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Diário da Biblioteca - IV, 20/05/2026

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 3 horas
  • 7 min de leitura

Na cidade sem cachorro, voltando ao tempo e no tempo

“Ler é um dos grandes prazeres da solidão.” (Harold

Bloom)

 

A biblioteca numa manhã fria
A biblioteca numa manhã fria

Dia chuvoso e frio, em Piracicaba, este 20 de maio de 2026, sugerindo, com Djavan, “um bom lugar para ler um livro”.

 

Rumo à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, de dentro do carro observo com prazer o trânsito lento e nervoso e a névoa que borra a imagem dos prédios à frente, na parte alta da cidade para onde estou indo. Ligo o rádio e lá está Gal Costa, para fazer com que tudo fique ainda melhor.


O caminho escolhido desta vez para ir de casa à biblioteca (Av. Dois Córregos, Av. Piracicamirim, Av. Independência, Rua XV de Novembro, Rua Tiradentes), pela necessidade de fazer uma compra na farmácia, foi de 9 km, 3 km a menos que o anterior (SP-308, SP-304, Av. Pádua Dias, Av. Centenário, Av. Renato Wagner, Av. Beira-Rio).


Cidade parcialmente nublada
Cidade parcialmente nublada

Os cachorros e um ou outro gato andaram interferindo no rumo do que se escreveu neste Diário da Biblioteca. Parece que agora eles se foram... (inclusive, noticiam, aqueles do Canil da Guarda Municipal de Piracicaba, agora desativado). Antes, levaram a que, na visita de 12/05/2026, eu tomasse emprestado A cidade dos cachorros (1963), de Mario Vargas Lhosa. Mas a partir de certo ponto da leitura, em casa, entendi: neste livro “cachorros” é como os cadetes veteranos chamam os alunos do primeiro ano do Colégio Militar Leoncio Prado, numa espécie de trote duradouro, repleto de tratamentos humilhantes, como costuma acontecer neste tipo de prática que, hoje em dia, procura-se combater nas instituições universitárias brasileiras.

 

Na leitura preliminar na biblioteca, eu ficara sabendo que este livro foi um dos primeiros de Mario Vargas Lhosa; naquele momento, também li o primeiro capítulo – não deu água na boca como outras obras que li, do mesmo autor. A duras penas, continuei a leitura ao longo da semana, sem que “engrenasse”. Fui, mesmo, persistente: é um princípio meu, de leitor, ir sempre até o fim do que começo a ler, pois a experiência me mostrou que certos romances ou novelas são muito bons apenas depois de certo ponto (quanto teria perdido se tivesse abandonado, por exemplo, Sargento Getúlio, do João Ubaldo Ribeiro!); e abandonar sem concluir representa, primeiro, falta de perseverança e, segundo, risco de, por pressa, não apenas comer cru, mas saborear a entrada e perder o prato principal.

 

Enquanto lia sem vontade, perdendo concentração, engolindo sem mastigar, tomei uma decisão, neste caso particular: abandonar na página 104 (de 373). Não consegui espantar o raciocínio que me convidava, quase obrigava, a fazer outra coisa: se resta tão pouco tempo, por que desperdiçá-lo com leituras sem sabor imediato ou sem cheiro que promete algo em seguida? Dilema de leitor, que, no meu caso, nesta ocasião, levou-me a preferir reler algo que faz bem à alma na medida em que se avança rumo às páginas finais: voltei a Italo Calvino, O cavaleiro inexistente, da minha própria biblioteca, talvez pela quinta vez. Mas não evitei, em outro dia, ler, gostando, o Epílogo de A cidade e os cachorros; com isso, quebrando, pela primeira vez, um clássico princípio de leitura literária: jamais correr para o final para saber o que acontece.

 

Depois fui, na quinta-feira à noite, verificar nas minhas anotações quais livros de Vargas Lhosa já li, além de pesquisar quantos e quais me aguardam, se um dia eu puder e quiser chegar a elas. Ah, que triste! Li pouco, de tanto! Os títulos literários principais são: Os Chefes/Os Filhotes (1959/1967), A Cidade e os Cachorros (1963), A Casa Verde (1966), Conversa na Catedral (1969), Pantaleão e as Visitadoras (1973), Tia Júlia e o Escrevinhador (1977), A Guerra do Fim do Mundo (1981), História de Mayta (1984), O Falador (1987), Elogio à Madrasta (1988), Lituma nos Andes (1993), Os Cadernos de Don Rigoberto (1997), A Festa do Bode (2000), Paraíso na Outra Esquina (2003), Travessuras da Menina Má (2006), O Sonho do Celta (2010), O Herói Discreto (2013), Cinco Esquinas (2016),  Tempos Ásperos (2019), Le dedico mi silencio (2023). Eu li apenas os dois sublinhados acima, mais Quem matou Palomino Molero (ausente da lista acima, mas presente nas estantes da biblioteca). E li e reli, também, Carta a um jovem escritor, que não é literatura (por isso não figurando na lista acima), mas um convite a escrever, ou a não fazê-lo, caso o interessado/candidato não preencha as condições para isso – não basta querer. Agora ando curioso para ler o comentado Dedico a você o meu silêncio (que já está disponível em português, mas a biblioteca não possui).

 

Na biblioteca pública, hoje encontrei, além de A cidade e os cães, todos os títulos destacados em cinza na minha lista inicial (acima), mais A chunga, Quem matou Palomino Molero, A civilização do espetáculo (não-ficção), A linguagem da paixão, Orgia perpétua, A tentação do impossível, Batismo de fogo, Contra vento e maré, Peixe na água (memórias). Tia Julia e o escrevinhador tem também em espanhol. Sei que Vargas Lhosa escreveu, ainda, O chamado da tribo.

 

Pensei, enquanto conferia a lista: Vargas Lhosa escreveu Tempos Ásperos! (2019) e Jorge Amado escreveu Os ásperos tempos (1954), primeiro da trilogia Os subterrâneos da liberdade, tratando dos dissabores da ditadura de Vargas (Nota: Vargas que não é Lhosa, mas Getúlio). E registrei mentalmente: Um reacionário peruano e um comunista brasileiro: na América Latina tempo áspero pode ter diferentes significados. Lhosa, todavia, trata também de política em Tempos ásperos, pois o assunto é o golpe de estado de 1954 na Guatemala, orquestrado pela CIA (ano do fim do segundo governo Vargas no Brasil).

 

Cães insistentes legados ao passado, doravante (espero), e Vargas Lhosa com seus cachorros humanos devidamente devolvido à estante, além de “mapeada” a obra completa deste autor, o próximo passo, Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, no dia 20 de maio, foi a verificação da disponibilidade de mais cinco dos clássicos de Italo Calvino nas estantes. A situação é a seguinte: Joanot Martorell (Tirant lo Blanc) – não há; de Ariosto há Orlando furioso: cantos episódicos, em bela versão de capa dura; Gerolamo Cardano (De consolatione) – não há; Galileu (Saggiatore ou O ensaidor) – há um exemplar do título em português, da Coleção “Os Pensadores”; de Edmond Rostan (Cyrano de Bergerac) estão disponíveis 11 exemplares! Opa: 3 de 5! Eu havia dito que Calvino resenha 35 clássicos no seu Por que ler os clássicos, mas corrijo: são 34, pois me dei conta de que Orlando furioso aparece duas vezes lá. Então, faltam 24 para ver se há na biblioteca, cinco a cada visita, como já decidido.


Galileu
Galileu


Cyrano de Bergerac
Cyrano de Bergerac
Orlando
Orlando

Decidi, desta vez, tomar emprestado algo para prosseguir meus estudos sobre o tempo: pensei em Norbert Elias, Sobre o tempo. Fui à estante com a classificação e a notação referentes à obra: nada, não faz pare do acervo. Fuçando, encontrei outro texto de interesse sobre o assunto: O ser-tempo: algumas reflexões sobre o tempo da consciência, de  André Comte-Sponville. Peguei, fui à mesinha para a inspeção preliminar. Pelo que conheço do tema, suponho, de antemão, que o autor dialoga com Bergson e com Proust. Mas isso fica para verificação ao ler o texto completo, pois nas primeiras páginas quem “comparece” é Santo Agostinho (primeiro a conceber o tempo do ponto de vista da consciência e não como algo externo a ela). E da página 16, registro: “É por isso que há um tempo para a espera [futuro, digo eu] e outro para a saudade [passado, digo] (...)”


Voltando ao tempo
Voltando ao tempo

Por falar em tempo e saudade, antes de ir à biblioteca, decidi “voltar no tempo”: almoçar no centro da cidade, num restaurante em que fazia algumas das refeições da semana logo quando me mudei para Piracicaba, vindo de Araras, em 1985: o Bistecão, ao lado da Catedral. Quis saber se ali ainda servem o mesmo prato de há quarenta anos, quando se pede a bisteca da casa. E servem, enorme e saboroso! Além da bisteca grossa, ao ponto, que toma um prato inteiro (com cebola e tomate picadinhos, preparados junto com a carne na grelha), uma travessinha de arroz branco, uma cumbuca de um feijão deliciosamente temperado, farofinha temperada, batatas palha fritas na hora (ou couve refogada, para quem preferir), além da salada de alface, rúcula, tomate e rodelas de cebola. Comi feito um rapaz de vinte e poucos anos... No caixa, quando fui pagar, ninguém menos que um senhor que eu conheci rapaz. Não só as feições do jovem de há décadas escondidas na face do sexagenário, mas também os trejeitos do corpo ao se mover, de que eu me lembrei perfeitamente. Falamos do César, o tio dele, que, nos anos 1980 dava vida àquela casa, com seu jeito singular de anfitrião de quem quer que lá chegasse; e que gostava de conversar com um amigo com quem eu ia lá com frequência, dividir o prato: Heitor Gaudenci Júnior.


O Bistecão
O Bistecão

O bistecão, propriamente dito
O bistecão, propriamente dito

Tomei o café, despedi-me e, pisando de volta na calçada ao lado da Catedral, retornei a 2026. Peguei o carro, fui à biblioteca, na frente da qual ocupei a vaga reservada para idosos, ladeada por uma vaga para deficientes físicos e por um aparato para guardar bicicletas. Deixei no painel do carro a minha credencial para este tipo de vaga, ou seja, o meu “certificado de velho” ou “cédula de identidade de ancião”. Já não sei dizer se sou um velho leitor ou um leitor velho, por isso não vou pensar nem falar nisso, agora, enquanto agradeço a visão e a concentração que me possibilitam continuar lendo, e também escrevendo.


A vaga preferencial para idoso
A vaga preferencial para idoso

E aproveito para agradecer a você, que me lê (ou bisbilhota, aqui), qualquer que seja a sua idade, ao passo que aviso: lá na biblioteca tem coisa muito melhor esperando por sua atenção. Veja algumas, escolhidas entre tantas:


Os sonâmbulos e outros, talvez acordados
Os sonâmbulos e outros, talvez acordados


O homem sem qualidades, e outros, talvez com alguma
O homem sem qualidades, e outros, talvez com alguma


Todo o Balzac
Todo o Balzac

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