Manhã para ler livros e a cidade
- Valdemir Pires
- há 30 minutos
- 5 min de leitura
Manhã para ler livros e a cidade

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é,
indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O
microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o
prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu
braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da
imaginação.” (Jorge Luis Borges)
Por economia de tempo e também de combustível (o ataque de Trump ao Irã me alcança aqui em Piracicaba) decidi ir à biblioteca (devolver livro lido – o Hemingway que já comentei, pegar livro para ler – o Borges que já mencionei, e usufruir daquele ambiente propício ao devaneio mental) logo depois de cortar os cabelos, às nove horas da manhã.
Acordei às 7h15min, levantei-me, me arrumei, e tomei café com a família, sorvendo, além do café, a alegria e os sorrisos da netinha Ana Luiza, a que me habituei. Levei meia hora para atravessar os 11 km de casa até o salão do Nilton, na Avenida do Café – como tenho dito, Piracicaba cresceu e, com este crescimento, embora as distâncias continuem as mesmas, o tempo para percorrê-las só aumenta, assim como os acidentes de trânsito, especialmente com motocicletas.
Como sempre, cheguei dez minutos adiantado. Enquanto esperava Nilton, para o corte, aproveitei para ver (já que ler não é bem o verbo a aplicar ao caso) o Jornal de Piracicaba do dia: 8 páginas – meia página de classificados (quando em tempos outros havia um caderno deles), uma página e meia com o obituário seguida de uma notícia de vandalização ocorrida no Cemitério da Saudade (como se em Piracicaba mais se morresse que se comprasse e vendesse coisas); notícia principal, na primeira página: o adiamento do prazo para pagar o IPTU, depois de um impasse envolvendo os carnês cancelados pela Justiça; segunda notícia importante: emenda parlamentar da professora Bebel para reformar a lavanderia da Santa Casa; mais dois artigos de opinião ocupando uma página. Para um leitor (inclusive de jornais, no passado, quando eles mereciam este nome) que está prestes a ir para a biblioteca, essa foi uma atividade meio esquisita: tudo o que havia no matutino, eu resumi para Nilton em trinta segundos. Justo eu que, no passado, fui articulista animado do Jornal de Piracicaba, lá iniciando em julho de 1990.
Também como sempre, Nilton e eu conversamos enquanto ele trabalhava. Desta vez, entre os assuntos que nos apareceram, numa sequência fora de controle que começou considerando a morte dos jornais, esteve a inteligência artificial. Uma de minhas observações foi a de que hoje é possível a qualquer um escrever uma história ou estória (crônica, conto, novela etc.) sem nunca ter se dedicado a esse tipo de fazer, sem jamais sequer ter pensado em ser escritor. Dei a ele o exemplo de um amigo (que não é qualquer um) que escreveu, com algum auxilia de IA, uma crônica que ficou bastante graciosa, tocante para mim, que nela compareci. Nilton disse que então ele deveria publicar e que gostaria de ler. Eu informei tê-la publicado em meu site, com autorização do amigo. Prometi lhe passar o link.
Não pude de imediato compartilhar com Nilton o link da crônica porque havia esquecido em casa (como nunca antes) o meu telefone celular. Ele me fez o favor de, com o aparelho dele, informar minha esposa Regina do ocorrido, para o caso de ela tentar me contatar ou para o caso de ela dar pela falta de meu contato ao longo de toda a manhã e começo da tarde em que estaria fora. Esta ocorrência, de esquecer o celular, faz a gente se sentir como quem fica nu no meio da rua ou sem espada no fragor da batalha: falta algo que se que é imprescindível. E, além disso, assomam questões desagradáveis, associadas a problemas que podem ocorrer, cujas soluções possam depender de se fazer uma ligação... (como se, hoje em dia, não fosse mais possível solucionar problemas sem um celular nas mãos...)
Terminado o corte de cabelos, era cedo, ainda, para almoçar. Então fui a uma loja comprar meias que Regina havia me pedido; fui à Padaria Takaki comprar os biscoitos de polvilho de lá, os meus favoritos, com sementes de gergelim; e decidi, em vez de almoçar, comer uma coxinha de uma lanchonete ali na Paulista e seguir para a biblioteca já no finalzinho da manhã.
Ler não é prática destinada somente às páginas ou às letras, estejam onde estiver – uma tela de computador, uma placa, um outdoor, uma etiqueta de roupa, um maço de cigarros, um corpo tatuado... Ler é também a atividade mental de perceber com atenção: perscrutar o mundo e os seres. Inclui ler nas entrelinhas, ou seja, buscando o dito em meio ou por trás do não dito. Isso quando se lê bem, mobilizando verdadeiramente a atenção. Ou seja, ler e interagir com o mundo e com as pessoas evitando os ruídos do mundo e a agitação das pessoas. Por isso, ler não é fácil.
Quando vou à biblioteca, tento ir da minha casa até ela (e depois voltar) “lendo” o que encontro pelo caminho. Talvez isso já tenha ficado claro neste Diário. Desta vez, minha principal página lida da cidade, foi “a Paulista”, região de comércio popular bem variada e movimentada, que neste momento conta duas histórias simultâneas: a história (conjuntural) de estabelecimentos comerciais que estão vendendo bastante porque a economia está indo relativamente bem e o crédito está em volume máximo; e a história (estrutural) de estabelecimentos comerciais que, antigos, acabam fechando; novos, abrem mas logo fecham; novos que duram um tanto – tudo isso ao sabor da transição do comércio tradicional, de rua, para a nova prática de comparas pela internet (comércio virtual). A decadência está no ar (como futuro se desenhando), ao mesmo tempo em que uma brisa penetra, feito bálsamo passageiro, no pulmão dos transeuntes (potenciais fregueses) e dos comerciários e dos comerciantes.
Mas chegou a hora de “ler de verdade” – não pessoas ou ruas, nem “jornais”, mas livro. Chegando à biblioteca, devolvo o Hemingway (dois atendentes de prontidão, Antonio e Élcio, digo que fica difícil escolher entre dois tão gentis a qual recorrer) e logo vou buscar o Borges almejado. Vejo que Cinco visões pessoais é fininho, então decido pegar mais um, do mesmo autor: Borges oral. E vou logo para a “minha mesinha”. Encontrando-a ocupada por uma mulher que nela estuda, fico com a seguinte, menos, mas também bem iluminada. Pouco depois chega uma moça ruiva com notebook e ocupa a mesa seguinte, atrás de mim. Está movimentado!
Começo a leitura de inspeção. Descubro logo que tenho em mãos o mesmo livro, com títulos diferentes. Uma edição brasileira e outra portuguesa. Compreendo o motivo: na edição da Editora da Universidade de Brasília (1985), a obra faz parte da Coleção “Visões Pessoais”, daí “Cinco Visões Pessoais” de Borges (sobre livro, imortalidade, tempo, conto policial e o “visionário” Swedenborg); enquanto na edição portuguesa, da Editora Veja (sem data, ou não a descobri), consta da Coleção “Provisórios e definitivos”, o título traduzido do espanhol original Borges Oral.
Leio, na edição de Portugal, o Prefácio do tradutor (Rafael Gonçalo Gomes Felipe, que nele se revela muito criterioso), o comentário do Reitor Dr. Avelino José Porto da Universidade de Belgrano (na qual Borges pronunciou as aulas que foram convertidas no livro) e o prólogo do próprio Borges. Passo os olhos pela primeira aula, O livro, e folheio as demais. Depois folheio a edição brasileira. Pronto, duas decisões tomadas: lerei a versão lusitana; apesar de ser um livro curto, não vou levar outro para ler na próxima semana, pretendendo encontrar Borges com vagar.
(Aproveitei o primeiro parágrafo da aula “O livro” como epígrafe destas notas.)
(Continua)
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