Do homem duplo ao homem duplicado (Diário da Biblioteca – X, cont., 16/06/2026)
- Valdemir Pires
- há 19 horas
- 6 min de leitura
Do homem duplo ao homem duplicado

“Livros são uma mágica singularmente portátil.” (Stephen
King)
Enquanto eu lia A história social do jazz, durante a semana passada, i) tomei duas iniciativas relacionadas à Biblioteca Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, ii) um amigo me contou de uma antiga relação dele com ela, e iii) eu recebi pelo correio um mimo que comprei para a minha biblioteca.
O mimo foi um carimbo ex-libris (“da biblioteca de”) que eu mandei fazer para identificar as obras que me pertencem. Eu sempre desejei ter um desses, mas nunca providenciei – é dessas coisas que queremos, mas que vão sendo proteladas/atropeladas pelas obrigações e pressões do dia a dia. Ficou bonitinho: um desenho (uma pilha de três livros, sobre a qual estão um pires e uma xícara cheia de café) encimado pelo meu nome (também com um Pires). Agora irei, aos poucos, limpar meus livros (que já estão precisando desse cuidado) e carimbar um a um; espero conseguir terminar até meados do ano que vem, aproveitando também para catalogar os novos que ainda não foram catalogados. Achei o atendimento, o serviço e o produto da Carimbos e Limões, onde comprei o carimbo, tudo uma graça, uma delicadeza.
Quanto ao amigo, que chamo de Rubinho Santana, ele viu uma postagem minha nas redes sociais, sobre os problemas que a biblioteca está enfrentando, e comentou que trabalhou nela de 1968 a 1971 (quando ficava em lugar diferente do de hoje); em outra postagem, ele brincou: “Ricardo Ferraz de Arruda é irmão da minha avó paterna, sou meio ´dono´ da Biblioteca Municipal.” Gostei de saber disso: numa cidade que há pouco era pequena, tudo está e todos estão interligados. Rubinho escrevia esporadicamente artigos no Jornal de Piracicaba quando eu também o fazia, nos anos 1990. Ele é de uma sensibilidade incomum. Quando eu escrevi a trilogia Tempo, publicando-a na internet, ele a imprimiu, mandou encadernar e leu: na capa do Facebook que ele mantém, há uma foto dele com esse volume (verde) nas mãos. Quando eu fiz uma campanha para arrecadar parte do valor necessário para publicar meu Imagens do tempo, Rubinho foi um dos primeiros – senão o primeiro – a contribuir. Está passando da hora de tomarmos um café e prosear!
As iniciativas que tomei quanto à biblioteca foram, primeiro, o envio de e-mail à bibliotecária perguntando por que foram interrompidas as publicações no Facebook e no Instagram (sendo que no dia 15/05 notei o retorno da “Agenda cultural”); e, segundo, a publicação no meu site e no Diário do Engenho do artigo A Biblioteca Municipal de Piracicaba pede socorro.
Hoje fiquei em dúvida sobre ir e ficar na biblioteca ou ir à livraria do Shopping Piracicaba. Saí de casa às dez e pouco, quando a neblina ainda estava baixando e o dia seguia nublado. A decisão pela biblioteca foi se impondo no trajeto. Cheguei lá às onze, estacionei facilmente e entrei, notando que a luminária defronte à “minha vaga de idoso” continua quebrada.
Fui devolver o livro do homem duplo (Eric Hobsbawn-historiador/Francis Newton-fã e comentador de jazz) e tomar emprestado O homem duplicado, de Saramago, que busquei antes nas estantes a que já me habituei, localizando fácil os autores e títulos.

Para a leitura de inspeção e primeiro contato com O homem duplicado, fui a uma das duas salas de estudos disponíveis (e não à “minha mesa”). Assim procedi a fim de conhecer este espaço e sentir qual a diferença de ler/estudar nele e ler/estudar nas mesas que ficam entre a parede lateral (que dá para a Rua Tiradentes) e as estantes do acervo central.
A vantagem da sala em relação à mesa é o isolamento, que permite maior concentração. Trata-se literalmente de um cubículo pintado de branco, com duas mesas e quatro cadeiras simples (na outra há mais cadeiras), beneficiada pela iluminação natural (as lâmpadas não funcionando), com porta fechada que fica ao lado de uma janela de vidro (através do qual quem passa vê quem está dentro e quem está dentro percebe o movimento de quem passa lá fora). É uma acomodação simples, mas ótima para estudos e leituras exigentes/anotadas e para estudos em grupo, pois as conversas envolvidas, nesse caso, não rompem o silêncio reinante lá fora. Mas para o caso do tipo de leitura que fui fazer ali – de inspeção, de primeiro contato – é melhor usar as mesas lá fora, porque é gostoso folhear, ler trechos e refletir à solta, olhando para as estantes “amigas” nas proximidades e, quando mesas mais próximas à frente do prédio, vendo o movimento lá de fora e também o de dentro, que não é muito. Por isso, fui terminar a inspeção na “minha mesinha”, que estava desocupada desta vez. (Eu gostaria de encontrar as salas de estudo sendo disputadas, os estudantes tendo que reservar os horários para assegurar o uso. Não sei se um dia foi assim, aqui, antes de a internet “matar” essa funcionalidade socio-intelectual da biblioteca.)
Enquanto eu lia, ouvi um homem conversando alto com o atendente; levantei-me e fui ver quem era: um senhor grisalho; ele pegou alguns livros (creio que tenham sido três, pois é o máximo que se empresta) e se foi, com os volumes numa sacola de plástico (como as de supermercado) – pude perceber quando ele passou diante da fachada de vidro da biblioteca, que permite ver, da “minha mesa”, o que acontece na calçada e na rua fronteiriças, e também na parte superior obra do outro lado da rua, em que a grua manejava ferragens com apoio de dois operários.
Devolvido o silêncio, concentrei-me no livro. Li o primeiro capítulo sentindo o sabor inconfundível da pena de Saramago: uma escrita absolutamente fluída e graciosa, de narrador intruso, cheia de ironia e chistes, muitas vezes partindo de lugares comuns e ditos populares. Então, já sei que lerei com o mesmo prazer com que li, dele, nos últimos anos: Ensaio sobre a cegueira, Ensaio sobre a lucidez, As intermitências da morte, Memorial do convento, A viagem do elefante, História do cerco de Lisboa e Todos os nomes. Também li, publicado no ano da morte dele (2010), As palavras de Saramago, organizado por Fernando Gómes Aguilera. (Agora vejo que neste Diário da Biblioteca vou aos poucos fazendo uma espécie de arqueologia das minhas leituras! Sinto que é um bom exercício.)
É, vou gostar de ver o que acontece com este tal Tertuliano Máximo Afonso (o homem duplicado), professor de História, mesmo sabendo que “A História que Tertuliano Máximo Afonso tem a missão de ensinar é como um bonsai a que de vez em quando se aparam as raízes para que não cresça, uma miniatura infantil da gigantesca árvore dos lugares e do tempo, e de quanto neles vai sucedendo, olhamos, vemos a desigualdade de tamanho e por aí nos deixamos ficar, passamos por alto outras diferenças não menos notáveis, por exemplo, nenhuma ave, nenhum pássaro, nem sequer o diminuto beija-flor, conseguiria fazer ninho nos ramos de um bonsai (...)” (p. 15) (Máximo Afonso – ele não gosta do nome Tertuliano – ensina a História mínima, logo se vê.)

Com fome, saí para comer alguma coisa pouco depois de meio dia. Escolhi ir ao estabelecimento indicado, outro dia, pelo funcionário da biblioteca a quem perguntei sobre um café nas proximidades: o Empório Tiradentes, na rua de mesmo nome, a um quarteirão da biblioteca. Lugar simples e funcional. Comi uma coxinha acompanhada de uma Coca-Cola. Na volta para o carro (desisti de retornar à biblioteca), passei – por ficar no caminho – na Casa de Carnes Rubia, pensando pegar o rolo de panceta frita que lá comprei outro dia. Só tinha pré-frita, não peguei. Mas consegui comprar chademã e chouriço, que não havia na semana que lá passei procurando; e aproveitei para conhecer o salão onde, neste açougue, nas sextas, sábados e domingos servem, com cervejas e refrigerantes, petiscos de porco e outra iguarias (quem sabe que dia desses não passo por lá para me enturmar?) Saí feliz com a minha sacolinha, ainda com a missão de comprar os pães que me haviam solicitado. Comprei-os na loja do Pão de Açúcar da Cidade Alta, da qual fiz um filminho para guardar, pois penso que ela (da qual fui freguês por muitos anos) logo fechará – ideia que ser reforçou pelo fato de que saí com os pães numa sacolinha branca, sem a identificação da rede em tinta verde: economia miúda de empresa que está enfrentando dificuldades financeiras? (Lembro que a derrocada começou assim, também, em outro supermercado de que fui cliente por anos: o Enxuto. Um enxame de redes supermercados, hipermercados e atacarejos abateu-se sobre Piracicaba nos últimos anos, alterando profundamente a concorrência.)
Voltei para casa sem comprar as baterias LR44 que necessitava adquirir para minha calculadora HP-12C, porque perdi a vontade de perambular em busca delas. Oxalá não seja isso um sintoma do que acontece com o nosso Máximo: “(...) vive só [e eu, felizmente, não] e aborrece-se, ou, para falar com a exactidão clínica que a atualidade requer, rendeu-se à temporal fraqueza de ânimo ordinariamente conhecida por depressão.” (p. 9)
(Continua)
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