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  • Foto do escritorValdemir Pires

Quando eu fui a Macau (1ª. parte)

Atualizado: 13 de out. de 2023


(Um breve relato – em tantas partes quantas a vontade e o tempo cronológico do autor permitirem – para ajudar a entender um pouco a respeito da mudança de tempo histórico na virada do século XX para o XXI – momento de gênese e consolidação da globalização neoliberal.)



Boarding passes de viagem de ida e volta do Brasil a Macau, com diversas companhias aéreas, 1998


Premissa


Eu sou um viajante unidirecional no tempo cronológico, como todo mundo. Mas sou, como apenas os da minha geração (ou poucas outras parecidas com ela, no passado), um viajante diferente dos demais, no tempo histórico: minha geração é de travessia - nasceu na segunda metade do século passado e adentra, longeva, a primeira parte do século atual, presenciando e sentindo (às vezes protagonizando) os impactos de uma mudança profunda em todo o planeta, de transição tecnológica, ambiental, social, política, econômica, cultural e até espiritual. O relato que se segue pode ajudar a compreender o que isso significa para mim e, quiçá, também para todos, para o mundo, para o futuro.


Viagem no espaço – O Sudeste Asiático e seus Tigres perdendo unhas e dentes


"Com ou sem dentes e unhas, um tigre é sempre um tigre."


Em meados de 1998 eu fui a Macau, no extremo sul da China. Foi a minha primeira viagem internacional, tardia e conquistada com exagerado esforço. Eu tinha então trinta e quatro anos; casado, meu filho estava indo para os nove anos de idade. Como professor-pesquisador da extinta Universidade Metodista de Piracicaba, fui apresentar o paper Limites da reinvenção do governo: insuficiências do neoliberalismo? no III Encontro de Economistas de Língua Portuguesa.


A minha intenção íntima era perder-me num lugar do mundo totalmente desconhecido para mim e, depois, reencontrar-me e retornar ao ponto de origem, dono de algum tipo de transformação. O objetivo profissional, acadêmico-científico, era ir ao centro do furacão econômico daquele momento e, como economista, debater os eventos catastróficos da crise que desde 1997 afetava os chamados Tigres Asiáticos, sendo Hong Kong, vizinho de Macau, um deles (juntamente com Coreia do Sul, Taiwan e Singapura). Eu tinha em mente, como se pode perceber pelo título e pelo teor do trabalho apresentado, polemizar com os neoliberais de então, relutantemente obrigados a admitir que sua visão de mundo, fundamento teórico-ideológico da ascensão das economias emergentes do Sudeste Asiático, continha (e contém) equívocos incontornáveis, parte deles fonte daquela crise que estava se tornando global. Em outras palavras, eu me alinhava, no final do século XX, aos críticos da então ascendente ortodoxia econômica, contrária à intervenção do estado, favorável à abertura das economias às relações com o exterior (sob câmbio flutuante e respeitando a ricardiana lei das vantagens comparativas), defensora do mais radical individualismo (com sua meritocracia exuberante) contrário às políticas sociais.


A viagem foi muito longa (mais de trinta horas), como poucas podem ser, voando. E desconfortável, nas acomodações apertadas da classe econômica, mesmo das melhores máquinas e das mais renomadas companhias aéreas. O tempo, nesse tipo de deslocamento, não passa, cada minuto parece uma hora, depois de algum tempo no ar; crianças começam a chorar e os pais não conseguem confortá-las; o cheiro de comida invade o ambiente, antes de serem servidas; as costas começam doer e é preciso levantar e ficar de pé num corredor estreito em que outros passageiros transitam; os banheiros são disputados...


Comecei com o traslado, de ônibus, de Campinas ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, feito pela Caprioli Turismo (21/06/1998, 18:30h). De Piracicaba a Campinas fui levado pela esposa e filho, de automóvel, cheio de malas (levando mais do que viria a ser necessário). Foi difícil a despedida, todos temerosos com o que poderia acontecer, devido à inexperiência com o tipo de evento que estava se iniciando.


Voei (com a Vasp, que ainda existia) de São Paulo (21/06/1998, 23:10h) a Seul (23/06/1998, 18:35h – note-se o efeito do fuso horário, sendo a duração de quase 27 horas), capital de outro Tigre Asiático, com escala em Los Angeles, em cujo aeroporto passei algumas desconfortáveis horas trancado numa espécie de aquário de vidro, impedido de sair (até o ingresso na nova aeronave) por não ter visto de permanência nos Estados Unidos. Ali, o primeiro choque: as dimensões do aeroporto, sua complexidade e tecnologias (por exemplo, intermináveis esteiras levando de um lugar a outro) e, tão notável quanto o resto, a vigilância sobre as pessoas e o poder quase absoluto dos agentes locais sobre os viajantes, a começar pelo momento desconfortável de solicitação do passaporte. Nessas situações é que se pode sentir o imenso desconforto de ficar à mercê de alguém, sem possibilidade de reação, ainda que sem a ameaça de uma arma, como nos casos de tortura ou assalto com risco de homicídio (em que o desconforto se torna medo ou pavor).


O voo pode ser longo, mas o bafo tem que ser curto


Em Los Angeles, o inesperado: conheço um pernambucano e encontro um... piracicabano! (Não, o mundo não é pequeno: eles estavam indo para o mesmo evento que eu.) E lá se foi minha possibilidade de me perder completamente na China, embora eu a tenha resgatado parcialmente depois, em Hong Kong, por um dia.


Em Seul, a sensação foi bem diferente. O aeroporto Internacional de Gimpo (substituído para voos internacionais, logo em 2001, pelo de Incheon, muito mais sofisticado) já não impressionou tanto, seja porque era menor que o americano, seja porque o deslumbramento de primeira hora tinha sido absorvido por Los Angeles. Ali o que marcou foi o fato de os passageiros serem transferidos de um lugar a outro por ônibus, tendo a oportunidade de apreciar o campo aberto à sua frente (área descampada, pouco distante da aglomeração urbana de Seul. Todo o tratamento era menos prepotente, os agentes aeroportuários dando a impressão de serviço – não me senti, então, como em Los Angeles, um presidiário sendo conduzido pelos carcereiros. Houve até direito a permanecer por um curto espaço de tempo nas lojas do aeroporto e fazer compras. Eu adquiri uma máquina fotográfica Samsung Slim Zoom 145, eletrônica (vendida pela simpática balconista da foto abaixo, que que fez a gentileza de posar para a primeira foto clicada com ela). Para um tempo em que não havia as impressionantes máquinas fotográficas em celulares (estes ainda raros na maior parte do mundo), esta aquisição representava um salto tecnológico imenso: câmera compacta com zoom, controle remoto para disparo, display em LCD, flash embutido, possibilidades semiprofissionais de configuração de leitura de luz, abertura, velocidade etc. Mas os filmes continuavam necessários. Era preciso inseri-los no equipamento, captar as imagens, depois revelar o negativo e escolher fotos a imprimir em papel fotográfico. Quem desejasse fotos imediatas tinha que recorrer às chamadas polaroid (marca que se tornara designação de câmeras que produziam fotos na hora, com menor qualidade).



Balconista de loja do aeroporto de Seul, 1998


De Seul segui voando com a impressionante Korean Air (voo mais curto, das 18:35 às 21:05, sem escala e agora sem problemas de fuso horário), cujo avião (atrás de mim, na foto abaixo) e serviços de bordo estavam muito à frente daqueles da Vasp. Além disso, a aeronave da Korean Air era um Boeing 747, enquanto a Vasp estava ainda comemorando a aquisição dos trijatos MD-11. Viajei sentado ao lado de um jovem paquistanês muito falante, mesmo sem ser entendido. Fora isso, voo muito tranquilo, permitindo recuperar um pouco o cansaço.



Aeroporto de Seul em 1998, Boeing 747 da Korean Air ao fundo


De Hong Kong a Macau, uma travessia de barco impressionante. Pelo sofisticado veículo utilizado (jetfoil) e pela beleza do lugar. Primeira classe (o real dava ainda uma vantagem ao viajante brasileiro ali no Sudeste Asiático, pataca em Macau e HK dólar em Hong Kong), início da viagem às 11:30. Fugiu da memória o que fiz entre a chegada no aeroporto e a navegação de Hong Kong a Macau. Com todas as malas, não foi agradável, disso me lembro, as rodinhas enroscando num chão pouco regular (de paralelepípedos?).



Câmbio favorável ao real em Macau, 1998


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