Música na biblioteca (Diário da Biblioteca – X, 16/06/2026)
- Valdemir Pires
- há 2 dias
- 6 min de leitura
Atualizado: há 17 horas
Música na biblioteca

“Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas
em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às
ideias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua
diversidade.” (Tzvetan Todorov)
Ouvir jazz na biblioteca pública e, em seguida, na de casa – isso é o que se consegue lendo, como fiz na semana passada, História social do jazz, de Eric Hobsbawn (obra que eu vinha desejando ler há mais de uma década). Entremear a leitura com audições (no Youtube) de virtuoses e big bands mencionados pelo historiador é uma experiência deliciosa e enriquecedora. Para mim, foi uma forma de entender, um pouco, o porquê de eu gostar de jazz, indo além daquela sensação agradavelmente convidativa presente nos sons que, por motivos raramente claros, terminam nos agarrando – não se quer parar de ouvir e, depois disso, não se consegue afastar melodia e ritmo da memória de curtíssimo prazo.
Sinto que o livro de Hobsbawn é um artefato cultural que, a seu modo, tornou-se, já, ele mesmo, parte da história do jazz, tão bem escrito com dois fios condutores: o do raciocínio e diligência investigativa de um dos maiores historiadores do século XX e o da sensibilidade musical/artística insuspeita (por pouco encontradiça) num homem do ambiente acadêmico/universitário; traduzido em várias línguas e países, assim como o próprio jazz. Nele se consegue, graças à sistematicidade sensível do autor, ter uma visão abrangente do fenômeno não só musical, mas sociocultural, que é o jazz, conhecendo-se artistas, instrumentos, “escolas” e tendências, fases da evolução (1900-1917, 1917-1929, 1929-1941), locais (desde o Delta do Mississipi até a Europa e todo o mundo), além da relação com estilos musicais anteriores (como o blues) e posteriores (como o rock).
O livro serve bem tanto a aficionados como a ingênuos no assunto, seu didatismo não caindo em simplificações, muito pelo contrário. Mesmo quando desenvolve uma seção “Como reconhecer o jazz”, Hobsbawn o faz com a maestria de quem evita, em temas culturais, delimitações rígidas, definições incontroversas e, sobretudo, afirmativas preconceituosas (que tanto perseguiram o jazz ao longo de sua trajetória na arte e na indústria musical, principalmente no começo, como revela o historiador). Se alguém quer saber o que são touradas e de que é feito um toureiro (grande como Ordóñes, por exemplo), leia Hemingway (especialmente O verão perigoso): depois disso nunca mais verá tourada como um homem e um animal tentando um matar o outro; se desejar entender o jazz e compreender a alma de um jazzista (grande como Armstrong, por exemplo), leia História social do jazz: depois disso, nunca mais ouvirá música como antes dessa master class de Hobsbawn.
Trata-se de um livro alentado: São 316 páginas em letras miúdas para não ficar maior e mais caro – coisa de antes de a internet pôr fim aos leitores de longo fôlego. Livro também denso: sem um mínimo de cultura musical, muito se perde e, além disso, a profusão de nomes (compositores, arranjadores, instrumentistas, músicos, intérpretes e canções e estilos) dá aquela impressão de estar lendo um romance russo com muitos personagens, obrigando o leitor a fazer uma ficha para poder acompanhar os desenvolvimentos sem perder de vista quem deles participa. Texto repleto de pérolas e ironias que amenizam afirmativas fortes. Somente na página 71 aparece o significado original da palavra jazz: “(...) o termo jazz (ou jass, jaz) passou a ser usado como um rótulo genérico para a música de dança, já que poucos sabiam até então que esse era o termo de gíria africana para relação sexual.” Com o alerta de que, segundo o próprio Hobsbawn, há controvérsias entre os apreciadores de jazz quanto ao melhor dele ser para dança ou somente para se ouvir.
Controvérsia, aliás, é o que não falta no universo do jazz, desde que, lá por meados dos anos 1950, ele se tornou uma linguagem universal. Deve ele se deixar contaminar ou não pela música pop, comercial? Em que medida pode ombrear a música clássica sem perder sua identidade? Jazz pode ou não ser “coisa de branco”? O jazz é música de protesto e alinhado à esquerda? Diante delas, Hobsbawn se posiciona como bom historiador, mas também como respeitável apreciador – o resultado é uma beleza, uma delícia: História cantada.
Incontáveis são as ocasiões, durante a leitura de História social do jazz, que dão vontade de anotar passagens e compartilhá-las (para esclarecimento ou por prazer); então, lá vão algumas (que talvez o saudoso Antônio Celso Rocha, criador do CAMJA – Clube dos Amigos do Jazz, veiculado há quase duas décadas pela Rádio Educativa FM (105,9), pudesse apreciar – se é que não o fez, mais de uma vez, em vida):
“´O que é jazz?´ é a única pergunta que se ouve o tempo todo nas discussões dos aficionados. Não é nem pop nem música séria.” (p. 243) – é uma boa resposta, abrindo alas para complementos possíveis.
“Com olhos apaixonados, vidro colorido pode parecer diamante, e muito do jazz (embora não o melhor dele) não passa de vidro colorido cortado de forma a refletir a luz de seu público com o maior brilho possível.” (p. 249)
“O jazz, para o amador de maior idade, é como a dose ocasional de poesia lírica para aquele que há muito tempo deixou de ler poesia sistematicamente, um núcleo da juventude que sobrevive.” (p. 250)
“(...) o jazz, com a sua capacidade de expressar emoções inequívocas da maneira mais direta (...) é a música mais adequada para a adolescência.” (p. 267)
“O jazz era, e é, para os elementos rebeldes da sociedade de classe média americana, o que o surrealismo e o existencialismo são para os rebeldes da mesma classe na França.” (p. 253)
“O jazz dos anos 20 era apolítico; o dos anos 30 e 40 aliou-se às esquerdas (...)” (p. 268) Talvez porque: “(...) o jazz não é simplesmente música comum, ligeira ou séria, mas também uma música de protesto e rebelião.” (p. 272) Mas também “Foi a arte que mais de perto chegou de derrubar as barreiras de classe.” (p. 274) No fundo, “O jazz é contra a opressão, contra a pobreza, contra a desigualdade e a falta de liberdade, contra a infelicidade.” (p. 283) Mas, “O importante não é saber que o jazz pode ser enquadrado neste ou naquele compartimento da política ortodoxa, embora geralmente possa – principalmente no de esquerda –, mas registrar que essa música se presta a qualquer tipo de protesto ou rebelião. (p. 273)
“A música latino-americana (...) vem disputando o lugar de música popular ocidental com o jazz, utilizando como ponta de lança tangos, sambas e rumbas, ao mesmo tempo que, desde 1940, se incrustrou efetivamente no próprio jazz com a onda de música cubana jazzística.” (p, 82)
“A evolução da música clássica ocidental, bastante rápida e revolucionária pelos padrões da história pregressa, é medida em séculos. No jazz (...) essa evolução é medida em décadas.” (p. 85)
“O blues não é um estilo ou uma fase do jazz, mas um substrato permanente de todos os estilos; não é todo o jazz, mas é o seu núcleo.” (p. 105)
“O jazz antigo (ragtime e Nova Orleans) tinha usado uma batida que ainda lembrava a música europeia, acentuando o primeiro e o terceiro tempos do compasso. Suas derivações – (Diexieland, a música de Chicago etc. – embora ainda fossem jazz de ´dois tempos´, tendiam a marcar os off-beats. Os ritmos resultantes e as variações rítmicas são muito mais sutis, e produzem aquele balanço vibrante e vivo que é chamado, por falta de um termo melhor, de swing.” (p. 123)
“Clarke e seus imitadores tentaram fazer com que as suas baterias não tocassem apenas ritmos, mas canções.” (p. 125)
“Charlie Parker [saxofonista] (...) Um nômade, um drogado, um infeliz, um andarilho sem raízes que morreu aos 35 anos, o Rimbaud do jazz moderno.” (p. 137)
“Buddy Bolden (...) Ele ria e chorava mais alto do que qualquer outro, bebia mais e fazia mais amor, dormia menos, era mais gordo, dava calote em pagamento adiantado e tocava mais música ruim melhor do que qualquer um. Morreu aos 39 anos, em 1943, no auge de sua carreira.” (p. 220)
“(...) até o ponto em que se tornou uma música erudita autoconsciente, que requer antes de mais nada profundos conhecimentos, o jazz era melhor aparelhado do que qualquer outro tipo de arte do século XX para dar expressão artística ao homem comum, e especialmente (no blues) às mulheres.” (p. 237)
Há muito mais a dizer sobre este esplêndido livro que Hobsbawn parece ter escrito cantarolando e tentando um dançar desajeitado, mas é preciso parar por aqui, para não enfastiar o leitor nem o apreciador musical do século XXI. Quanto aos leitores de maior fôlego, basta dizer que o livro estará logo lá, de volta, na estante da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Almeida Pinto”, pronto para ser devorado por ele, agora que o estou devolvendo, e já partindo para outra viagem: Saramago, O homem duplicado, recém-recomendado pelo meu amigo Sebastião Neto Ribeiro Guedes, que, leitor assíduo dos russos, não tem o português no seu panteão de escritores, como eu o tenho, leitor que sou de outros títulos seus.
(Dois alertas: 1. Quem for tomar emprestada a História social do jazz, único exemplar da biblioteca, manuseie com cuidado – ele já estava com a lombada descolada do calhamaço de páginas quando o peguei, comunicando o fato ao funcionário que registrou meu empréstimo. 2. Se alguém o quiser ler, pegue-o logo, pois eu já estou a ponto de ir buscá-lo de volta, para, outra vez, ouvi-lo com maior atenção que da primeira vez.)
(Continua)
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