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Nossa Senhora Aparecida e os rojões do avô

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 2 horas
3 min de leitura

Igreja de Nossa Senhora Aparecida, Araras SP
Igreja de Nossa Senhora Aparecida, Araras SP

Meu avô Angelim e minha avó Angelina, pais de minha mãe Elvira, eram devotos de Nossa Senhora Aparecida. Moravam bem perto da Igreja a ela dedicada, no Jardim Cândida, em Araras (foto acima, de 2020). Uma igreja cuja arquitetura combina uma cruz (vista de cima) e vários triângulos (vista dos lados, por trás e de frente), talvez para evocar o Cristo crucificado e a santa, com seu manto azul caindo da cabeça em direção aos pés, assim delineando uma espécie de triângulo. Essa igreja levou anos para ser construída, sob a liderança de um padre de nome Santo Marini, envolvido em escândalo político que eu, criança pequena, nunca entendi. Mas sabia que tinha a ver com os enfrentamentos entre Arena e MDB, os dois partidos então permitidos pelo regime militar.

 

Todos os anos, exatamente ao meio dia do dia doze de outubro, meu avô estourava um, dois ou três rojões em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, unindo-se a milhares e milhares de pessoas que faziam isso no mesmo momento. Por alguns minutos, ficávamos ouvindo os estouros, felizes por nos unirmos à homenagem à santa tão amada pelos adultos, agradecidos pela proteção e amparo frente às agruras da vida.

 

O número dos rojões estourados pelo avô variava conforme o dinheiro disponível a cada ano, na ocasião. Era ele quem os acendia, numa atitude teatral, simulando a coragem necessária para lidar com fogo e explosão. Ele acendia rapidamente a fina cabeça de pólvora que atravessava o furo no cilindro de papelão duro, erguia o canudo para cima esticando totalmente o braço, abaixava a cabeça e se ajoelhava, aguardando a subida do material explosivo, de olhos fechados. Ás vezes falhava, mas isso nunca aconteceu quando havia apenas um rojão.

 

Em 1976, com 13 anos recém-completados (aniversario no dia oito de outubro), meu avô decidiu que compraria dois rojões. Um ele lançaria; o outro, eu. Eu tinha começado a trabalhar no ano anterior. Então saí do trabalho e fui almoçar na casa dele, para juntos realizarmos o ato de fé e gratidão, agora com meu protagonismo. Fui todo feliz, pedalando minha Monareta vermelha, recém-comprada a prestação, da Rua Júlio Mesquita (no centro da cidade) à Rua Ciro Lagazzi, como quem vai a um evento que o transformará, passando para a fase seguinte na espiral das conquistas da vida.

 

Meu avô montou a cena. No quintal, próxima dos dois pés de limão de que ele cuidava com carinho, colocou uma mesinha com toalha xadrez vermelho e branco e sobre ela depositou os dois rojões e uma caixa de fósforos. Quinze minutos antes do meio dia, fomos todos para lá (nós dois, minha avó, o tio mais novo, outra neta, uma filha adolescente da vizinha Margarida, a Cleuza). Meu avô me deu instruções, recomendando muito cuidado em tudo. Estabeleceu que ele soltaria o primeiro rojão, devendo eu prestar atenção a como ele faria.

 

Eu acompanhei a performance pela décima vez (pois a via com consciência desde os três anos). Foi muito rápido. Eu tinha que produzir o meu estouro enquanto outros milhares aconteciam na cidade toda. Com o coração na boca, risquei certeiramente o palito na caixa, acendi o pavio e ergui o canudo para cima. Nada, por uns segundos. Mantive os olhos fechados, já com um pouco de medo. Pensei em jogar no chão, mas não fiz isso: não queria decepcionar o avô.

 

O tiro saiu pela culatra, queimou toda a palma da minha mão direita. Foi um grande susto para todos, eu reprimi o choro, a dor foi aumentando, junto com a gritaria feminina e a correria do avô. Eu não me lembro o que foi feito. Talvez tenhamos corrido para a farmácia, que era o que se fazia em situações como aquela. Lembro-me, sim, da desolação do avô e, na semana seguinte, da impossibilidade de ir às aulas de datilografia.

 

Hoje, os rojões são proibidos por lei, inclusive sob o argumento de respeito aos animais que são perturbados por eles, especialmente pássaros, cachorros e gatos. Como se São Francisco tivesse chegado a Nossa Senhora Aparecida e dito, tendo ela tomado providências eficazes, em seguida: “Irmã Cidinha, dá um jeito de seus devotos brasileiros tomarem tenência com aquela barulheira que maltratam nossos irmãos bichinhos todo ano, no seu dia, por lá.”


-.-

 

12/10/2026. São quase nove horas. Faltam três para a hora dos rojões em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. Eles serão bem poucos, eu sei. Meu avô não estará estourando o seu, nem eu, que só o fiz naquela única vez, há exatos cinquenta anos. Aquele menino crédulo e sonhador, continua aqui, num cantinho da minha alma, mas minha devoção (de fé) a Nossa Senhora Aparecida (que trago no nome, mas omito) não existe mais, há muito tendo migrado para a minha devoção pé no chão, não ao santo, mas ao admirável ser humano santificado como São Francisco de Assis, cujo dia é também no mês do meu aniversário.

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