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Uma mistura de personagens ficcionais com figuras históricas (Diário da Biblioteca – XIII, 30/06/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
1 de set.
5 min de leitura

Uma mistura de personagens ficcionais com figuras históricas

 

“Ler, tanto quanto escrever, é fazer a ressureição de um mundo.”

(João Anzanello Carrascoza)


Peguei Agosto na Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” no começo da tarde do dia 24 de junho. Comecei imediatamente a ler e não consegui parar, utilizando todos os “pedaços de tempo” que pude agarrar (inclusive os proporcionados pelas costumeiras insônias) para chegar ao fim das aventuras (ou desventuras?), ali narradas, de Getúlio Vargas e do comissário Alberto Mattos. Na madrugada de 28/06/2026, concluí, satisfeito, a leitura de meu segundo livro de Rubem Fonseca (o primeiro foi O caso Morel, lido em 2003).

 

Não sou propriamente um apreciador de romances policiais, mas também não sou “leitor de uma nota só”, ou seja, gosto de trafegar por todo tipo de literatura, para aprender através de todas as formas inventadas pela inteligência e pela sensibilidade em busca de desvendar aspectos diversos do mundo, das pessoas e das relações sociais e interpessoais. Tenho dito que, assim que for possível, lerei até mesmo Harry Potter...

 

Que Rubem Braga é dos maiores no gênero policial no Brasil, é fato por demais conhecido e aceito. E Agosto o comprova, agora sei. Fantástica, e bem materializada, a ideia de entrelaçar o relato quase jornalístico do crime da Rua Toneleiro (o atentado contra Carlos Lacerda, no dia 5 de agosto de 1954) e o suicídio do presidente Getúlio Vargas (no dia 24 do mesmo mês) com a saga do detetive Mattos para desvendar o assassinato do empresário Paulo Gomes Machado de Aguiar.

 

Mesmo eu, já tendo lido os três volumes da magnífica biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto (emprestados por um então aluno na Unesp – Caio Calarga), avancei no conhecimento dos fatos pertinentes àqueles episódios da política nacional ao ler Agosto. É maravilhoso perceber o quanto e como a ficção e a história, saboreadas lado a lado, no percurso de um leitor, transforma percepções acerca dos acontecimentos e fatos. (Fico, agora, curioso para saber como foi feita a adaptação do livro de Rubem Fonseca na minissérie de 16 capítulos produzida pela TV Globo e exibida de 24 de agosto a 17 de setembro de 1993.)

 

É provável que o maravilhamento acima citado aconteça em decorrência do uso de um problema percebido por Saramago: "A verdade histórica não existe. A História não é mais do que uma ficção. Quer dizer, uma ficção com mais dados, concretos, reais, mas também com muita imaginação." Uma coisa é saber que Getúlio se suicidou no dia tal, em tal local, diante de tais circunstâncias etc. Outra é, de posse das informações “objetivas”, aproximar-se da cena, com a ajuda da imaginação de um escritor talentoso, captando detalhes que poderiam ter sido, se é que não foram assim:

 

A cena histórica sob a luz da imaginação
A cena histórica sob a luz da imaginação

 

Quando o personagem Getúlio (criada pelo autor) leva a que se avente hipóteses “realistas” sobre acontecimentos da vida real do homem/político Vargas, sendo isso feito com maestria literária, o que se obtém é uma ampliação do conhecimento da História. Ou não? Sobre isso, ou seja, sobre a relação entre literatura/ficção e história/”realidade”, li em 2024 e recomendo fortemente, de Luiz Costa Lima, História, ficção, literatura.

 

Em Agosto não há digressões nem qualquer tipo de frase de efeito, nada é poetizado (aliás há uma passagem em que uma das duas amantes de Mattos o acusa de não gostar de poesias, só de óperas). Os raciocínios, conclusões, posicionamentos acerca da vida e da realidade (brasileira, no caso) estão ali, sim, mas como elementos que emergem, sem anúncio, destaque ou adorno, da pura narrativa, quase jornalística. É assim que a ineficiência, a corrupção e a prepotência inerentes ao sistema policial do país são praticamente denunciadas por meio das ações, reações e decepções diárias do comissário Mattos: um funcionário público honesto, imbuído de espírito de missão, único entre seus pares que não “come nas mãos” dos bicheiros do Rio de Janeiro; preocupado em agir dentro da lei, custe o que custar – e muito lhe custa, de fato. Por isso, um homem isolado, pobre (em seu apartamento despojado), doente (Pepsamar, que ele ingere para aliviar o mal-estar que o persegue, é o nome de um remédio que atravessa as páginas do romance de caba a rabo, da mesma maneira que o fazem as bebidas alcoólicas em alguns romances de Hemingway), sempre às turras com colegas policiais corruptos e chegados ao abuso de autoridade.

 

Rubem Braga não deixa de colocar Mattos contra ele mesmo na sua busca intransigente por seguir a lei e agir corretamente. O comissário vive enfrentando problemas para decidir – mas sempre acha uma saída honrosa. Menos diante de um caso, que explicita um verdadeiro dilema moral: O cliente de uma oficina mecânica foi morto em desentendimento com os proprietários ao buscar seu veículo. Mattos, ao conduzir o inquérito, estava convencido de que o criminoso fora o velho português Adelino (o dono da oficina) e não seu filho Cosme, que se apresentou à delegacia confessando-se autor do assassinato. Fez que fez, a ponto de Adelino finalmente confessar. Com isso Cosme foi solto e voltou para a mulher grávida e para a rotina de trabalho na pequena em presa do pai. Passado muito tempo, Cosmo procurou Mattos, pedindo para ser preso, pois o pai havia assumido sua culpa para livrá-lo. O que seria “o certo, o dentro da lei”? Prender Cosme, claro. Sim, mas... Dirá Mattos: “O caso está encerrado.” E ensina ao jovem arrependido: “Agora é tarde. As coisas nunca são como são, assim é a vida.” (p. 306)

 

Pepsamar, medicamento à base de hidróxido de alumínio, frequentemente ingerido por Mattos no seu dia a dia, é palavra que se conta às dezenas no livro, ao contrário da expressão “Aí é que está o busílis”, bordão colado à figura de Rosalvo, o auxiliar de Mattos. Embora tenha sido busílis a palavra que me levou, brincalhonamente, a ler Agosto (como já relatado em dia anterior deste diário), ela aparece no livro apenas quatro vezes, nas páginas 19, 79, 142 e 331. Não sei se Rosalvo é personagem de outros livros de Rubem Fonseca, neles incidindo mais fortemente no uso e abuso do bordão, a ponto de, por isso, a expressão ter se tornado famosa, associada a ele, tal como me chegou.

 

Por fim, registro que foi uma sensação interessante encontrar num romance nomes conhecidos da política nacional, acompanhando-os como se fossem personagens – ou, pelo menos, misturados a personagens – Tancredo Neves, por exemplo, à página 320, divulgando a carta informando que Getúlio se afastaria do cargo por decisão própria, após as pressões que se seguiram ao crime da Rua Toneleiro.  Também o foi, no meu caso, encontrar na página 338 esta passagem: “O jornal [O Globo], localizado num sobrado acima da Livraria Freias Bastos, acabara de ter seu portão fechado quando chegaram os primeiros manifestantes, que corriam à frente da massa”, pois em outubro de 2022 fui convidado, pelo que sobrou desta empresa, a publicar um livro meu, convite que terminei não aceitando.

 

Devolvido o livro lido à biblioteca (corrigindo com o Elcio, que o recebeu de volta, minha afirmativa, feita no dia em que o peguei, com ele, de que o evento histórico tratado em Agosto é o atentado a Carlos Lacerda: é muito mais o suicídio de Getúlio Vargas), o próximo será A marcha para oeste, dos irmãos Villas Bôas.

 

(Continua)

 

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