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Guerra visível e guerras invisíveis

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Imagem: Wix
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Matanças aqui e ali incorporam-se à “paisagem” global, como se fossem naturais - guerras invisíveis. Que, em algum ponto da África, fronteiras recém-delineadas com o fim do velho colonialismo levem a confrontos sangrentos, parece decorrência já esperada, assim como a luta interna entre candidaturas à ocupação do poder, antes usurpado por potências estrangeiras. Que no Oriente Médio os grupos se enfrentem quase que quotidianamente, por conta de suas divergências históricas a partir de variados fundamentos, não é algo que “cause estranheza”, podendo-se dizer o mesmo com relação aos novos Estados resultantes do recente derretimento do socialismo real. Além disso, há guerras altamente destrutivas, cuja solução o mundo parece ter desistido de buscar: este é o caso, por exemplo, da guerra no Iêmen, praticamente deixado à própria sorte, num leito de morte.

 

Em meu livro As cidades visíveis: esboços de futuros, argumento que na Península Arábica desenham-se modos de vida e jeitos de viver que podem vir a ser um daqueles com que conviveremos no período vindouro (na China localizando-se outro deles). Ao desenhar esta perspectiva, excluo o Iêmen, porque ali o futuro esboçado é de total destruição.

 

Todavia, com as recentes hostilidades norte-americanas contra o Irã, a continuidade do exuberante desenvolvimento da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Catar, do Kwait, do Bahrein e de Omã entra no campo da dúvida. Não é difícil ataques massivos por drones e mísseis colapsarem, talvez definitivamente, exuberantes cidades como Riad, Cidade do Kwait, Doha, Manama, Dubai, Abu Dhabi, Mascate.

 

O que acontece hoje no Iêmen – uma “guerra por procuração” entre Irã e Arábia Saudita (leia-se Estados Unidos) – pode se espalhar por toda a península, e então a guerra deixará de ser invisível, para se tornar o possível estopim de uma visível Terceira Guerra Mundial. Isso porque os interesses em jogo serão muitíssimo maiores, e as procurações serão deixadas de lado, os protagonistas declarando-se e enfrentando-se diretamente, com impossibilidade de o fato ser globalmente ignorado.

 

Assim, se não tiverem fim os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, a Península Arábica continuará oferecendo um esboço de futuro, mas este não corresponderá às capitais árabes poderosas mais Dubai, mas sim a Saná, a capital iemenita, que ser tornou um completo escombro, regado a sangue de inocentes.

 

Da guerra invisível do Iêmen à guerra visível entre Estados Unidos/Israel e o Irã, envolvendo os países do Oriente Médio, querendo eles ou não, passa-se dos argumentos/interesses reais (rearranjo geoestratégico provocado pelo recente avanço do poder econômico e militar chinês e também preocupações com o controle de reservas energéticas) ao discurso ilusionista de combate ao “eixo do mal” antidemocrático e demoníaco (leia-se comunista, à frente China e Rússia), em defesa das liberdades individuais. A facilidade para disseminação de fake news pelos atuais meios de comunicação em tempo real e em nível global facilita para que assim seja.

 

Esta guerra com vocação para generalizar-se é, também, um confronto entre o atual/titubeante multilateralismo (que não mais interessa à superpotência em declínio – EUA – enquanto convém à China exportadora) e um potencial bilateralismo que redesenha a Guerra Fria, envolvendo superpotências incapazes de derrotar uma à outra, tendo que conviver em relativa paz (paz armada até os dentes), em geral às custas de todos os demais e de instituições como a ONU, já no limiar da impotência.

 

Serão tempos difíceis os vividos no século XXI, tempos em que a humanidade atingiu patamares há pouco inimagináveis em domínio tecnológico, de que as cidades chinesas e as capitais dos países da Península Arábica são demonstrações inquestionáveis, mas de que o são, também, como contraponto, os armamentos de ataque e de defesa em uso durante as hostilidades em curso entre Estados Unidos/Israel e Irã. Que alta tecnologia prevalecerá: a que constrói um Burj Khalifa e toda Dubai, uma Xangai e suas obras de engenharia incríveis, ou a que produz armas de alta sofisticação e potencial destrutivo que permitem dispensar os arsenais atômicos e, ainda assim, acabar com o mundo tal como o conhecemos?

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