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  • Foto do escritorValdemir Pires

O caminho de San Giovanni




Sobre O caminho de San Giovanni, de Italo CALVINO, tradução de Roberta Barni (São Paulo: Companhia das Letras, 2000, 119 p.)

 


Em outubro de 2023 Italo Calvino teria completado cem anos, dos duzentos que precisaria ter vivido para se aproximar do esgotamento de suas criativas contribuições ao universo da literatura e do pensamento. Em seu O caminho de San Giovanni se conhece um pouco mais do ser humano por trás do revolucionário escritor apreciado em todo o mundo; trata-se da reunião de cinco deliciosos textos, em tom ensaístico, de fundo biográfico, esparsamente publicados nos anos 1960-70.


O texto que dá nome e início ao livro relata e reflete sobre a relação do autor com sua família, especialmente com o pai, vivendo em área rural da então pequena San Remo. “Vocês hão de compreender quanto nossos caminhos divergiam, o de meu pai e meu.” (p. 21), ele dirá, mostrando que sempre procurava descer para a cidade próxima, enquanto seu velho pai preferia subir para as plantações que cultivava, se esforçando para seduzir os filhos para se ligarem à terra. O relato é pungente e transporta o leitor para o lugar e para as relações da infância e adolescência de Calvino. O segundo texto, Autobiografia de um expectador, prossegue revelando o dia a dia do jovem futuro escritor no seu esforço para “fugir do lugar” que o sufocava, frequentando assiduamente as salas de cinema, às vezes às escondidas da família. Mas o texto vai além, constituindo-se numa reflexão sobre os filmes americanos, franceses e italianos dos anos 1930, culminando com um posicionamento a respeito da obra de Fellini.


Em seguida, uma passagem marcante da vida de Calvino – seus dias de resistência ao fascismo como partigiano – é evocada, em Lembrança de uma batalha. A memória se revela falha, titubeante; em passos trôpegos, as palavras vão se alinhando e revelando acontecimentos e sentimentos face às convicções libertárias e ao medo da morte estúpida em combate. Mas a dúvida não desaparece em nenhum momento: “Não sei se estou destruindo ou salvando o passado, o passado oculto naquele vilarejo sitiado.” (p. 72)


Cardù, o do “sorriso descarado e tranquilo”, extremamente audaz, não sobrevive ao combate em Baiardo, ao contrário de Calvino que, mais tarde, residirá com a família em Paris. É, entre outras coisas, das relações nesta nova família, por ele constituída e não herdada (como a de San Remo), que trata La poubelle agréée, ou seja, a lixeira padrão aprovada para uso em cidades francesas. Com requinte sociológico e humor fino, o Calvino “doméstico” explica minuciosamente como procede para o descarte do lixo caseiro que lhe compete na divisão das tarefas diárias da casa. Dessa tarefa prosaica – sempre fugindo do quotidiano, como quando divagava ao carregar cestos com frutas e verduras para ajudar o pai em San Giovanni – Calvino deriva para reflexões a respeito da vida urbana, da civilidade e do contrato social, da mudança nas relações entre homem e mulher quando se procura dividir as tarefas domésticas equitativamente etc.: da cozinha para o mundo e deste para aquela, de volta, inquietudes, com muito bom humor.


Do opaco finaliza a coletânea. Que o dito aqui sobre os textos anteriores seja suficiente para motivar o potencial futuro leitor a abrir as páginas de O caminho de San Giovanni, e, além de descobrir do que trata o texto final, saborear com calma e plenitude o conteúdo filosófico-literário dos demais.

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