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O tempo-rio e a estrela

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 3 horas
4 min de leitura
The Alan Parsons Symphonic Project "Time", Medellín, 13/08/2013 (vocal: Paul Josef Olsson)

Os físicos do século XXI discutem se o tempo existe ou não. O italiano Carlo Rovelli (estudioso da gravidade quântica em loop), em seu livro A ordem do tempo (2017), conclui que “Na gramática elementar do mundo não existem nem espaço nem tempo: apenas processos que transformam quantidades físicas umas nas outras, cujas probabilidades e relações podemos calcular.” (p. 149, resumindo conclusão do capítulo 5). Em contrapartida, seu compatriota, Guido Tonelli (um dos descobridores do bóson de Higgs), conclui seu Tempo – O sonho de matar Chronos (2021) afirmando que “Por enquanto, ninguém pode dizer se algum dia chegará o tempo em que a ciência não precisará do tempo.” (p. 220). Portanto, chegam a conclusões opostas dois respeitados estudiosos que têm atuado no mesmo momento histórico e no mesmo país.

 

Curiosamente, ambos, depois de em várias passagens se socorrerem da literatura para se fazerem entender ao se envolverem com raciocínios complexos, terminam os mencionados opúsculos de divulgação científica falando da morte, da inevitabilidade do fim da vida. Eis, que, portanto, tempo, vida e morte se entrelaçam (numa linguagem que mistura objetividade científica com imaginação literária), mesmo quando tratados por cientistas numa das mais “duras” (quase insensíveis) áreas do conhecimento.

 

Por mais especulações que se façam e por mais hipóteses que se levantem a respeito do tempo, ele continua tal como Santo Agostinho afirmou a respeito: eu sei o que é o tempo, mas se me perguntarem o que ele é, não conseguirei responder. Nem ele nem ninguém foi, é ou talvez será capaz de definir de uma vez por todas o que é esse “fantasma” que nos persegue dia e noite, do nascimento à morte.

 

Apesar da indefinição, a antiquíssima metáfora do tempo como um rio que flui sem que se possa interrompê-lo é muito presente e “concreta”, irmanada à (até recentemente) científica noção de seta unidirecional do tempo. É possível que assim aconteça porque também a arte concorre para que a ideia de tempo-rio penetre a visão de mundo predominante, de certo modo delineando os sentimentos e emoções de que todos somos portadores, talvez até mais do que de conhecimentos e raciocínios.

 

Numerosas são as músicas e canções que tratam do tempo. De um lado, a sonoridade (ritmo, harmonia, melodia, arranjo) que procura transmitir a noção auditiva (umas vezes onírica e calmante, outras vezes infernal e enervante) do tempo que passa e vai terminar. De outro lado, a poesia (a letra) das canções, que convida à reflexão sobre a finitude, a impermanência, as chegadas e partidas/despedidas – o sentimento de perda inexorável, enfim.

 

Dentre as canções, há uma que, combinando elementos de pop sofisticado, rock progressivo e art rock, trabalha a ideia de tempo-rio de uma maneira muito sutil e agradável: Time, do The Alan Parsons Project. – veja e ouça).

 

Eis a letra (de Eric Woolfson) e a tradução (obtidas aqui: https://www.letras.mus.br/the-alan-parsons-project/1077/traducao.html):

 

O tempo flui como um rio

Time, flowing like a river

 

O tempo me chama

Time, beckoning me

 

Quem sabe quando nos encontraremos de novo?

Who knows when we shall meet again

 

Talvez nunca

If ever

 

Mas o tempo

But time

 

Continua fluindo como um rio

Keeps flowing like a river

 

Em direção ao mar

To the sea

 

 

Adeus, meu amor

Goodbye my love

 

Talvez para sempre

Maybe for forever

 

Adeus, meu amor

Goodbye my love

 

A maré espera por mim

The tide waits for me

 

Quem sabe quando nos encontraremos de novo?

Who knows when we shall meet again

 

Talvez nunca

If ever

 

Mas o tempo

But time

 

Continua fluindo como um rio (continua)

Keeps flowing like a river (on and on)

 

Em direção ao mar, ao mar

To the sea, to the sea

 

 

Até desaparecer para sempre

Till it's gone forever

 

Para sempre

Gone forever

 

Para todo o sempre

Gone forevermore

 

 

Adeus, meus amigos (adeus, meu amor, agora estou dormindo)

Goodbye my friends (goodbye my love now I'm asleep)

 

Talvez para sempre

Maybe forever

 

Adeus, meus amigos (quem sabe onde nos encontraremos de novo?)

Goodbye my friends (who knows where we shall meet again)

 

As estrelas me esperam

The stars wait for me

 

Quem sabe onde nos encontraremos de novo?

Who knows where we shall meet again

 

Talvez nunca

If ever

 

Mas o tempo

But time

 

Continua fluindo como um rio (continua)

Keeps flowing like a river (on and on)

 

Em direção ao mar, ao mar

To the sea, to the sea

 

 

Até desaparecer para sempre

Till it's gone forever

 

Para sempre

Gone forever

 

Para todo o sempre

Gone forevermore

 

Para todo o sempre

Forevermore

 

Para todo o sempre

Forevermore

 

Para todo o sempre

Forevermore

 

A ideia contida no poema e reforçada pela música é fundamentalmente de despedida, de inevitável e definitiva despedida. O rio flui rumo ao mar e convida e espera o poeta para o afogamento/naufrágio, que, por enquanto (enquanto à tona, vivo e consciente) “convictamente suspeita” que não mais haverá encontros, entre os amantes e entre os amigos – tudo o que, afinal, vale a pena será levado e lavado pelas águas, do tempo-rio rumo ao fim-do-tempo-mar.

 

Apesar da faca afiada que a canção vai enfiando no peito de quem a ouve, o movimento sonoro (a música) e o desenvolvimento poético (a letra, as palavras, o poema) se encarregam de, juntos, surpreendentemente, provocar não tristeza, propriamente, mas uma sensação de abandono agradável, como aquele do momento em que se “engata” no sono, aliás também chamado de pequena morte.

 

Que os físicos sigam teorizando e fazendo experimentos a fim de avançar o conhecimento disponível sobre a natureza do universo material, nele incluído ou excluído o tempo. Mas que também os artistas permaneçam criando e produzindo artefatos que nos permitam continuar acreditando que há um tempo só nosso, material ou imaterial que seja, no qual podemos sentir, nos emocionar, sonhar – tempo-rio que nos afogará e levará, mas, antes, nos matará as sedes e nos refrescará da torridez de uma vida exclusivamente material.

 

Não foi à toa que o poeta disse, em Time:

 

“The stars wait for me”

 

Sendo arrastado pelo rio com destino à escuridão das profundezas do mar, o poeta fixou os olhos no céu, viu e almejou a luz da estrela, já morta (sabe-se), mas brilhando ainda, porque a velocidade da luz é de 300.000 quilômetros por segundo. Enquanto a do som (que propaga a música) é de insignificantes 1.235 quilômetros por hora.

 

 

Goodbye my friends

Who knows where we shall meet again

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