificação levou seis anos para ser concluída, ao custo de mais de um bilhão e meio de dólares, com a explícita intenção de conquistar centenas de posições em rankings internacionais e de atrair admiradores e visitantes. Seus andares 124 e 125 são mirantes que permitem ver, de um lado, o deserto e, de outro, o mar, além de toda exuberância urbana de Dubai, maximizada por luzes coloridas à noite. O inconveniente é enfrentar as longas filas para chegar a estes pontos do prédio (utilizando elevadores rapidíssimos) e, lá chegado, disputar o espaço palmo a palmo com a multidão curiosa e ávida por tudo ver/fotografar e também por adquirir os variados souvenirs ali vendidos aos milhares, diariamente. Seja visto de fora, em sua monumentalidade, seja visto por dentro, com suas atrações incomuns, o Burj Khalifa é, sem dúvida, capaz de proporcionar uma experiência turística rara.

 

Burj Khalifa, o mais alto edifício do mundo
Burj Khalifa, o mais alto edifício do mundo

Enquanto visto de baixo o que mais chama a atenção em Dubai é o Burj Khalifa, mais notável, vistas de cima, são The Palm Islands, três arquipélagos artificiais (Palm Jumeirah, Palm Jebel Ali e Dubai Islands) que são os maiores do mundo, desenhando nas águas o perfil das árvores que lhe dão o nome. Construídas com areia trazida do fundo do Golfo Pérsico (pois a do deserto seria levada pelas águas) e pedras das proximidades, The Palm Islands são um mundo novo, para os muito ricos e ricos ali levarem uma vida exclusiva, enquanto nos arredores de suas residências admiradas pela massa de classe média (condição que açula a sensação de exclusividade...) essa mesma massa de indivíduos, propensos à imitação dos ocupantes do andar superior, tiram fotos, realizam compras e praticam atividades de lazer como quem lambe a embalagem da guloseima que deseja mas não pode comprar. Como obra de engenharia, urbanismo e arquitetura, essas ilhas são uma conquista tecnológica muito significativa; como recanto para moradia e lazer para pessoas e famílias ricas, são uma opção que se revelou bem-sucedida; como lugar para a classe média global dar vazão à sua necessidade de olhar no espelho e ver-se como quem não pode ser, acreditando ser, é um experimento singularmente revelador.


The Palm Island: área urbana luxuosa criada nas águas do Golfo Pérsico
The Palm Island: área urbana luxuosa criada nas águas do Golfo Pérsico

Como espaço urbano que pretende estar antecipando o que serão as cidades do porvir, Dubai ousa possuir, desde 2022, um Museu do Futuro, cuja arquitetura curvilínea antecipa que os desdobramentos do tempo não são lineares. Localiza-se em meio a edifícios e vias expressas, como uma espécie de engaste na joia que é Dubai. Seu acervo, como não poderia deixar de ser, trata de avanços tecnológicos e inovações em diversas áreas, destacando-se explorações dos campos da robótica e da inteligência artificial.


O Museu do Futuro quando, no presente, a noite chega
O Museu do Futuro quando, no presente, a noite chega
Vista interna do Museu do Futuro
Vista interna do Museu do Futuro

[Continua]

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