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Diário da Biblioteca – III, 12/05/2026

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • 26 de mai
  • 6 min de leitura

Atualizado: 11h

Homens, gatos, bibliotecas e tudo que pode desaparecer


“Sempre gostei de ir de um livro a outro, assim como de uma

ocupação a outra.” (José Bonifácio de Andrada e Silva)

 

Biblioteca ao lado do Hotel Beira Rio
Biblioteca ao lado do Hotel Beira Rio

Neste Diário da Biblioteca já se falou de dois grandes homens (Trotsky e Chê Guevara) e de um assassino histórico (Ramón Mercader) e seus respectivos cachorros. E quanto aos gatos?

 

Capricho editorial
Capricho editorial

Na penúltima página de O homem que amava os cachorros, que trata do assassinato de Trotsky, a Editora Boitempo presenteia o leitor que chegou até ali com uma foto (que genial!) em que Lênin aparece acariciando um gato preto e branco, em seu colo. Sei que Jorge Luiz Borges tinha um gato branco de que não se separava (Beppo) e lhe escreveu um poema: A um gato (1972), o que também fez o chileno Pablo Neruda (Ode ao gato). Gatos e cachorros são muito diferentes entre si, cada bicho tendo deliciosas características com que quotidianamente presenteiam seus donos. Sei disso. Além dos cachorros que já mencionei, tive também gatas: a Cat, siamesa dada ao filho Bruno (enterrada no quintal da casa em que moro) e, atualmente, a Pequena. Esta apareceu numa noite sobre o telhado da casa do vizinho dos fundos e ficou me observando de lá, insistentemente, enquanto eu caminhava embaixo. E passou a fazer isso quase todas as noites, até que começou a descer, me observando escondida atrás de um vaso ou de uma pitangueira do quintal; em seguida lhe dei água, depois comida; de arisca ela passou a apegada demais – agora é a dona da casa que compartilha comigo e com minha família.

 

Será que Cat amava os livros?
Será que Cat amava os livros?

Por isso compreendo O homem que amava os cachorros, ou qualquer outro que prefira os felinos domésticos. Melhor dizendo, compreendo o amor de Mercader pelos cães, enquanto continuo sem entender como uma pessoa se presta a fazer o que ele fez: matar Trotsky (ou qualquer outro indivíduo) com uma machadinha. Mas... contradições do ser humano. Aliás, tópico que perpassa todo o livro de Leonardo Padura que ora devolvo à biblioteca. Neste seu longo romance (quase 600 páginas), magnífico, este autor cubaníssimo mistura história (da revolução soviética e sua dissolução) com ficção, o que lhe permite trazer à tona como poderia ter sido o dia-a-dia de pessoas que viveram o drama sujo comandado por Joseph Stalin contra seus ex-companheiros revolucionários, mormente um de seus maiores líderes (Trotsky), abrindo, assim, uma fresta ou uma clareira na opacidade da vida quotidiana, para que possamos observar acontecimentos corriqueiros que nos fazem pensar (feito “gente” e não feito intelectuais ou militantes) sobre os obstáculos para transformar utopia em realidade, tal como é possível constatar, Padura bem sabe, na própria sociedade cubana.

 

Pequena ao sol
Pequena ao sol

A vida de Liev Davidovitch Bronstein (que conhecemos como Trotsky), depois que caiu em desgraça no movimento comunista internacional controlado por Stalin, é narrada por Padura como o inferno na terra, justo ele que buscava o paraíso no planeta – no planeta todo e não apenas num país. E nessa narrativa o que se pode acompanhar não são os movimentos do herói capaz de mudar o mundo (ou uma parte dele, um país), mas o homem quotidiano – com sua família, com seu cachorro, com suas doenças corporais, com suas frustrações e alegrias, lutando para não ser o comum dos mortais, em benefício, pensa ele, dos mortais comuns. Da mesma maneira acompanha-se o avançar quotidiano da vida de seu assassino, bem como o do personagem fictício (um jornalista e escritor desiludido) que por acaso encontra Mercader, que vivia incógnito em Cuba, com seus dois cães borzóis. Cuba, que derrete de modo diferente da União Soviética: totalmente fora de controle e sem alguém para imaginar qualquer glasnost  ou perestroika, como no caso da extinta União Soviética. (Registro metaliterário: “E rapidamente descobri que minha intenção de compreender a vida de Ramón Mercader implicava tentar entender também a vida de sua vítima, porque aquele assassino só ficaria completo, como carrasco e como ser humano, se fosse acompanhado pelo objetivo de seu ato, pelo despropósito de seu ódio e pelo ódio dos homens que o armaram e o induziram a isso.”, raciocina o narrador de O homem que amava os cachorros, o jornalista Iván Cárdenas Maturell.)

 

Idas e vindas da utopia igualitarista
Idas e vindas da utopia igualitarista

Desaparecimentos e desilusões e, no meio delas, vidas que precisam continuar sendo vividas – vívidas ou não. Também disso sei bem... Sabemos bem a maioria de nós, vivendo num mundo e num tempo em que surgir e desaparecer é o que mais acontece. Mundo e tempo em que utopia e distopia disputam espaço, confundindo-se entre si, em Havana, em Moscou, em Kiev, na faixa de Gaza, em Xangai, Dubai ou Nova York. Em Piracicaba, por que não?

 

Para quem já viu desaparecer várias moedas nacionais (e com a penúltima, uma superinflação), a língua portuguesa escrita no Brasil diferentemente da escrita em Portugal, os cheques e os bancos físicos, a União Soviética e o muro de Berlin, as torres gêmeas americanas, a Escola de Música de Piracicaba e a Unimep, cães e gatos amados etc.; e está agora vendo despencar a hegemonia americana, o dólar como moeda das trocas internacionais, a capacidade do meio ambiente de suportar os padrões produtivos e de consumo em vigor etc., observar o declínio do livro em suporte físico e potencialmente das bibliotecas é “café pequeno”. Observação nem por isso indolor...

 

Borges e seu gato branco
Borges e seu gato branco

Enquanto devolvo um livro lido, pronto para apanhar outro que, na semana anterior, me interessou entre os que estavam na estante de indicações,  sinto vivamente a alegria de estar voltando a frequentar uma biblioteca pública. Mas, ao mesmo tempo, me pergunto, intimamente: Por quanto tempo, ainda? Quando desaparecerá este espaço e esta prática de leitura: antes ou depois de eu morrer? A sensação não é das melhores, com esta “pulga atrás da orelha”. Por isso, tento saborear ao máximo essa experiência de leitura e reflexão, enquanto possível, e já que estou podendo. Eu, que vivi a morte de uma grande e excelente biblioteca em Piracicaba (a da Unimep); eu, que tomei conhecimento e mencionei aqui o fim de outra biblioteca (a “Monteiro Lobato”, de Osasco – deram-lhe uma machadada, a mando não de Stalin, como no caso de Mercader, mas certamente sob influência não de uma pessoa, mas de uma tendência anti-intelectualista, antiartística que hoje atua como um tsunami no mundo, no Brasil e, particularmente, com força excepcional).

 

Será que Piracicaba conseguirá sustentar-se (ou resgatar-se) como “Atenas Paulista”? Ou será que virá a ser mais uma Alexandria, sequer precisando de incêndio para isso, bastando o desmazelo com sua biblioteca (como Osasco mostrou ser possível). Fico me perguntando, como economista do setor público: qual o orçamento atual da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”?; como ele evoluiu ao longo – digamos – das duas últimas décadas?; ou: a que taxas declinaram anualmente os gastos em investimento e custeio da biblioteca municipal?

 

Gostaria de poder dividir essas perguntas com outros homens e mulheres que amam as bibliotecas ou, mais especificamente, com aqueles e aquelas que têm apreço pela Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”. Porque suspeito que as respostas a essas perguntas revelarão um certo abandono deste tesouro municipal, embora não tão contundente como no caso de Osasco (ainda), muito parecido com o que acontece na maioria dos poucos municípios brasileiros que possuem biblioteca pública. Não deveria aquela praça ali do lado merecer maior atenção da zeladoria municipal? O acervo não deveria estar crescendo mais rápido e com títulos de maior valor literário? As persianas não deveriam ser consertadas, assim como as pias dos banheiros, as luminárias, alguns móveis etc.? Quando foi a última higienização completa do acervo? Como vai a provisão de pessoal, em temos de quantidade e qualidade, para a manutenção da rotina da biblioteca e também para iniciativas inovadoras que possam ser concebidas?

 

Tais perguntas e tantas outras são muito pertinentes sempre, mas o são especialmente depois que foi aprovado o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB) de Piracicaba (Lei Ordinária nº 10.182, de outubro de 2024). Que iniciativas foram, estão sendo ou serão tomadas desde a aprovação deste documento que impõe certas obrigações e metas (tornar a cidade “um polo leitor”, por exemplo) à Prefeitura?

 

(Continua)


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