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O homem que amava os touros (Diário da Biblioteca – VII, 02/06/2026)

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

O homem que amava os touros

Obras de Hemingway na Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto"
Obras de Hemingway na Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto"

“Um livro que deixa seu leitor tal como antes é um livro falido.” (Emile

Cioran)

 

Homens amam animais, não há como negar – domésticos e selvagens; do ar, da terra, das águas doces ou salgadas. Não li, talvez algum dia leia, o que diz a respeito Donna Haraway, em seu livro O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridade significativa. Creio que ela possa desvendar o que se passa com Thomas Hudson, protagonista do romance As ilhas da corrente, de Ernest Hemingway, na sua relação com o gato Boise.

 

Hemingway talvez seja o escritor em cujas obras mais compareçam animais; e em algumas cenas ele escreve como quem compreende profundamente os sentimentos dos bichos, como, por exemplo, do leão ferido, no conto A vida breve e feliz de Francis Macomber, o primeiro da coletânea que acabo de ler e vou agora devolver à biblioteca. Tanto neste, como nos dois contos seguintes (A capital do mundo – o segundo, e o famosíssimo As neves do Kilimandjaro – o terceiro) os animais se fazem fortemente presentes, juntamente com a morte trágica. O primeiro bem poderia se chamar “Francis e Margaret” e o terceiro, “Harry e Helen”, pois em ambos os personagens centrais são casais em viagem (chamados de Bwana e Mensahib pelos que os servem), dos quais o homem morre tragicamente, ao lado da mulher. No primeiro, movem-se animais da África selvagem sendo caçados (com diversas armas que o escritor faz questão de nomear e mostrar como funcionam): o leão, búfalos e elands (grande antílope africano). No terceiro, em várias páginas surgem animais, principalmente selvagens: abutres (p. 68, 77,80) e gazelas (p. 70, 80 e 81); raposa, galo e cavalos (p. 75, 80); pequenos animais da planície (p. 76); antílopes (p. 81); hiena (p.82, 83, 94, 95, 98 e 99); cachorros (92); zebras e gnus (97).

 

É no segundo desses contos que está o animal predileto de Hemingway, embora na forma de imitação (o touro é Enrique segurando alto uma cadeira com duas facas amarradas nos pés, como se fossem os medonhos chifres cortantes) para simular uma tourada em que o toureiro é Paco. Ali, no refeitório em que o dois trabalham como serviçais, a tola brincadeira termina com a trágica morte do jovem Paco, realizando pela primeira vez o sonho de enfrentar um touro. Touros, touradas e cavalos voltam a aparecer, indissociáveis dos protagonistas, em Meu velho e Os renitentes.

 

 De 21 contos desta coletânea, 10 fazem parte da “zoonarrativa hemingwayana”. O velho e a ponte fala de um homem que fugiu dos ataques da guerra e vive preocupado com os bichos que deixou para trás (um gato, cabras e pombos); O gato na chuva é sobre o desejo de uma mulher de ter um felino, como tapa-buraco para a falta de afeto do marido; em Num canário para ela, uma mãe possessiva leva para a filha uma ave, enquanto impede-a de casar-se com um “não americano”; em Agora vou dormir, o que há são insetos, especialmente o bicho da seda; Colinas parecendo elefantes brancos flagra o autor vendo forma de bichos em quase tudo (como no título), mas ali o que abunda é bebida – outra espécie de obsessão em Hemingway, como as armas; águia e gavião estão no conto Em outro país; são breves, mas significativas, as menções a animais em História natural dos mortos.

 

Em Cinquenta mil, o tema é tourada, com um toureiro em fim de carreira e outro alçando voo. A narração da luta entre eles praticamente coloca em cena os galos: os dois homens se combatem feito essas aves nas desumanas rinhas. Afinal, em Hemingway parece que há uma necessidade fundamental de utilizar animais na busca para entender o bicho-homem. Bicho esse que, no fim das contas, é quase como todos os outros, com o quê diferenciador: tem que fazer o que precisa ser feito (como os demais), com a diferença de que nos bichos-não-homens o que precisa ser feito é dado pela natureza, e não escamoteado pela cultura, pelos interesses, pelos desejos (que não se confundem com necessidades). Daí decorrem inúmeros e intermináveis combates, tal como o de Santiago contra um enorme peixe em O velho e o mar. Suponho que caso o tivesse lido, se ao seu tempo estivesse disponível, Hemingway concordaria com Comte-Sponville (em seu Ser-Tempo, já mencionado neste Diário), quando o filósofo francês afirma que a vida deve ser encarada numa perspectiva “insistencialista” (e não meramente existencialista).

 

Os touros povoam várias passagens de toda a obra de Hemingway, assim como touradas e toureiros (tema de seu Morte ao entardecer, que ainda não li). Ele indubitavelmente foi um homem que amava os touros. Um de seus livros (O verão perigoso, que já li) é o que se pode chamar de romance-biografia, de seu admirado amigo (e um pouco dele próprio), o toureiro Antonio Ordoñez; livro que se lê com o coração na boca e, com o perdão da expressão, com o cu na mão.  

 

Eis, então, que neste ensolarado e frio 02 de junho, terça-feira, vou à  Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” devolver este primeiro livro de contos que li de Ernest Hemingway, não totalmente absorvidas, ainda, todas as pancadas que ele desfere em quem se acerca de sua visão de mundo e de sua poética despojada. E vou, desta vez, tomar emprestado um livro ensaístico de Jorge Luiz Borges: Cinco visões pessoais – passarei da secura verbal irrigante de Hemingway ao malabarismo mental fertilizante de Borges...

 

Livros, livros, livros – um vício? Talvez. Fato é que os livros me livram (e sempre me livraram) de muita coisa – embora sem levá-las embora nem exorcizá-las por completo: dos sentimentos e sensações que brotam da miséria, da doença, do desaparecimento (para sempre) de pessoas amadas (nem todas sabendo que o foram) e da proximidade da Inevitável. Livros que o pai nunca teve e provavelmente nunca leu um, livrando-se, por sua vez, das tristezas e medos, com auxílio etílico – daí nunca temos nos entendido, eu somente hoje começando a compreendê-lo um pouco, nessa tourada maluca que é a vida, na qual as verônicas nem sempre dão certo (com frequência levando o touro a melhor...) e, quando dão, poucas vezes chegam a ser espetaculares, sem que isso dê motivo para desânimo (na linha do já mencionado insistencialismo de Comte-Sponville).

 

(Espero ter exemplificado, nesta nota, como um livro de filosofia e outro de literatura podem se encontrar – abraçando-se ou repelindo-se – na mente do leitor, e gerar percepções outras que não aquelas que cada um deles, isoladamente, pretendeu, diretamente, provocar. Ou: como, partindo da razão, de um lado, e da emoção, de outro, constroem-se diferentes trilhas para se chegar a um mesmo ponto.)

 

(Continua)

 

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