Clássicos à Italo Calvino (Diário da Biblioteca – V-cont., 22/05/2026)
- Valdemir Pires
- há 7 horas
- 5 min de leitura
Clássicos à Italo Calvino

“Uma grande biblioteca tem o dom das línguas e enormes poderes
de comunicação telepática.” (Northrop Frye)
Eu vinha verificando a existência ou não dos “clássicos de Italo Calvino” diretamente nas estantes da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”. E estava me incomodando o quanto esse trabalho fragmentava o fluxo “natural” de meu contato semanal com o acervo – parecia um desvio superficial, forçado, do que deveria ser uma espécie de passeio. Mas fazer essa verificação foi a primeira decisão que tomei ao começar as visitas ao acervo, a fim de avaliar sua capacidade de “me ganhar” como leitor, como disse alhures. Já que posso, facilmente, resolver isso por meio de uma visita virtual, vou fazê-lo. Ao motor de busca no acervo, ali digitando, autor por autor, aqueles resenhados ou comentados em Porque ler os clássicos!
Uma análise prévia – que faltou ser feita desde o início – leva à conclusão de que “os clássicos” considerados por Calvino são em menor número que os 35 comentários ou resenhas que ele oferece no seu livro sobre o assunto. Isso porque alguns autores aparecem duas vezes: sintomaticamente, os italianos (como o próprio Calvino) – Ariosto, Gadda e Montale – mais o francês Stendhal. Portanto, são 31 clássicos. Como já foram verificados 10 deles nas estantes, em visitas anteriores, restam 21 para averiguar nesta visita virtual, “liquidando esta fatura”:
Willem Dafoe, As aventuras de Robinson Crusoe: 35 registros encontrados, incluindo versões para público infantojuvenil e alguns comentários/análises.
Voltaire (ou François-Marie Arouet ), Cândido, ou o otimismo: A biblioteca possui vários exemplares e também vários outros títulos do autor.
Denis Diderot, Jacques o fatalista: A biblioteca não tem este título, mas tem dois exemplares do mordaz A religiosa.
Giammaria Ortes: Como, mais ou menos, era de se esperar, nada, na biblioteca desse padre veneziano do século XVIII, pessimista e obsessivo, que tudo desejava submeter ao cálculo, até o valor da opinião e a verdade da história.
Stendhal (ou Henri-Marie Beyle), A cartuxa de Parma: Há vários exemplares, e ainda mais de O vermelho e o negro.
Honoré de Balzac: A Comédia da Vida humana completa, em edição excelente, ocupa toda uma prateleira da estante de literatura francesa.
Charles Dickens, Nosso amigo em comum: A biblioteca tem a versão inglesa (Our mutual friend) e uma profusão de outros títulos, incluindo os famosíssimos Tempos difíceis, Um conto de duas cidades, os contos de Natal e aqueles com os personagens Oliver Twist, Sr. Pickwick e David Copperfield; o autor comparece também na coletânea Contos fantásticos do século XIX, de autoria de Italo Calvino, que a biblioteca possui.
Gustave Flaubert, Três contos: 3 exemplares, nas estantes, desses contos maravilhosos, mais os universais Madame Bovary, Educação sentimental e Bouvard e Pécuchet.
Lev Tolstoi: A não ser que esteja incluído em alguma coletânea existente na biblioteca (e aí seria preciso verificar in loco), Dois hussardos, analisado por Calvino, é uma falta; Anna Karenina e Guerra e Paz (várias edições e exemplares) estão garantidos, havendo ainda bastante mais, de modo que o apreciador do escritor-filósofo russo pode se esbaldar na “Ricardo Ferraz”.
Mark Twain, O homem que corrompeu Hadleyburg, presente; além de várias outras obras do autor (um “prestidigitador da escritura”, segundo Calvino), especialmente (com numerosos exemplares) As aventuras de Huckleberry Finn e As aventuras de Tom Sawyer.
Henry James, Daisy Miller, ausente (a não ser escondido em alguma coletânea) na seção de literatura americana, mas em contrapartida lá estão o famoso A volta do parafuso (5 exemplares) e numerosos outros títulos deste autor.
Robert Louis Stevenson, O pavilhão das dunas, citado por Calvino, não foi localizado, talvez incluído em alguma coletânea, mas há uma profusão de exemplares de A ilha do tesouro e de O médico e o monstro, além de várias outras obras do autor, inclusive em inglês.
Joseph Conrad (ou Teodor Konrad Nalecz Korzieniowski): nas estantes estão as obras do “homem do mar a velas” citadas por Calvino: Lord Jim, Vitória e Tufão; e há mais, como O coração das trevas e o meu querido Linha de sombra.
Boris Pasternak: Doutor Jivago presente.
Carlo Emilio Gadda, O Pasticciaccio: Italiano que ainda não chegou à biblioteca pública de Piracicaba.
Eugenio Montale, Ossos de sépia, Ocasiões e A tempestade, todos não disponíveis, mas há A borboleta de Dinard.
Ernest Hemingway: Há vários títulos do autor, inclusive em inglês. Não há o que dele Calvino detesta (As neves do Kilimandjaro), mas há seis exemplares (um no original) do livro destacado quando o autor recebeu o Prêmio Nobel em 1954: O velho e o mar.
Francis Ponge: Nenhuma obra disponível, infelizmente.
Jorge Luis Borges: Além de dois exemplares de Obras completas, a biblioteca possui vários títulos do autor, incluindo os mais famosos, como O Aleph e Ficções (este também em espanhol). (Passei pelo seu História da eternidade nos meus estudos sobre o tempo, do qual a biblioteca possui dois exemplares.) Dessa prateleira serei “freguês”. Assim como fiz com Calvino (eu que tenho sangue italiano), lerei toda a obra do “bruxo argentino” (eu que tenho alma latino-americana).
Raymond Queneau: Nenhuma obra disponível. O que é uma ausência sofrida, principalmente para quem deseja conhecer uma literatura que se distancia do habitual.
Cesare Pavese, A lua e as fogueiras: Na estante encontra-se a obra na língua original (italiano): La luna i faló.
Conclusão: A Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” possui suficientes obras clássicas, na conceituação de Italo Calvino, para atrair um leitor que as aprecie. Nesse tocante, é uma boa biblioteca, faltando pouco para ser ótima. Cabe, para finalizar esta “tarefa” de verificação preliminar, e muito parcial, da qualidade do acervo, lembrar que em nenhum momento Calvino não se propôs, em Porque ler os clássicos (de 1981), a fazer deles uma lista exaustiva e inquestionável – como de fato não se trata disso, nesta obra. As resenhas e comentários ali presentes são textos que o autor foi acumulando a partir de suas leituras qualificadas por décadas (dos anos 1950 aos 1970) e não deixam de carregar uma perspectiva eurocêntrica e fortemente italiana.
O que é um clássico ou, menos que isso, uma obra literária que merece ser lida por quem preza o que de melhor a humanidade produz e vem produzindo na arte da escrita, é coisa difícil de definir objetiva e a-historicamente: às vezes, mas nem sempre, as recomendações coincidem; é mais frequente ocorrer coincidência nas lacunas, como por exemplo, obras de autores não ocidentais raramente lidas, ou sequer com autores e títulos conhecidos, pelos ocidentais. Mas não é desprezível a contribuição que o leitor exigente recebe de outro leitor, como ele próprio, porém com mais experiência e qualificações, especialmente se essas forem notórias e notáveis. Assim, além de ler as recomendações de leitura de Calvino, pode-se ir além e ver o que recomendam outros grandes, como, por exemplo, o americano Harold Bloom, que vinte anos depois de Porque ler os clássicos, do italiano, escreveu Como e porque ler. Sobre este, tratarei em outra oportunidade, para não assustar nem entediar ninguém.
Por oportuno, concluo registrando uma ideia/imagem que me ocorreu, buscando, nas estantes da “Ricardo Ferraz”, as obras de Italo Calvino e as obras dos autores italianos recomendados por ele: a ativa Società Italiana di Mutuo Soccorso di Piracicaba assumindo, como provedora e curadora (mediante acordo), o acervo de literatura italiana da biblioteca municipal. Mais imagem que ideia, por isso não ainda uma sugestão. Mas fica o registro.
(Agradecimentos à Regina, pelo cafezinho carinhoso e providencial enquanto, na nossa casa, eu relatava esta “visita” à biblioteca, numa tarde fria e chuvosa, em silêncio.)
(Continua)
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