Amigos-bibliotecas (Diário da Biblioteca – VIII, 04/06/2026)
- Valdemir Pires
- há 11 minutos
- 5 min de leitura
Amigos-bibliotecas

“Sem Josef K. ou sem Macabea eu seria outra coisa, não seria eu.
Toda a maneira de me deslocar e me posicionar neste mundo está
irreversivelmente marcada por estas e tantas outras experiências
literárias vividas.” (Amilcar Bettega)
Só muito tarde constatei – tristemente – que, como leitor voraz (e também como professor por décadas), tornei-me uma pessoa um tanto deslocada, numa sociedade constituída explosivamente por não-leitores e até por gente completamente avessa às letras (rudes, mesmo): com frequência tenho dificuldades para manter uma conversa sobre assuntos quotidianos, assim como percebo, não raramente, que pessoas com quem converso ficam desconfortáveis, tomando-me, provavelmente, por pedante ou, talvez, prepotente, usando uma linguagem que podem julgar inadequadamente “rebuscada”, ou “enfiando livros” em quase tudo. Seria porque, ao falar, acabo fazendo-o como quem escreve, respeitando a gramática e seguindo um fio argumentativo exageradamente formal, quem sabe didático?
(Quando eu era criança e estava começando a ler – gibis, revistas de telenovela e pequenos livros com aventuras de cowboys e heróis, emprestados pelos tios paternos Anésio e Iná – minha avó Joana (paterna) me dizia para não ler tanto, pois um irmão dela que fazia isso ficara louco; ao passo que minha avó Angelina (materna) não se cansava de me repetir: “Menino, ler tanto estraga a vista!”. Além disso, meu pai, com frequência, mostrava desagrado com meu jeito de falar – achava que eu tinha “modos de rico”.)
Por outro lado, há pessoas com quem começo a conversar e, sempre, o tempo se revela insuficiente (voa) para tratar de tudo o que, no desenrolar da conversa, vai se tornando do interesse comum, quando não o era desde o início. São pessoas, poucas, que eu diria serem amigos-bibliotecas. O Diário da Biblioteca de hoje é sobre o encontro com um desses meus queridos amigos: Sebastião Netto Ribeiro Guedes.
É claro que Sebastião e eu conversamos banalidades e trocamos piadas e também comentários de compadres, até maledicentes, às vezes, mas esse tipo de conversa apenas permeia diálogos sempre acima da superfície, tanto do ponto de vista da racionalidade (conhecimento científico, entre economistas), como da sensibilidade (entre apreciadores de literatura, arte, sociedade). De cada conversa que tenho com Sebastião, saio maior, com a alma bem regada, nutrida. É que temos em comum um enorme apreço pelos livros, pela leitura. Quantas leituras não fiz motivado por comentários dele! Além disso, Sebastião é o amigo que maior número de livros me presenteou, sempre enriquecendo notavelmente minha pequena biblioteca pessoal.
Neste dia 4 de junho de 2026, ensolarado, frio e silencioso (feriado de Corpus Christi), consegui, finalmente (depois de várias tentativas anteriormente frustradas de agendamento do encontro), caminhar com Sebastião pelas ruas do nosso bairro (o arborizado Jardim Santa Rita), culminando com um café na Padaria da Nona Maria, vizinha do Hospital Regional. Como de praxe, caminhamos e conversamos muito (por 3 horas), sem olhar para o relógio. Como costumeiramente, foi uma ótima conversa, daquelas que conseguem revigorar a alma, com reflexos sobre o corpo (até porque, praticamos uma espécie de peripatética, que ativa a circulação e beneficia a respiração).
Comecei recebendo do amigo uma notícia maravilhosa: ele agora é nome de um prêmio nacional (Prêmio Fernández-Conceição-Guedes) oferecido anualmente pela Associação Brasileira de Pesquisa em Economia Institucional Original; e, quase simultaneamente ao recebimento dessa honraria absolutamente merecida, foi agraciado com o prêmio internacional James H. Street Scholar (a ser recebido em Washington, em janeiro de 2027), concedido pela Association for Evolutionary Economics (AFEE) em reconhecimento à sua produção acadêmica de destaque na América Latina. Fiquei muito feliz por isso, especialmente porque conheço, por ter acompanhado de perto, a trajetória dele no estudo da economia institucional: trajetória séria, dedicada e, sobretudo, entusiástica, sempre, no caminho, formando jovens pesquisadores.
Lembro-me até hoje de quando conheci Sebastião, recém-contratado pela Unimep, onde eu já era professor. Simpatizei com ele à primeira vista; logo li um texto que ele havia escrito sobre Alec Nove que me impressionou pela profundidade, clareza e notória vontade de entendimento do assunto abordado – características aprofundadas em todos seus textos subsequentes, inclusive e especialmente em seu primeiro livro, Introdução à Teoria Econômica de John Rogers Commons.
Depois de comentarmos sobre esta afortunada ocorrência na trajetória acadêmica de Sebastião, passamos pela costumeira atualização dos assuntos familiares envolvendo esposas, filhos (e neta, agora, no meu caso). Desta vez, pulamos o tema conjuntura política, que sempre abordamos, porque havia muitos assuntos a tratar, acumulados pelo fato de não conseguirmos mais nos encontrar com a frequência e regularidade anteriores, quando trabalhávamos juntos na Unesp e, no final da noite, em alguns dias da semana, jantávamos juntos em Araraquara, onde dividíamos um apartamento.
Em seguida, o papo foi para o campo das inquietações, leituras, percepções – o filé mignon das nossas conversas. Nem serei capaz de registrar tudo, aqui. É sempre um gostoso torvelinho literário.
Falamos de uma crônica que nos comeveu, recebida na semana anterior, de um ex-aluno e amigo em comum, Júlio César Tranquilim. Evocamos as “façanhas” que juntos cometemos, os três, e lamentamos o fim daquele famoso bar, o Mascote (ou talvez o ter-que-terminar de um tempo dourado da vida, a juventude sonhadora).
Falamos de autores e livros: entre outros, Saramago (meu amigo tendo lido O homem duplicado, que eu não li, mas pegarei logo na biblioteca, sob sua recomendação), Padura (eu dele tendo lido Água por todos os lados e O homem que amava os cachorros, este, constando da biblioteca de Sebastião e ele, então, vai ler), Borges (de que gosto e ele não), dos amados russos dele (cujos títulos em sua biblioteca pessoal é maior do que na maioria das bibliotecas públicas e universitárias, inclusive da Unesp de Araraquara, que tem um curso de Letras).
Já tomando nosso cafezinho na padaria, entre outros assuntos (por exemplo, sobre minha mãe que era analfabeta e a de Sebastião que era leitora voraz), eu inseri a notícia da publicação de um livro (Serena do Canto), de um outro amigo meu, desde a juventude em Araras, Claudinei Coletti. Quando eu disse que Claudinei é sociólogo e cientista político, Sebastião se deu conta de que leu, gostou e fez uso do primeiro livro dele, acadêmico: A Estrutura Sindical no Campo - A propósito da organização dos assalariados rurais na região de Ribeirão Preto.E isso me deixou quase atordoado, por incrédulo. Como assim, um grande amigo meu, “adquirido” em Piracicaba, agora cita outro grande amigo meu, “adquirido” em Araras? Que diabo é isso: pontas de uma linha temporal se encontrando, desenhando um verdadeiro triângulo amistoso? São os meus amigos-bibliotecas. Temos em comum páginas e páginas viradas enquanto lidas. E agora, também páginas escritas. Os livros escritos por eles são orgulhos da minha biblioteca pessoal, o que é muito pouco perto da alegria de minha história ter cruzado a deles e assim continuar. Nenhum deles estranha o meu jeito de falar e os assuntos de que gosto de tratar; para eles, não sou nada esquisito. Bem, a não ser que nós três sejamos...
(Continua)
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