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Diário da Biblioteca – III (cont.), 12/05/2026

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 6 horas
  • 7 min de leitura

Ler livros e ler pessoas


“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer

aquilo que tinha para dizer.” (Italo Calino)

 


A biblioteca à tarde
A biblioteca à tarde

Devolvido O homem que amava os cachorros, fui imediatamente à estante de obras recomendadas pela biblioteca para apanhar, de Mario Vargas Lhosa, A cidade e os cachorros. Mas voltei rapidinho à seção de empréstimos com o “rabo entre as pernas”, feito cão amuado, e perguntei ao funcionário se o título tinha sido retirado por outro usuário, pois era o único faltante entre todos os que estavam no expositor de recomendados, de literatura latina, na semana passada. E ele gentilmente consultou o sistema eletrônico, constatando e me informando, sorrindo por dar a boa notícia, que havia dois exemplares no acervo, um estando disponível. Pediu que eu aguardasse um instante e logo voltou com o livro nas mãos para me dar. Enquanto registrava a saída, para liberar a obra para mim, comentou que lhe veio à lembrança, na hora que entreguei de volta O homem que amava os cachorros, um outro livro com foto de cachorro na capa, mas não recordava o autor nem o título. Eu ri (pois lembrei-me da crônica Um dia de cães, recentemente publicada neste diário), afirmando que teria gostado de ver a capa por ele mencionada.

 


Cadê o Vargas Lhosa que estava aqui, depois d´A Fúria?
Cadê o Vargas Lhosa que estava aqui, depois d´A Fúria?

 

Feliz da vida, carregando um Vargas Lhosa, meu caderno de anotações e meu estojinho com lapiseiras, canetas, borracha e régua, fui às estantes, depois de pegar um copo de água, para conferir, com exatidão, quantas e quais das obras de Italo Calvino a Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” possui. Eis o resultado da pesquisa:

 


Check-list dos livros de Italo Calvino na biblioteca
Check-list dos livros de Italo Calvino na biblioteca

Não tem problema que não haja Os nossos antepassados, pois trata-se de uma reunião posterior de três outros títulos que estão nas estantes: O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente. Do mesmo modo, não faria falta Um otimista na América, se estivesse disponível Eremita em Paris, já que, embora organizado com menos capricho, o primeiro faz parte do segundo com o título de “Diário Americano”. Um otimista na América foi publicado pela Companhia das Letras em 2023, em comemoração aos 100 anos de Calvino, juntamente com A entrada na guerra e Por último vem o corvo. Ainda não houve tempo nem dinheiro para a biblioteca comprá-los, provavelmente.

 

É uma pena a lacuna aberta pelos 13 títulos faltantes (de 30, 27 se descontados aqueles reunidos em Os nossos antepassados), entre literários e ensaísticos, além do biográfico O caminho de San Giovani, pois são todos excelentes, mormente Mundo escrito e mundo não escrito (artigos, conferências e entrevistas),  As cosmicômicas, a Coleção de Areia (crônicas de experiências) e o único infantil (Perde quem fica zangado primeiro. edição ilustrada).

 


Livros de Italo Calvino na biblioteca
Livros de Italo Calvino na biblioteca

 

Continuando “em companhia” de Calvino, fui dar início à verificação da disponibilidade dos autores por ele considerados “clássicos” (totalizando 35), ou aqueles que, segundo ele, “quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.” Decidi buscar por 5 deles a cada visita. Dos cinco primeiros, encontrei apenas um: Anábase, de Xenofonte; e ainda assim, em espanhol. A Odisseia, propriamente, de Homero, não achei; há adaptações e comentários.  De Ovídio, não encontrei Metamorfoses, mas há, dele, A arte de amar, muito mal acompanhada sob a classificação “Relações entre sexos”. Nada de Plínio (História natural) nem de Nezami (As sete princesas). Tomara que o quadro melhore ao longo das próxima 5 buscas.

 

Que cachorros serão esses?
Que cachorros serão esses?

Próximo passo da agenda prevista para o dia: primeiro contado com A cidade e os cachorros. Ao me deslocar das estantes para a mesa de leitura (decidido a utilizar a mesma da vez anterior), tive que esperar o término de uma fila de crianças que caminhavam entre as estantes ouvindo a professora que lhes dava explicações e fazia provocações: “Aqui ficam os livros de química, para quem vai querer um dia trabalhar num laboratório.”; “Ficção é quando se escrevem coisas inventadas. De onde vocês acham que a gente tira aquelas histórias que a gente conta e vocês gostam?” De início, os pequenos e pequenas, atentos e curiosos, geravam um murmurinho bem agradável. Mais tarde, caíram numa algazarra contida: foram para uma espécie de piquenique no piso inferior do prédio. Bonito de ver.

 

Crianças alegrando a biblioteca
Crianças alegrando a biblioteca

Chegando à mesa, finalmente, sentei-me e – surpresa! – à direita, lá estava o mesmo usuário, mencionado outro dia, sentando-se numa poltrona de posse de vários volumes que começou e continuou a folhear. O que aumentou minha sensação de familiaridade com o ambiente.

 

Peguei o livro para o primeiro contato e – surpresa! – ganhei um marcador de páginas. Peguei para ver. Olhei! É material de divulgação de um lançamento de livro que aconteceu na biblioteca no dia 14 de março passado, à tarde.

 


Lançamentos: atividades que a biblioteca acolhe
Lançamentos: atividades que a biblioteca acolhe

 

No prólogo, descobri que A cidade e o cachorros é uma obra cujo manuscrito, segundo o autor, “rodou como alma penada de editora em editora”, antes de ser publicado. No primeiro capítulo, mais surpresa: novas coincidências zoológicas (que somam às escritas em Um dia de cães): um personagem se chama Jaguar e ele aparece logo na primeira linha; outro se chama Jibóia e vem a seguir, na mesma página; já na terceira página desponta, no meio da neblina, uma vicunha. Mas até o fim deste capítulo, não sei o porquê dos cachorros no título do livro. Seguirei lendo em casa, e então descobrirei. Fim da jornada na biblioteca.

 

Onde o "combate" diário "sofre" uma pausa
Onde o "combate" diário "sofre" uma pausa

Decidido a circular um pouco nos arredores, antes de refazer os 12 quilômetros que separam a biblioteca de minha casa (medidos neste dia), a fim de descobrir locais aonde ir para um café, um refrigerante, um salgado ou um lanche, quando desejar, antes, no meio ou depois das leituras, peguei o carro numa das vagas para leitores idosos onde o deixara, subi a Rua do Vergueiro até a Monsenhor Manoel Francisco Rosa, para pegar a Tiradentes rumo à Saldanha Marinho (como quem volta à biblioteca). Estacionei na esquina da Tiradentes com a Saldanha (portanto a meia quadra da biblioteca), pois era a única vaga disponível. Desci retornar a pé ao bar que vira no meio do quarteirão. Ao fazê-lo, dei de cara com um açougue e, logo ali, numa vitrine, um torresmo em rolo de dar água na boca: “Bom pra cachorro!” – disse o balconista. Não resisti, entrei e comprei um, para saborear com outro apreciador, meu filho Bruno. Isso feito, e bem feito, fui ao bar que me fez parar ali (QG dos Amigos, é o nome dele). Entrei, vi uma coxinha na estufa, pedi-a à moça atrás do balcão. Ela me perguntou se eu não queria outra, feita na hora. Eu, claro, respondi que sim.

 

Alô, passado!
Alô, passado!

Peguei um refrigerante na geladeira vertical e sentei, para esperar a fritura do salgado, num cadeirão próximo a uma mesa alta. Acima dela, um telefone antigo, daqueles que são uma caixa de madeira, com manivela, bem conservado. Na parte superior da parede à minha frente, na parte para dentro do balcão, meia dúzia de máquinas fotográficas antigas. Telefone e máquinas com intenção de dar ares de museu ao espaço. Dentre as máquinas fotográficas identifiquei uma Kodak Instamatic. Então pensei: “É...sou velho: uma das máquinas fotográficas que tive, quando jovem, agora ocupa espaço reservado a antiguidades..”

 

Uma foto de idos tempos
Uma foto de idos tempos

A coxinha chegou, com ares de apetitosa. Quando dei a primeira mordida, prestei atenção ao que estava escrito no pequeno cartaz acima do telefone antigo, sem deixar de perceber que o salgado era bom, mesmo: “Lotação: 218 pessoas”. Tomei um gole de Coca-Cola, mais outro, pensando: “Como é possível? Não cabem. Deve ser alguma brincadeira. Vamos ver se entendo...”

 

Certamente fiz cara de alguém estranhando a coisa, pois um rapaz que estava sentado próximo me disse: “Depois daquela porta tem um quintal com campo de bocha.” Fiz cara de “agora entendi!” e fui ver. Não só o campo de bocha, mas também uma espécie de rancho, com dezenas de mesas e cadeiras. Luís, o rapaz, comentou que no fim da tarde enche de gente. E aproveitou para entabular conversa, sorvendo sua cerveja. Em poucos minutos, fiquei sabendo muito sobre a vida dele (aposentado, depois de fechar uma marmoraria, sem filho, levando a vida...) e, ele, pouco da minha, apesar de perguntar. A conversa me levou a pensar no quanto deve ser interessante o Museu da Pessoa:

 

“O Museu da Pessoa é um museu virtual e colaborativo de histórias de vida aberto à participação de toda pessoa.

 

Aqui você pode contar sua história, organizar suas próprias coleções e conhecer histórias de pessoas de todas as idades, raças, credos, profissões do Brasil.

 

Fundado em 1991, o Museu da Pessoa acredita que contar, escutar, conhecer e preservar histórias de vida pode mudar seu jeito de ver o mundo.”

 

O Museu da Pessoa arquiva “fotos faladas” (“retratos falados” exprimiria melhor o caso, mas remete a delegacias de polícia). Italo Calvino, por sua vez, concebeu-nos como pessoas-livros (e haveria então uma Biblioteca da Pessoa), numa passagem de seu Se um viajante numa noite de inverno: “Leitora, eis que agora você está sendo lida. (...) [com base em] ... todos os códigos, todos os pobres alfabetos por meio dos quais um ser humano acredita em certos momentos estar lendo outro ser humano.” Teria Luís tentado ler aquele senhor estranho (eu) ao lugar, que adentrou o bar onde ele, sozinho, borrava a imagem do mundo em companhia de sua “loira gelada”? Talvez sim, ao modo dele. Quanto a mim, o incluí no meu particular Museu da Pessoa/Biblioteca da Pessoa: figura típica de uma cidade como Piracicaba, encontrada num lugar típico do interior paulista: o boteco de esquina (mesmo localizando-se no meio do quarteirão).

 

Saindo do bar e voltando para o carro, para ir embora, observo que do outro lado da rua há uma academia de ginástica e uma Igreja Presbiteriana. Portanto, quem quiser pode, naquele quadrilátero, ler, beber, comer “porcarias”, jogar, orar e malhar, na ordem que bem entender; depois, pegar um torresmo e ir para casa saborear escondido do cardiologista. Mas se o fizer no final da tarde, vai enfrentar um trânsito desproporcional ao tamanho da cidade, eivado de barbeiros do tipo que não corta cabelos, mas os fazem arrepiar de susto... e “reiva”, como diz o piracicabano raiz.

 

(Continua)


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