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Um ex-professor e uma ex-aluna

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 16 horas


Formandos de Administração Pública da Unesp/Araraquara
Formandos de Administração Pública da Unesp/Araraquara

Poucas coisas podem ser tão gratificantes como exercer o magistério (no meu caso, em nível superior), desde que se atue nessa profissão/missão com propósito claro e amor verdadeiro (que não passa por adular nem bajular alunos). Por outro lado, poucas coisas uma pessoa tem tanta dificuldade para saber se realizou bem como as aulas ministradas e as orientações realizadas. Ser professor é passar a vida em dúvida: será que cumpri minha missão, exerci meu papel, entreguei o que devia entregar? Sempre há quem diga que sim e quem diga que não, a maioria não dizendo nada. Avaliações burocráticas (tão em voga) não sanam as dúvidas: positivas ou negativas, não conseguem (nem foram desenhadas para) ir ao âmago da questão; homenagens de formandos (por exemplo),  não são suficientes para validar um tempo de vivência pedagógica com uma turma: espelham opiniões nem sempre consensuais, colocam em jogo mais (e também menos) do que o processo de ensino-aprendizado etc. E por aí vão os elementos que um professor possa recolher para se autoavaliar. Melhor que nunca tenha certeza de ter sido bom, muito menos “o bom”. Há que se evitar essa armadilha, e conceber-se como um semeador que se esforça para bem semear.

 

Talvez não semear... Mas lançar sementes, para que algumas germinem, enquanto outras, antes disso, sejam descobertas e colhidas pelos pássaros que com elas se alimentem: dessa maneira, as ideias, argumentos, raciocínios e teorias utilizados/debatidos/analisados (mais do que ensinados) podem não só se enraizar, mas também voar... Teorias enraizadas são aplicadas e mudam o mundo; teorias que voam, modificam o conjunto das teorias. O ecossistema das ideias precisa das duas.

 

Mas já lá vou eu, "viajando", quando queria apenas registrar a alegria de um ex-professor que recebeu notícias boas de ex-aluna/orientanda/estagiária que o deixaram feliz.

 

Para um professor de um curso de graduação em Administração Pública, nada melhor que ficar sabendo que sua ex-aluna – muito dedicada e atenciosa quando aluna – está atuando no governo central, ao mesmo tempo em que cursa um exigente mestrado na mesma área. Principalmente se a notícia que chega é de que essa aluna está no “centro do furacão” da gestão orçamentária, tendo sido ele seu professor de Finanças Públicas e também de Administração Financeira e Orçamentária Pública:

 

“No desenvolvimento e implementação do nosso novo sistema de gestão e planejamento, contribuí bastante para o estabelecimento de relatórios, índices, memórias de cálculo. Nesta semana aconteceu algo muito legal: estamos na fase 1 de elaboração da Lei Orçamentária Anual (consolidação das propostas). Coletamos os orçamentos de todas as coordenações, e como não terminamos na sexta-feira, passamos o fim de semana trabalhando nisso. No domingo, as tarefas me consumiram toda a tarde. Mas consegui entregar 90% do trabalho sozinha; destrinchei projeto por projeto, orcei outros que não tinham sido incluídos etc. Na segunda-feira, logo que cheguei, meu coordenador, excelente profissional e dedicado servidor, veio me agradecer formalmente, cheio de alegria. Foi muito gratificante.”

 

Depois de me contar um pouco sobre como está sendo morar em Brasília ( tendo saído de uma pequena cidade do interior de São Paulo e estudado em outra não muito maior) e como está conseguindo compatibilizar o expediente na repartição com os estudos e com o cuidado com seu casal de gatos (que tirou da rua quando estudante) e depois de comentar sobre o quanto na cidade é visível a existência de “uma ´instância´ acima do governo, do mercado, onde gente de todo tipo se mistura: militantes de direita e de esquerda, políticos de todos os tipos, traficantes grandes e pequenos, empresários e especuladores - ´instância´, na qual o que manda e o que interessa  é dinheiro e poder”, ela me disse coisas que, ouvidas por qualquer um que tenha sido professor, são as mais gratificantes palavras de toda uma vida, as quais, se não servem como avaliação, funcionam como uma pausa/um respiro na dúvida perene (necessariamente perene) de quem ensina:

 

“Eu tenho certeza de que você não tem a dimensão da importância que você tem para mim. Do quanto da vida aprendi com você. Só de lhe observar, de lhe ouvir. Não tenho como olhar pra mim hoje e não ver você, um pedaço seu, sua marca.”

 

Isso ontem (28/05/2026), relacionado a quinze anos na Unesp/Araraquara; mais isso hoje (29/05/2026), relacionado a quinze anos na Unimep/Piracicaba, considero os meus atestados de conclusão da carreira no magistério superior.

 

Agora vou ser outra coisa, pois, como afirmei à querida ex-aluna, na nossa agradável conversa, eu não sou (nem ninguém é ou deveria se deixar ser) minha profissão nem meu nome ou meu corpo. O que sou/serei, eu próprio estarei sempre procurando saber/construir; se alguém quiser me definir, é bom que providencie uma capacidade de ver e entender de que talvez até Deus duvide possuir.

 

Para ensinar é preciso partir do não saber, dos outros e nosso.


P.S.: Na manhã ensolarada mas fria do domingo, 30/05/2026, deparei-me com a triste mas "natural" notícia da morte, aos 104 anos, de Edgard Morin, ilustrada pela imagem abaixo, com uma metáfora utilizando a palavra semente, de que eu também fiz uso, na crônica acima, de modo não similar, mas parecido (afinal, no meu texto intervém adicionalmente um pássaro).

Imagem em postagem do Sesc São Paulo, 29/10/2026
Imagem em postagem do Sesc São Paulo, 29/10/2026

2 comentários

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Júlio Andrade
Júlio Andrade
há 20 horas
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Meu amigo Pires! Sempre inspirador sobre nosso papel como educadores e gestores públicos. Grande abraço. Júlio Andrade

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Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 19 horas
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Agradecido, Júlio! Saudades! Grande abraço!

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