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Mentes brilhantes e mentes opacas (Diário da Biblioteca – XXXII, 07/10/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 1 dia
3 min de leitura

Mentes brilhantes e mentes opacas


Expositor destacado na Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto", no dia 07/10/2026
Expositor destacado na Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto", no dia 07/10/2026

“Uma biblioteca é uma porta para o infinito.” (Jorge Luiz Borges)


Jorge Luiz Borges está entre os 500 polímatas (grosseiramente falando, estudiosos que não se dedicam a uma única área de conhecimento) considerados por Peter Burke em seu livro O polímata (Editora Unesp, 2020); Borges que, além de escritor famoso foi, também, bibliotecário em Buenos Aires. (Curiosidade: os polímatas brasileiros identificados são Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Mangabeira Unger.)

 

Para mim, atualmente, a porta para o infinito se abre na Rua Saldanha Marinho, 333, no centro da cidade de Piracicaba. No dia 7 de outubro passado adentrei essa porta e nas estantes que pude acessar, sem dificuldade alguma, fui buscar O polímata e Jerusalém, este de autoria do português indicado ao Nobel de 2026, Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras, 2006).

 


Enquanto em O polímata transitei, racionalmente, pelo universo dos gigantes do conhecimento, em Jerusalém visitei, emocionalmente, o mundo dos loucos.

 

Peter Burke coloca nas mãos do leitor um estudo de fôlego sobre indivíduos com uma potência intelectual desmesurada, movidos por uma força quase sobrenatural, que os tornam capazes de investigações, pesquisas, estudos, análises e sínteses que são parte importante dos verdadeiros alicerces do modo como percebemos e interpretamos o mundo; a outra parte desse alicerce vindo das mentes dos especialistas; ambos – especialistas e generalistas – , destaca Burke, lidam com métodos fundamentais para consolidar e avançar o conhecimento que nos faz ser o que somos e agir como agimos enquanto seres racionais e civilizados.


 

Já Gonçalo M. Tavares faz girar em torno do psicanalista e estudioso Theodor Busbeck (um homem em busca de compreender a dinâmica da violência na História, enquanto lida quotidianamente com pessoas portadoras de distúrbios mentais, entre eles sua esposa Mylia) um grupo de pessoas constrangidas pelas práticas médicas que as confinam (no centro de tratamento Georg Rosenberg), em busca de cura para seus desvios face à “normalidade”.

 

Ler esses dois livros simultaneamente foi uma espécie de viagem às profundezas e alturas praticamente infinitas, sem fundo e sem teto, da alma humana, que é uma “coisa” ou um “lugar” invisível e impalpável da realidade individual, cujo “ancoradouro” ou “outro lado” é o corpo.

 

O polímata é alguém percebido na máxima altura atingível pela mente – é o brilhante; enquanto o portador de deficiências ou defeitos mentais aquele que se encontra no fundo do poço em que a mente pode cair – é o opaco. Ambos se desviam do “normal”, mas o opaco deve ir para o manicômio, enquanto o brilhante destina-se, entre outros lugares, ao longo da história, às universidades (cujos departamentos, especializados, o consideram desviante – um tipo de maluco).

 

Nas estantes da infinita biblioteca das almas, transitam lado a lado, sem rótulo algum, os brilhantes apontados por Burke e os opacos imaginados por Tavares, enquanto na cidade (“agrupamento organizado e eficaz da restrição da violência”, no dizer de Tavares) congestionada pelos seus corpos, pretende-se que, uma vez identificados, vivam gênios e malucos em lugares distintos, especializados, ao passo que, na prática, vão convivendo lado a lado, entre si, até os rótulos lhe serem afixados nas respectivas testas.

 

Geniais ou loucos – os de mentes ditas “brilhantes” e os classificados como portadores de mentes “opacas” – quem poderá dizer com segurança? Onde fica a fronteira, se é que existe?  Quanto há de efetivo e real transtorno mental na vida de quem se torna especialista, generalista (polímata) ou um ou outro tipo de  “louco”?

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