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Diário da Biblioteca – II (cont.), 05/05/2026

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • 18 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 26 de mai.

Um dia de cães


“Minhas fraquezas fundamentais: o fumo e a leitura.” (Chê

Guevara)

 


Lateral da Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto" para a Rua Tiradentes
Lateral da Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto" para a Rua Tiradentes

As coincidências me fascinam; e me perseguem. Talvez porque eu me mantenha atento a elas, não sei: que seria das rosas, das orquídeas e das papoulas, ou dos colibris, andorinhas e araras, se não tivéssemos olhos para essas maravilhas? E quanta coincidência nessa visita de 5 de maio de 2026 à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”! Eu diria que foi um dia de cães, a pluralização do animal, aqui, funcionando como inversão do significado da expressão “dia de cão” – dia difícil, dia terrível. Talvez possa dizer, para exprimir o que foi esse dia, em termos de sensação, que foi um dia de urso panda, sorridente, feliz da vida com bambus ao alcance das patas – um dia alegre.

 

Quanto às coincidências vivenciadas, repito: foi um dia de cães, de coincidências envolvendo cachorros e cadelas.

 

Ao ir em busca do livro O homem que amava os cachorros, desci a Rua Tiradentes rumo à Saldanha Marinho. Nessa rua vi que oferecem seus serviços dois veterinários (nos números 351 e 602) e, no número 729, dão banho e fazem tosa. Coincidência 1.

 

Meu primeiro Padura literário
Meu primeiro Padura literário

No capítulo 2 de O homem que amava os cachorros, leio, ainda na biblioteca, que Trotsky levou consigo para o Quirquistão, quando para lá mandado como primeiro castigo imposto por Stalin, uma bonita cadela. O líder soviético brigou quando quiseram fazê-lo separar-se dela ao ser deportado para a Turquia (“É parte da família”, teria dito). Tudo bem, um cachorro a mais na história do homem que amava os cachorros e que, no caso que dá título ao livro, não é Trotsky, mas o seu assassino, Ramón Mercader (com perdão pela revelação deste item da trama). O detalhe – coincidência 2: o nome do galgo de Trotsky era Maya: exatamente o nome da pequena vira-latas que tivemos em casa (a última), recolhida da rua por mim para presentear à esposa, Regina, num fim de tarde em que ela, ao retornar da busca de nosso filho Bruno na escola, sem saber do meu presente, trouxe-nos Dara (labrador, preta), para não deixar sozinha a Catarina (boxer) depois da morte prematura da Luna (dálmata).

 

Antes de deixar a biblioteca depois de tomar emprestado O homem que amava os cachorros, fui olhar as estantes de sugestões de leitura que é uma das atrações mantidas pelos prestimosos funcionários em benefício dos leitores costumeiros (facilitando-lhes as escolhas frequentes) e dos potenciais leitores a serem convertidos em leitores (indicando-lhes títulos atraentes).  E o que foi que ali encontrei? A coincidência 3. Lá estava o livro A cidade e os cachorros, de Mario Vargas Lhosa. Será o próximo que lerei. Por duas razões principais: gosto do autor e não li esta sua obra; vou ver se não aproveito algo dali para acrescentar ao meu livro As cidades visíveis: esboços de futuro.

 

Mostruário com sugestões para leitura
Mostruário com sugestões para leitura

Ao registrar o empréstimo de O homem que amava os cachorros, comentei com o funcionário a coincidência de ter visto na prateleira de sugestões  A cidade e os cachorros. Ele riu e me disse: “Nossa, agora mesmo recebi de volta, de uma senhora, este livro que tem cachorros na capa” – mostrando-me, de Toni Hill, Os bons suicidas. Quarta coincidência.

 

Devolvido por outra pessoa, pouco antes, um livro com cachorros na capa!
Devolvido por outra pessoa, pouco antes, um livro com cachorros na capa!

A quinta coincidência ocorreu quando, no caminho de volta para casa, depois da visita à biblioteca, me sentei numa cadeira na rua defronte a um boteco para tomar uma Coca-Cola (fato já relatado). Mal havia me acomodado e começado a sugar o refrigerante pelo canudo, um cão caramelo veio para perto dos meus pés, me olhando todo pidonho. Tive dó, porque não tinha nada a oferecer. Mas frequentadores logo o chamaram (“Chico, vem, vem!” – Chico, o mesmo nome de um gato que eu conheci anos atrás), oferecendo-lhe pedaços de salsicha ou linguiça.

 

Sugestiva sugestão
Sugestiva sugestão

Mais alguma coincidência? Prestando atenção, sim: o dia em que tomei emprestado da biblioteca O homem que amava os cachorros: 05/05/2026 – 5 é o número do cachorro no jogo do bicho.

 

Voltei para casa fazendo um esforço para me lembrar de todos os cachorros da minha vida, dando-me conta de que, de certo modo, também eu fui um homem que amou cachorros: o Fito (vira-latas de meu avô Angelim e de minha avó Angelina, com quem morei nos anos iniciais da vida no Jardim Cândida, em Araras – não me lembro como terminou); o Roque (primeiro cachorro na primeira casa de meus pais, na Vila Dona Rosa Zurita, também em Araras, que levaram embora para longe, um dia, mas ele voltou); a Catarina, a Luna, a Dara (dadas ao filho Bruno quando criança) e a Maya, já mencionadas.

 

Maya, Catarina e Dara
Maya, Catarina e Dara

(Encontrei mais cães e sobre cães em O homem que amava os cachorros. Vale a pena registrar as seguintes passagens. Na página 369 narra-se uma conversa entre Trotsky e André Breton – ninguém menos que ele, o surrealista! – em que divergem a respeito de os cachorros terem ou não sentimentos, como os humanos. Na página 384, Ramón Mercader, sob o nome falso de Jacques Monard, conhece e acaricia Azteca, cão mestiço que Trotsky presenteou ao neto adolescente, Sieva Volkov, e que os acompanhava quando ambos iam cuidar das lebres criadas pelo avô como entretenimento.  Nas páginas 408-409, sabe-se de que modo, arriscado, Trotsky conseguiu aquele animal para o neto. Na página 417 o jornalista-narrador da história menciona seu poodle Tato passando fome junto com ele e sua companheira Ana. Há mais nas páginas 430, 469, 474-475 – aqui Trotsky diz que sempre amou os cães, 512 – o cão Truco, de Iván Cárdenas Maturell, que vai reaparecer na página 585 sendo enterrado, 521, 525, 546 É cão pra todo lado!)

 

P.S.1: Esta crônica foi escrita no dia 6 de maio. No dia 7, à noite, deparei-me, por acaso, no Youtube, com um relato em que Chê Guevara (autor da epígrafe deste texto), no Congo, encontra um cachorro que acaba sendo adotado pelo seu batalhão, tornando-se, talvez, a terceira fraqueza dele. (Cuba! África! Revolução! da BBC - ver a partir de 45min55seg). O afeto de Chê pelo animal, descobri depois, é objeto do livro O tempo do cão, de António Jorge Gonçalves Ondjaki. Será a tem na biblioteca?

 

P.S.2: No dia 8 de maio, retomei a leitura do original de um livro que um grande amigo (André Rehbein Sathler Guimarães) está escrevendo. O capítulo que abordei é um, tocante, em que Yonas, um refugiado que faz entregas de moto, passeando pela primeira vez numa praia do Rio de Janeiro, encontra Liberdade, vira-latas que termina adotando e batizando.

 

P.S.3: Sou libriano (o que não quer dizer absolutamente nada), nascido aos 8 de outubro (4 anos antes da morte de Chê Guevara, no dia 9 de outubro de 1967); também o é Leonardo Padura, nascido no dia 15 do mesmo mês. Assim como ele, também eu convivi com algumas pessoas que, ao seu modo, querendo ou se vendo obrigadas, “traíram a revolução”, alguns até debandando para a extrema direita ou, em outras palavras, se tornando o próprio “cão chupando manga”.



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