A conexão entre as bibliotecas pública e pessoal (Diário da Biblioteca – VI, 25/05/2026)
- Valdemir Pires
- há 3 dias
- 6 min de leitura
A conexão entre as bibliotecas pública e pessoal

“Ler é sonhar pela mão de outrem.” (Fernando Pessoa)
No último dia 22, sexta-feira, fiz uma “visita virtual” (tanto quanto esta é possível no caso) à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”. O tipo de visita-consulta que realizei é bastante útil, em certos casos (como, por exemplo, verificar, previamente à busca física, se há determinada obra no acervo). Mas nem de longe substitui a eficácia e o prazer da visita, mesmo (física, presencial, in loco), por uma série de motivos que nem vou enumerar, pois todos são capazes de imaginar a diferença entre uma modalidade e outra de interação com a biblioteca. Para mim é triste imaginar que um dia os acervos bibliográficos poderão ser apenas virtuais. Acredito que tal ocorrência é mais triste, ainda, do que o desaparecimento dos cinemas, substituídos, primeiro, pelos videocassetes e DVDs domésticos, e, agora pelas plataformas de streaming.
Como ainda posso, estou retornando á biblioteca pública da minha cidade. Vou devolver um livro e pegar outro, seguindo uma rotina que, finalmente podendo, na vida, decidi manter, por vários motivos, mas principalmente por um específico tipo de prazer de leitor e pela decisão de prestigiar uma instituição que anda desprestigiada pelos potenciais usuários e, talvez por isso, mas não só, negligenciada pelos poderes públicos locais no Brasil, em geral, e em Piracicaba, em particular.
O livro que estou devolvendo é O Ser-Tempo, de André Comte-Sponville, que descobri na última visita, quando buscava outro autor. Que feliz descoberta! Li num só fôlego. É, evidentemente, um livro que não pode ser lido com facilidade: afinal, trata-se de filosofia, e filosofia que lida com um tema extremamente complicado, como é o tempo. Eu pude ler com relativa rapidez por três motivos. Primeiro porque é uma brochura pequena e curta (145 páginas). Segundo porque o autor escreve muito bem, com boa ordem e fluidez. Terceiro, porque sou um leitor qualificado do tema, lidando com conhecimento prévio com as citações amplamente utilizadas ao longo da argumentação que sustenta as cinco teses sobre o tempo ali defendidas, com inteligência e sensibilidade (amalgamadas entre si) incomuns.
Em nota anterior neste Diário, eu me perguntava se Comte-Sponville, francês que é, e abordando o tema que neste livro aborda, não estaria nele dialogando diretamente com Henri Bergson, um dos grandes filósofos dedicados à problemática do tempo, também ele francês. E vi que sim e que não. Não, porque não se trata de teses contra teses: o objetivo de Comte-Sponville não é concordar ou discordar de Bergson, mas fazer um passeio pelas filosofias sobre o tempo e, a partir daí, defender suas teses originais (lindamente originais). E aí, sim, ocorre o diálogo com Bergson, assim como com tantos outros filósofos antigos e modernos/contemporâneos, ora concordando, ora discordando deles. Bergson, se não errei na contagem, aparece no texto 14 vezes (nas páginas 35, 58, 67, 75, 78, 94, 102, 103, 107, 108, 121, 136, 137, 143), muito mais que Heidegger, outro gigante, alemão, do tema. Acho que Bergson é “chamado” por dois motivos. Primeiro, porque ele é um dos principais filósofos “espiritualistas” do tempo, a quem, necessariamente, um filósofo materialista e ateu, como Comte-Sponville, precisa se dirigir para argumentar e defender sua posição, no movimento de contraposição. Segundo, pelo fundamento da postura intelectual adotada pelo autor de O Ser-Tempo, tal como ele explicita na página 116: “Os grandes filósofos são os que nos ajudam a pensar, inclusive contra eles mesmos.”
Não faço aqui uma resenha do livro, que ora devolvo, nem destaco suas ideias principais, por não ter este Diário esta finalidade e, também, porque a leitura que fiz é a que costumo fazer quando se trata de obra argumentativa (filosófica ou teórica) e não narrativa (literária): uma primeira leitura para tomar contato geral com o conteúdo. A esta seguir-se-á uma leitura analítica, para identificação e síntese das principais ideias e dos argumentos que as sustentam. Neste caso, como o tempo é um tema que investigo permanentemente desde 2018, mais ou menos, vou fazer a segunda leitura num exemplar que já comprei e estou esperando chegar pelo correio. Essa circunstância me oportuniza esclarecer duas das principais razões para se ter uma biblioteca pessoal (na minha opinião): permitir-se fazer anotações nas páginas dos livros, o que facilita a necessária síntese compreensiva e oportuniza organizar notas preliminares de concordâncias e discordâncias (o que não se deve fazer jamais com livros de propriedade coletiva, por respeito aos leitores que virão depois de nós); segunda razão: ter sempre às mãos as obras fundamentais às reflexões que consideramos nossas, ao longo da vida ou em dado momento ou fase dela.
Acabo de mostrar como uma biblioteca pública e uma biblioteca pessoal interagem. A minha biblioteca pessoal sobre o tema tempo não possuía um livro que descobri na biblioteca pública. Devido à importância daquele livro para os meus estudos sobre o tema – percebida ao lê-lo –, decidi adquiri-lo e incorporá-lo à minha biblioteca pessoal. Eis uma passagem-chave para a minha decisão de compra, à página 68: “É sempre agora, mas todos os agoras são diferentes. É essa, parece-me, a verdade do tempo: a sucessão pura, sem passado nem futuro, o puro presente do mundo, a novidade perene de tudo.” Há quilômetros de filosofia sustentando esta afirmativa! Não se trata de algo compreensível para alguém que, repetindo bordões, sai por aí afirmando – dizendo-se estoico – que a condição para a felicidade é viver o presente, o agora, o instante. Abaixo todo tipo de auto-ajuda comercial! E entenda-se: viver é insistir – “insistencialismo” (mais que existencialismo – “a insistência é a verdade da existência”, ligada “ao duro desejo de durar”), como propõe Comte-Sponville, a partir da página 92 de O Ser-Tempo.
Agora posso voltar à biblioteca pública, para apanhar outro livro sobre o tempo, que me pareceu interessante, citado na obra que acabo de ler e também de comprar. Isso funciona como uma bola de neve...
Mas agora não vou procurar nas estantes um “livro argumentativo”. Vou retornar à literatura – naquele meu já mencionado jeito de ler quando menino: alternando razão e sensibilidade (acho que dito assim fica bem). E vou pegar um livro de contos de Hemingway, pois adoro contos e dele só li romances até hoje. Vou lá e já volto.
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Decidi-me por Contos – volume 2 (não estando disponível o volume 1). Vou lá na mesinha para o contato inicial.
...
Sentado na “minha mesinha” (tenho utilizado sempre a mesma), para a leitura de primeiro contato, já me encanta o texto das orelhas, escrito pelo próprio Hemingway, comentando brevemente os títulos e falando um pouco sobre como ele escreve (submetendo o material a uma espécie de bigorna). Sou agarrado, sem possibilidade de reação, pelo primeiro conto (Vida breve e feliz de Francis Macomber), lendo-o inteiro de imediato. Que pequena maravilha! Tem um sabor muito específico, bastante diferente daquele de que estou desfrutando na releitura dos quase-contos que compõe, de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. A diferença é algo como degustar um excelente hamburguer (Hemingway) – refiro-me a um hamburguer excepcional – e uma massa italiana requintada (Calvino). Isso de perceber diferenças de estilos e de poéticas é das melhores sensações que se obtém da leitura literária.
Fecho o livro e vou registrar o empréstimo; na boca um gosto de quero mais. Foi sensacional acompanhar aquele corno do Macomber, com sua esposa e um caçador profissional, na África, caçando leões e búfalos, enquanto à minha frente (na vida real) uma grua erguia uma armação de ferro e a descia sob controle de operários no prédio em construção na frente da biblioteca. Os búfalos são tão pesados, que seria necessária uma grua para erguê-los e colocá-los na caçamba de um veículo, se fosse o caso de transportá-los inteiros depois de mortos.
(Enquanto eu lia, uma mulher, numa mesa a poucos metros da minha, ficou falando alto ao telefone celular por uma meia hora.)
Agora é levar a coletânea de contos para casa e ler (sonhar pela mão do enigmático – do falsamente simples e claro – Hemingway), que tão bem, e secamente, escreveu suas obras, e, depois, suicidou-se com um tiro de revólver.

Antes de retirar-me, decido dar uma olhada na brinquedoteca, que outro dia notei e tive curiosidade de ver, mas não tive tempo. É uma sala de paredes brancas e nuas, bem iluminada, com algumas estantes escuras e vazias e uma outra com poucos jogos meio desgastados, além de algumas cadeiras ao redor e uma mesa. É triste, bem triste. Penso que poderia ser suprimida sem prejuízo dos usuários, dando-se outro uso ao espaço. Uma brinquedoteca ou ludoteca, se não for convidativa, atua contra a finalidade a que se destina. Como ela não vai se suicidar, alguém precisaria sacrificá-la, a não ser que seja possível salvá-la com profundas mudanças.
Para não ir embora triste, vou dar uma olhada nos livros de Jorge Luis Borges, pois já sei que encontrarei nas estantes as suas obras completas.

Desci a Saldanha Marinho até o fim e percorri, lentamente, a beira-rio e toda a Rua do Porto (apreciando-as no meio da tarde), pegando, em seguida, a Avenida Doutor Paulo de Moraes para voltar para casa. Trânsito pesado, de cidade em crescimento, já movimentando o 31º. maior volume de riqueza anual dentre as 5.545 municipalidades brasileiras. Com a arrecadação tributária daí decorrente, será que não é possível investir um pouquinho mais na biblioteca municipal? Ela está claramente precisando. E acho que ela merece, e que também a cidade merece.
(Continua)
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