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Burj Khalifa em Chamas

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • 17 de mar.
  • 3 min de leitura

Imagem: Yash Savla (Unsplash)
Imagem: Yash Savla (Unsplash)

Em meu recente livro As cidades visíveis: esboços de futuros, Dubai aparece, juntamente com as capitais dos países da Península Arábica (exceto Saná), como lugar em que a arquitetura, o urbanismo, a economia, os modos de vida, os jeitos de viver, articulados entre si, permitem entrever o amanhã resultante da tecnologia, dos negócios e das relações de poder ali presentes hoje, numa espécie de vitrine global amplamente aclamada.

 

Meu livro foi publicado antes dos ataques do Irã aos Emirados Árabes, após o início das hostilidades americanas visando à derrubada do regime em Teerã. Embora eu já antecipasse algumas potenciais ameaças à continuidade do modelo de desenvolvimento em curso nos países petrolíferos em busca de diversificação de suas economias, prevenindo-se contra os males do previsível esgotamento das fontes energéticas que os enriqueceram, não se poderia imaginar, então, o que ali teve início com a equivocada e imperdoável guerra lançada por Donald Trump.

 

Poucas coisas são capazes de arrancar suspiros de admiração, ultimamente, como a extrema exuberância das grandes cidades da Península Arábica (assim como da China, também consideradas em meu livro). Elas são obras de arte em grande escala e de grande alcance, resultados de admirável manejo estético (arquitetura, decoração), técnico (engenharia), econômico (engenharia financeira) e político (sustentação de regimes de poder). Inacreditáveis grandes oásis no meio do deserto impiedoso e traiçoeiro, Dubai, Abu Dhabi, Manama, Cidade do Kwait, Doha, Riade e Mascate são provas do quanto pode a habilidade humana, mesmo frente às adversidades do meio e das formas precárias de relacionamento humano.

 

Não há dúvida de que a mais brilhante joia na vitrine do Oriente Médio é Dubai e, nesta cidade, destaca-se o maior e um dos mais luxuosos edifícios do mundo: o Burj Khalifa, de cujos andares superiores Dubai pode ser vista em todo o seu esplendor artificial. Agora, imagine-se este colosso em chamas, enquanto começa a ruir aos poucos, como consequência de um bombardeio. O espetáculo de terror sobrepujaria o anterior espetáculo de encantamento diante da cidade construída com incrível rapidez nos Emirados Árabes. Ver-se-ia o Burj Khalifa iluminado pelas labaredas destrutivas. Ele, hoje iluminado todas as noites, por holofotes e projeções de imagens que atraem multidões em busca de espetáculo imersivo, quase alucinante. Em vez das águas dançantes sob músicas variadas, ali nas proximidades, como tem acontecido, chuva de materiais de construção ao som de explosões. 

 

O Burj Khalifa em chamas infelizmente não é uma hipótese distante, traria à lembrança o terrível evento do ataque às Torres Gêmeas de Nova York, também ele relacionado aos conflitos no Oriente Médio. Mas ainda que isso não ocorra, ele nunca mais será o mesmo, nem Dubai. Já com seu aeroporto inviabilizado por ataques, a cidade vê sua economia, antes vibrante, fortemente abalada: turistas em fuga, retração de investimentos, mercado imobiliário sob risco de crise etc. O paraíso que levou algumas décadas para se tornar realidade pode, em meses, converte-se em verdadeiro inferno: uma cidade deserta no meio do deserto, a um custo incalculável.

 

Em Dubai, uma vez mais, a constatação de que o ser humano pode muito, mas, infelizmente, pode mais quando se trata de destruir do que quando se trata de construir; tem maior capacidade de promover a guerra do que de disseminar a paz – e este desequilíbrio se origina do fato de a imensa maioria de homens comuns não ser capaz de limitar as ações e reverter decisões de umas poucas mentes viciadas em tudo submeter aos seus interesses, quando não à sua loucura.

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