Presentes e passado
- Valdemir Pires
- há 2 dias
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Atualizado: há 16 horas

Hoje recebi um grande presente, que vale mais que qualquer presente caro que alguém possa oferecer a um ex-professor, mesmo que seja um carro ou até um imóvel. Não é um presente que proporciona conforto ou que sacia desejo, como costumam ser os presentes bem escolhidos por aqueles que conhecem bem os presenteados. É um presente que cala fundo, na alma.
Quem me presenteou foi Júlio, primeiro um ex-aluno em Piracicaba (na Unimep), depois um ex-colega de consultorias num escritório em Campinas (a EGP), depois parceiro em projeto realizado em Ouro Fino (na Prefeitura Municipal); e, desde a graduação, um amigo que, ao casar com Cecília (tesouro que ele encontrou em Ouro Fino), teve a mim e Regina como padrinhos.
Júlio com frequência me presenteia, especialmente com bons vinhos, que tomo sempre evocando nossa longa e bela amizade. Este aí, na foto acima, é um que ele me trouxe depois de sua recente viagem à Europa, tendo amado acima de tudo a Itália.
O presente valioso que ele hoje me deu, mostro logo abaixo: esta crônica de um tempo que passou nos relógios e calendários, mas que se eternizou nas nossas memórias (tempo âmbar), especialmente dele (vejo agora), minha e, certamente, de outro querido amigo nosso (Sebastião Neto Ribeiro Guedes, que na época relatada começara a dirigir - perigosamente - e tinha uma peruazinha Fiat verde, senão oliva, bem próxima disso; que por aquele tempo começou o namoro com Luci Mara, hoje sua esposa).
A sexta-feira que ficou aberta, por Júlio César Tranquilim
No começo dos anos 90, Piracicaba tinha uma claridade própria nas noites de sexta-feira. Não era a claridade dos postes, nem das vitrines, nem dos faróis que desciam apressados pelas ruas. Era uma luz mais íntima, feita de juventude, conversa, música brasileira e esperança sem planilha.
Eu estudava Economia na Universidade Metodista de Piracicaba, a UNIMEP, e acreditava que o mundo podia ser compreendido por meio de gráficos, livros, aulas e longas discussões em mesa de bar. Depois das aulas, quase sempre o destino era o mesmo: o Mascote.
O bar Mascote era mais que um ponto de encontro. Era uma extensão da universidade, só que com copos na mesa, violão afinado e liberdade suficiente para que alunos e professores falassem da vida sem a solenidade da sala de aula. Ali, às sextas-feiras, encontrávamos amigos de vários cursos, gente de Economia, Fisioterapia, Farmácia, Direito, Administração, Jornalismo, cada um carregando seus sonhos, suas dívidas pequenas e suas certezas enormes.
Entre os professores, apareciam Sebastião e Pires. Sebastião tinha o dom de transformar qualquer notícia econômica em provocação. Falava de inflação, dívida pública, mercado, governo, povo e futuro como quem desmontava um relógio sobre a mesa. Pires era mais silencioso, mais observador. Quando falava, parecia colocar um peso certo nas palavras. Não precisava dizer muito para deixar a turma pensando pelo resto da noite.
A música ao vivo começava por volta das dez. Quem puxava a noite era Paulinho Caiuá, aluno de Fisioterapia da UNIMEP, magro, cabelo meio comprido, sorriso fácil e uma intimidade bonita com o violão. Ele tocava Chico, Milton, Djavan, Belchior, Gonzaguinha e o que mais coubesse naquele pequeno palco improvisado. Não cantava como profissional de rádio, mas como estudante que sabia que a música, naquele tempo, salvava alguma coisa dentro da gente.
Em algumas sextas, Paulinho dividia o palco com Carla, aluna de Farmácia. Carla tinha uma voz limpa, firme, sem exagero. Cantava MPB como quem prepara uma fórmula delicada. Havia nela uma mistura de timidez e força. Quando começava “Travessia” ou “O Bêbado e a Equilibrista”, o bar diminuía o volume sozinho. Até Sebastião, que normalmente comentava tudo, calava por alguns minutos.
Lembro de uma noite em especial. A mesa estava cheia. Havia gente sentada, gente em pé, copos se encontrando, risadas altas, cadernos abertos sem necessidade, cigarros acesos e aquela sensação de que a vida adulta ainda demoraria bastante para chegar. Eu tinha uma prova difícil na semana seguinte, pouco dinheiro no bolso e uma tranquilidade absurda diante do futuro.
Sebastião comentou que o Brasil era uma conta que ninguém conseguia fechar. Alguém respondeu que Economia existia justamente para isso. Pires sorriu e disse que certas contas não fechavam porque faltava honestidade na soma. A frase ficou no ar, misturada ao cheiro de cerveja, fritura e madeira antiga.
Paulinho Caiuá começou a tocar “Coração de Estudante”. Carla entrou na segunda parte, com uma voz tão bonita que a conversa da mesa foi morrendo aos poucos. Eu olhei ao redor e vi meus amigos como se estivessem dentro de uma fotografia que ainda não havia sido tirada. Todos jovens. Todos confiantes. Todos sem saber o quanto o tempo cobra caro por aquilo que promete de graça.
Talvez tenha sido o cansaço da semana. Talvez tenha sido a música. Talvez tenha sido apenas a soma improvável de juventude, noite e saudade antecipada. Encostei-me na parede do Mascote, fechei os olhos por alguns segundos e adormeci.
Quando acordei, não havia música.
Havia uma mesa de trabalho diante de mim, uma tela de computador acesa, processos eletrônicos, relatórios, documentos fiscais, pareceres, planilhas e leis abertas em janelas diferentes. Levei alguns instantes para reconhecer o lugar e muito mais tempo para reconhecer a mim mesmo.
Eu estava trinta anos mais velho.
Na tela, lia-se Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Eu era Auditor de Controle Externo. Já não trazia nas mãos os cadernos da UNIMEP, mas documentos de fiscalização. Já não discutia apenas teorias econômicas no Mascote. Agora examinava contas públicas, contratos, empenhos, despesas, obras, receitas, controles internos, transparência, legalidade e responsabilidade.
O estudante que atravessava a noite de sexta com uma pasta de faculdade havia acordado servidor público. O jovem que ouvia Sebastião falar sobre o Brasil como uma conta impossível estava, de algum modo, diante dessa mesma conta, tentando conferir seus lançamentos.
Passei o dia com a sensação estranha de ter sido empurrado para dentro do futuro. Analisei documentos, revisei achados, conferi datas, li justificativas, comparei valores, procurei coerência onde muitas vezes só havia pressa. Em certo processo, encontrei uma inconsistência pequena, quase escondida. Um número deslocado. Uma data conveniente demais. Uma explicação formalmente correta, mas frágil por dentro.
Naquele instante, ouvi claramente a voz de Pires, como se ele estivesse sentado ao meu lado no Mascote: certas contas não fecham porque falta honestidade na soma.
Fiquei imóvel por alguns segundos. Depois continuei o trabalho.
No fim do expediente, em vez de ir direto para casa, caminhei sem plano. As ruas de Piracicaba pareciam conhecidas e distantes. Algumas fachadas haviam sumido, outras resistiam cansadas, algumas tinham sido reformadas a ponto de esconderem sua própria memória. A cidade continuava ali, mas eu é que já não passava por ela do mesmo jeito.
Sem perceber, cheguei diante do lugar onde ficava o Mascote.
A porta estava fechada. O letreiro antigo, quase apagado, ainda deixava ler o nome. Senti uma pontada no peito, dessas que não se explicam sem parecer sentimental demais. Aproximei-me da entrada e toquei a maçaneta.
Ela girou.
Entrei.
O bar estava aceso.
Não como um estabelecimento aberto ao público, mas como uma lembrança que havia decidido não morrer. As mesas estavam no mesmo lugar. O balcão parecia o mesmo. Havia copos sobre uma mesa, cartazes antigos nas paredes e uma luz amarelada sobre o pequeno espaço onde ficavam os músicos.
Paulinho Caiuá estava lá, com o violão no colo, exatamente como no começo dos anos 90. Carla estava ao lado dele, segurando o microfone com as duas mãos. Sebastião e Pires ocupavam uma mesa ao fundo. Meus amigos também estavam ali, jovens, rindo, chamando meu nome, como se eu tivesse apenas me atrasado alguns minutos.
Não consegui falar.
Paulinho me olhou e começou a tocar baixinho. Carla cantou os primeiros versos de “Como Nossos Pais”. Foi então que percebi sobre uma mesa uma pasta do Tribunal de Contas. Aproximei-me e a abri. Dentro dela não havia processo, relatório ou documento oficial. Havia uma comanda antiga do Mascote, amarelada pelo tempo.
Meu nome estava escrito no alto.
Abaixo, em vez de consumo, havia uma lista de coisas que eu julgava perdidas: uma conversa interrompida com Sebastião, uma pergunta que nunca fiz ao Pires, uma música que não agradeci ao Paulinho, um olhar que não devolvi à Carla, uma noite que deixei passar depressa demais, amigos que prometi procurar e não procurei.
No fim da comanda, uma frase curta:
Conta pendente desde sexta-feira.
Sentei-me devagar. Sebastião ergueu o copo e sorriu. Pires apenas apontou para a caneta ao lado da comanda. Entendi que não era cobrança de dinheiro. Era outra espécie de prestação de contas.
Assinei.
No mesmo instante, o bar inteiro pareceu respirar. Paulinho Caiuá mudou o acorde. Carla sorriu e a música ganhou força. Os amigos brindaram. O Mascote voltou a ser, por alguns minutos, o centro secreto da minha juventude.
Quando acordei de verdade, estava em minha cama. O relógio marcava seis da manhã. A cidade lá fora começava mais um dia comum. Levantei-me com a lembrança viva demais para ser apenas sonho. Preparei café, vesti-me e tentei convencer a mim mesmo de que tudo não passara de uma visita da saudade.
Ao abrir minha pasta de trabalho, encontrei uma folha dobrada entre os documentos.
Era a comanda do Mascote.
No verso, com letra caprichada, havia uma observação:
Na próxima sexta, não haverá fiscalização. Haverá música.
Logo abaixo, outra frase, escrita em tinta azul:
Paulinho leva o violão. Carla leva a voz. Você leva o tempo que ainda resta.




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