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A biblioteca é uma agência de viagens: até quando e para onde? (Diário da Biblioteca – IX, 10/06/2026)

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

A biblioteca é uma agência de viagens: até quando e para onde?


Borges ensaístico
Borges ensaístico

“Sempre recomendei aos meus alunos (...) que não lessem

críticas, que lessem diretamente os livros; talvez compreendam

pouca coisa, mas sempre sentirão prazer e estarão ouvindo a

voz de alguém. (...) O mais importante de um livro é a voz do

autor, essa voz que chega até nós.” (Jorge Luis Borges)

 

Ao pegar Borges Oral na biblioteca, vi que era um livro de poucas páginas (97), mas decidi não apanhar outro para ler, durante a semana, porque intencionava deter-me sobre os cinco textos nele contidos, a fim de degustar a escrita borgeana não literária, que estaria lendo pela primeira vez. Mas terminei lendo-o de um só fôlego, num único dia, “gastando” o tempo restante da semana para concluir a releitura, antes iniciada, de Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino (admirador de Borges). Este livro do escritor italiano é uma espécie de reflexão profunda, em roupagem literária, sobre livros e leitores, por isso, “dialogou” com duas das aulas (também tratando de literatura) que constam de Borges Oral: O livro e O conto policial.

 

Aulas, sim, pois Borges Oral reúne cinco aulas, posteriormente transcritas, que o autor proferiu na Universidade de Belgrano, a convite, quando completou 80 anos. Tanto nas duas já mencionadas, como nas demais (A imortalidade, e O tempo – mais filosóficas, e Emanuel Swedenborg, uma quase-biografia elogiosa), exprime-se um Borges tão denso e intrincado como o dos contos maravilhosos, porém mais fluido: o leitor se sente como se o velho cego estivesse dirigindo-se a ele, diretamente, “olhando” nos seus olhos e falando com calma e paciência para se fazer entender. Eu, que estudo o tempo faz tempo, fiquei boquiaberto com a aula sobre o tema, pois nunca vi ninguém ir tão fundo e longe com dez páginas e meia. (Aqui, vale o registro – inclusive de uma coincidência: eu não sabia que o tempo era objeto desta obra de Borges, quando decidi lê-la – : minha leitura anterior havia sido Ser-Tempo, de Comte-Sponville, admirável e ousado em suas teses, que provavelmente Borges teria apreciado, quiçá até concordado.)

 

Argumentar que Swedenborg foi um reformador religioso que só não promoveu reformas maiores e mais impactantes que, por exemplo, Lutero e Calvino (já que tem maiores qualidades que estes) por seu um dos vários fenômenos nórdicos que jamais vieram à tona (como a descoberta da América pelos vikings, por exemplo), e demonstrar que Poe inventou não apenas o conto policial como, juntamente com ele, o próprio leitor de conto policial, são coisas tipicamente borgianas, relacionadas a ver o que em geral outros não veem e falar sobre isso com singular ousadia, como quem não tem a menor dúvida a respeito do que está afirmando, deixando aos leitores acreditar ou não.

 

Em A imortalidade, assim como nas demais aulas, porém mais, Borges desfila diante do leitor como um cavalo árabe antes da corrida, revelando todas as suas qualidades e belezas, confirmadas ao longo do páreo (da leitura): brevidade, concisão, profundidade, consistência, densidade; sempre uma aguda razão (do filósofo) roçando a tênue emoção (do literato), desafiando Platão (que desdenhava a arte a favor da razão).

 

Borges proferiu as mencionadas aulas em 1978 e morreu em 1986, a meu ver sem um sucessor no tipo de literatura que é a sua (Calvino dele se aproximando, de certa forma, mas de outro jeito, penso eu). Sua literatura é portadora de uma poética rascante, que faz uso de afirmativas fortes (como se fossem de um soberbo erudito), mas que, ao invés de produzir respostas, multiplica e embaralha as perguntas – poética que provoca aversão em todo aquele que busca ler para solucionar, resolver, compreender definitivamente, ou mesmo para acalmar-se, alegrar-se, iludindo-se (Borges é, sem dúvida, tanto nos contos como nos ensaios, um anti-coaching, um anti-auto-ajuda, um não-entretenedor no sentido convencional e banal). Por isso, é uma boa companhia para uma viagem numa noite de inverno.

 

Devolvo agora o fino volume às estantes da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” grato pela nova exploração que essa “agência de viagens” piracicabana me proporcionou. E vou logo pegar – gratuitamente, olhe só! – o bilhete para o próximo voo: História social do jazz., do famoso historiador britânico, Eric J. Hobsbawn.


 

A "minha mesinha" ocupada
A "minha mesinha" ocupada

Hobsbawn em mãos, é hora do primeiro contato com este volume de capa em cores e detalhes vivos (caribenhos?), da Paz e Terra. Será que a “minha mesa” me espera? Não! Está ocupada pela mesma mulher de outro dia (uma advogada?). Na seguinte, há um senhor e uma moça (talvez pai e filha), consultando vários livros. E na terceira, outra moça, também estudando, lendo e tomando notas. Deixo a quarta vazia e sento-me na quinta, beneficiando-me menos da luz que atravessa os vidros lá da frente. Logo chegam duas bonitas jovens afrodescendentes (bonita palavra, não?), sentando-se na quarta mesa para estudar. Hoje a ala das mesas para leitura está movimentada. Na penúltima, lá no fundo, está um rapaz que sempre fica por lá, ao celular – parece-me que ele vive na rua e aproveita o espaço para se abrigar durante o dia (será o mesmo que outro dia vi dormindo sob um cobertor próximo à parede externa da biblioteca do lado da praça?)

 

Luz suficiente, silêncio convidativo, uma imensidão de livros por companhia, coloco o caderno de notas e o celular à esquerda e o livro de Hobsbawn à minha frente, começando a inspeção preliminar. Sob o nome do autor, na capa, em letras menores: “Francis Newton”. Do que se trata? Seria um co-autor?  Abaixo, logo acima do nome da editora, um destaque: “Prefácio Luís Fernando Veríssimo”. Bem destacado: trata-se do escritor brasileiro que não só apreciava, mas também tocava jazz. Mas e esse Francis Newton, aí?

 

Já nas primeiras linhas da introdução à edição de 1989, que Hobsbawn escreve para uma breve atualização dos acontecimentos jazzísticos desde 1959-61 (data em que foi escrito o livro) até o final da década de 1980, fica-se sabendo que Francis Newton foi o pseudônimo com que Hobsbawn publicou esta icônica História social do jazz. Que bela e esclarecedora introdução! Fico doido para seguir lendo. Queria pelo menos ter avançado na leitura da Introdução, propriamente dita (que se inicia assim: “Este livro é sobre um dos fenômenos culturais mais notáveis do nosso século.”) até a provavelmente didática seção “Como reconhecer o jazz”, mas não foi possível. Eu tinha pouco tempo disponível e queria dar uma olhada nos jornais do dia, pois tinha visto antes de sair de casa que um deles trazia notícia ruim sobre a biblioteca.

 

Biblioteca correndo risco
Biblioteca correndo risco

Sim, manchete principal da Gazeta de Piracicaba: “Sindicato denuncia situação crítica na Biblioteca Municipal”, encimando uma foto estarrecedora, em que livros e papéis estão amontoados num galpão (a que os usuários não têm acesso), muitos deles no chão.

 

Nas notas deste Diário de 12/05/2026, eu manifestara preocupação com o futuro da biblioteca, diante de problemas que então percebia (nem todos ali mencionados, inclusive). Um deles – o sumiço de um livro de minha autoria doado ao acervo em 2023 – me levou a consultar a bibliotecária a respeito, através de e-mail de 03/06 (ainda aguardando resposta). Talvez ele esteja ali naquele monte! – penso.

 

Os pequenos, mas numerosos problemas que eu notara me levavam a crer num desmazelo provocado pelo excesso de tarefas e insuficiência de funcionários (na medida que me parece que os que lá estão são bastante dedicados), mas todos eles eu percebia observando o “vestuário” e partes à mostra do “corpo” da biblioteca, não suas entranhas (arquivos não abertos ao público, áreas técnicas etc.). A foto da manchete do jornal mostrou-me, então, o não visível, tornando bem mais elevado o nível de abandono da biblioteca. E, dada a natureza sindical da denúncia trazida a público, a notícia do jornal foca a preocupação nas condições de trabalho ali, naquela “repartição pública”. Fica por conta do leitor perceber “o resto”: a ameaça ao patrimônio educacional e cultural, aliás aventada na notícia, ao mencionar o risco de incêndio no local – e então teremos a “Biblioteca de Alexandria em chamas piracicabana” que eu aventava de outro modo no Diário da Biblioteca de 12/05/2026.

 

O Sindicato dos Servidores Públicos está pressionando a Secretaria de Cultura para enfrentar os problemas que levantou. É uma ação que ajuda. Mas é preciso muito mais, da parte dos cidadãos e, mormente, dos usuários da biblioteca. O que pode ser feito? Ocorrem-me (coisas difíceis) a criação de uma Associação de Amigos da Biblioteca, a realização de mutirões de usuários para pelo menos desempoeirar partes importantes do acervo que estão às moscas, uma campanha para que empresas façam doações para consertar vidraças, pias e torneias, portas de banheiros, luminárias, móveis etc.

 

Sobretudo, fica atravessada na garganta a seguinte contradição: o grosso do acervo da biblioteca é constituído por doações, não havendo no orçamento municipal dotações regulares para compras (fiquei sabendo) e, ao mesmo tempo, parece que muitos dos volumes doados andam caindo numa espécie de lixão (ainda que – também fiquei sabendo) parte do que é doado seja transferido para entidades que solicitam e também, colocado na geladeira à entrada do prédio da biblioteca, para que interessados levem, devolvendo depois, ou não.

 

A viagem continua. Até quando e para onde?

 

(Continua)

 

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