top of page
  • Foto do escritorValdemir Pires

Shenyang


Imagem: Unsplash, Michael Myers


Cheniangue: cultura milenar, densa história pontilhada por momentos de dominação (sempre superada) japonesa, russa e, finalmente, soviética; orgulhosa, com seu Palácio Imperial de trezentos quartos e vinte jardins construído em 1626; ostensiva com seus edifícios e arranha-céus de arquitetura desafiadora, inserida na recente onda de desenvolvimento da China potência econômica global; capital da província de Liaoningue e décima terceira entre as maiores metrópoles chinesas; mais de nove milhões de habitantes, setecentas e poucas cabeças por quilômetro quadrado.

 

 Em Cheniangue, a mais longa rua comercial para pedestres da China (iniciada em 1625), país que deve ter a maior quantidade, no mundo, de ruas comerciais e feiras ao ar livre, além de mercados e shopping-centers decomunais. Comércio, comércio, comércio – respira-se compra e venda nas cidades chinesas. Grandes lojas convivem com pequenos quiosques em todo canto. Alimentos e bebidas em diversificada profusão, ervas, perfumes, cosméticos, roupas, calçados, celulares, brinquedos, móveis, carros, tudo e mais um pouco. Essas lojas transbordam para todo o planeta há algumas décadas, desafiando produtores e vendedores de outros locais, com seus preços e facilidade de entrega (que logística!). E agora a Nova Rota da Seda se impõe e coloca de joelhos antigos donos do comércio internacional.

 

Depois de imergir dos túneis do eficiente metrô, caminho por Cheniang, silencioso e atento, misturado aos incontáveis outros transeuntes que disputam espaço com bicicletas, triciclos, carros, ônibus, caminhões e máquinas poderosas utilizadas na construção civil que não para. Homens e mulheres jovens e velhos e crianças, quase todos com celulares nas mãos, muitos neles falando enquanto caminham atentos à conversa e ao trânsito. Difícil saber como conseguem não se trombarem, como conseguem evitar acidentes. As ruas e avenidas escoam os passantes como um rio que segue seu rumo sem pensar em destinos.

 

Mas homens em trânsito não são como água no rio, cujo destino o relevo determina pela força das margens. Nem como locomotivas, com seus caminhos predefinidos pelos trilhos. Pessoas escolhem para onde ir, sob restrições, sempre – a morada que não é a desejada, o local de trabalho a que se vai a contragosto, a obrigação de fazer a feira sem vontade, a ida inescapável a uma consulta médica, um encontro indesejável ou desconfortável com alguém –, mas restrições móveis, nunca previa e definitivamente determinadas. Então quem vê tanta gente assim, caminhando, indo ou voltando, se pergunta: de onde, para onde, por quê, para quê? Alguns correm, outros vão devagar; há quem vá compenetrado, quem siga sorrindo e os que apresentam cara de paisagem; curiosamente, duplas femininas andam de braços dados, conversando; crianças gritam e correm à frente dos pais, algumas ensaiando passos como se fossem danças. Agitação, movimento.

 

Não há margens nem trilhos concretos, visíveis, palpáveis, determinando o comportamento do fluxo humano em Cheniangue, mas eles existem, certamente, notavelmente. Algo há que empurra e puxa essa imensa massa humana para seus repetitivos fazeres diários. Algo conhecido há séculos: a luta pela sobrevivência e o sonho de sucesso na interação por meio de trocas, no ambiente urbano – numa palavra, batida e gasta: mercado. Mas ali o mercado é diferente, não na essência, mas na aparência: há uma espécie de esperança no ar, dotando os movimentos de cada um de uma alegria, contida mas real – um sentir-se bem no mundo, mas sem estardalhaço, ninguém triste nem efusivo. Jovens e velhos usufruindo de um padrão de vida superior ao que era possível ali, há bem pouco tempo. Esforços recompensados por confortos antes inacessíveis – emprego e renda. Sob uma aparentemente calculada dose de “circo”: músicas, espetáculos, luzes coloridas em profusão – o consumo praticado com alegria, postiça ou genuína.

 

A cidade, à noite, ofusca a beleza do céu, mesmo se enluarado ou estrelado, como se o firmamento tivesse deixado as alturas e se instalado nas ruas e edificações de Cheniangue. Paraíso, o que seria? Aparentemente, o modo de vida tipicamente ocidental, a cultura oriental restando como tempero ou perfume que se distancia.

 

Cheniangue leva a pensar em águas que se misturam ao se encontrarem: de um lado, o fluxo de ideias e comportamentos europeus e americanos que penetra a China, notoriamente acalentados (e pouco a pouco materializados) por chineses em ascensão nas áreas urbanas novinhas em folha; de outro lado, o fluxo incomensurável de produtos e mercadorias chineses exportados em “negócios da China” para todo o Ocidente e além dele, franceses, italianos, norte-americanos, brasileiros, argentinos, sul-africanos, árabes, não necessariamente ricos, usufruindo de bens produzidos por chineses com alta produtividade e baixo custo, vendidos a preços menores mundo afora, apesar de toda a logística necessária. Interação de ideias e mercadorias que está mudando o planeta, social, cultural, política, econômica e geopoliticamente falando. Aonde se chegará? Os conflitos inerentes às mudanças em curso não levarão à interrupção violenta desse estado de coisas?

 

Silencioso e pensativo, permaneço na interminável rua comercial. Janeiro, clima frio, dia nublado. A fumaça (lembrando fogo e calor) e o cheiro (aguçando o paladar), convida a parar num dos quiosques que vende comida de rua tanto doce como salgada. Sem conhecê-las deixo-me guiar pela fome e pela vontade de experimentar sabores. Escolho apontando espetos ou recipientes cheios que me despertam apetite. Peço, pago, saio comendo, andando, como vejo ser o costume. Sem palavras, que não seriam entendidas. Elas se convertem em tempero, enquanto o olhar admira o tigre que parece saltar da tela de TV para a a rua, no alto de uma grande loja pintada de cinza. Coisa tola, que não vejo nenhum dos tantos passantes notar, alguns balançando o corpo em dancinha que responde à musiquinha sem graça que vem de algum potente conjunto de caixas acústicas instalado em loja que não consigo saber qual é.

 

Numa esquina em que se vê uma agência do Shengjing Bank, observo a vida normal. Passa um casal que não se dá as mãos, ele as abanando ao andar, ela carregando sacolas cheias nas suas; e outro casal mais jovem, de mãos dadas, os dois vestidos de preto – camisetas, calção e saia curta; passa também uma velha senhora arrastando um carrinho de compras, também cheio; de bicicleta, outra senhora, de meia idade, atravessa na contramão, cestinho e mais uma sacola de plástico pendurada no guidão, cheios. Não encontrei nenhum pedinte.

 

Pensei em seguir alguém aleatoriamente escolhido para observar o comportamento durante o trajeto e verificar para onde estaria indo. Pura curiosidade. Poderia ser esta moça bonita, provocativamente trajada e maquiada, com ares de bicho-grilo. Em vez disso, sentei-me e fiquei observando o conjunto do movimento. Perguntei sobre mim. Um indivíduo no meio dessa multidão. Em que me assemelho e em que me diferencio de cada um? O que é, o que pode ser, um indivíduo singular neste mar de gente?

 

Mais tarde, caminhando pela área nova da cidade, com seus edifícios e áreas de arquitetura futurista, fui tocado pelo poder da tecnologia e da coordenação de ações individuais para mudar o meio ambiente. Os chineses são capazes de feitos impressionantes na engenharia civil. Podem construir cidades inteiras de um dia para o outro, mesmo quando, para isso, têm que remover montanhas inteiras ou atravessar volumes enormes de água. Os palácios milenares – para não falar no inconfundível Muralha – testemunham que não é de hoje este domínio de técnicas de construção e de formas de mobilizar equipes.

 

Cheniangue! Que janela! Aberta para se respirar o ar do futuro, que sopra carregando poeiras de um passado remoto e recente – ar que invade o presente que já não se pode compreender com exatidão (o que está sendo?), nesse seu desenrolar em que indivíduo e multidão ao mesmo tempo se atraem e se repelem, ansiosos e não raro angustiados, com medo e confiança se contrapondo no mesmo peito e no mesmo passo coletivo rumo ao incerto – consumindo, consumido, comprando, vendendo, trocando, em busca de confortos e alegrias materiais que parecem não ter fim, mas só parecem.

6 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page