Diário da Biblioteca – V, 22/05/2026
- Valdemir Pires
- há 12 minutos
- 4 min de leitura
Uma visita diferente
“Se a Biblioteca de Alexandria foi o emblema de nossa sede de onisciência, a web é o emblema de nossa sede de onipresença; a biblioteca que guardava tudo transformou-se na biblioteca que guarda qualquer coisa.” (Alberto Manguel)
Existe um jeito (“novo”) de visitar a Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, de Piracicaba, e de acessar as informações sobre o seu acervo, que é um jeito absolutamente inconcebível em relação à Biblioteca “Martinico Prado”, no tempo em que eu-menino a frequentava. Em Araras, se eu quisesse saber se havia um livro disponível, eu tinha que ir à biblioteca e pedir a uma funcionária (eram todas mulheres) que consultasse um fichário a que somente elas tinham orgulhoso acesso; não aceitavam consulta por telefone – e ainda que aceitassem, eu não tinha acesso a uma linha: telefones chegavam a ser, naquele tempo, um tipo de investimento oferecido pela extinta Telesp, para quem tinha dinheiro suficiente para uma assinatura, ou para quem tinha mais dinheiro ainda, para obter várias linhas e alugá-las para ganhar dinheiro com isso.
Hoje estou visitando a Biblioteca Municipal de Piracicaba desse jeito “novo”, a mim permitido só agora que sou velho. O eu-criança-adolescente-jovem nem em sonhos faria uma visita virtual à biblioteca, nem em sonhos navegaria pelo acervo, fuçando aqui e ali, autor-título-tema etc.: se quisesse passear entre os livros, era preciso percorrer os corredores formados pelas estantes (o que, claro, tem vantagens e desvantagens em relação ao modo virtual).
Diante do notebook, digito “Biblioteca Municipal de Piracicaba” e encontro algumas opões:

Clico na primeira opção e ali estão, no site oficial da Prefeitura Municipal: informações sobre os serviços oferecidos e sobre o funcionamento da biblioteca, canais para contato, uma síntese de sua história e um link para acesso ao acervo. Clico nele. Há mais informações e a característica lupinha que abre as portas virtuais para consulta do “fichário”: que beleza, que moleza! – suspira aquele que no passado tinha que fazer tanto esforço para saber se este ou aquele livro de Jorge Amado poderia ser tomado emprestado...
Vejo nesse mesmo link que a biblioteca tem um site próprio e também está nas redes sociais. Corro para o endereço http://www.biblioteca.piracicaba.sp.gov.br/, e me frustro: mensagem de site em manutenção: “A Biblioteca Pública Municipal ´Ricardo Ferraz de Arruda Pinto´ está reconstruindo seu site. Em breve teremos um site novo e atualizado.” Tomara... Bem, talvez nas redes sociais esta lacuna (temporária?) seja de algum modo compensada. A ver:
Facebook: Bela imagem de abertura. Numerosas postagens interessantes, sobre eventos (lançamentos, cursos, oficinas, recitais, cinema etc.); para cada mês, a “Agenda Cultural” detalhada (mas a última é de fevereiro de 2026); também para cada mês, uma “Retrospectiva” da movimentação (mas a última data de 03/07/2024).
Instagram: Aparentemente contém as mesmas postagens encontradas no Facebook, mas aqui se oferece um facilitador de acesso no cabeçalho: links rápidos para Cineteca 2023 e 2024, Retrospectiva, Clube de Leitura, Noite na Biblioteca, Lançamentos, Nhô Cine.
Nessas duas redes sociais sente-se que se trata de uma biblioteca viva, ativa, com movimentação que vai muito além do empréstimo de livros e da oferta de espaços e móveis para estudos e pesquisas (algo muito melhor do que a minha “Martinico Prado” – como estará ela hoje?). Mas... as últimas postagens datam de fevereiro de 2026. E esta não é a primeira interrupção. Em 06/07/2024 uma postagem avisava que as contas da biblioteca nas redes sociais seriam desativadas (e foram), em obediência à legislação eleitoral. Felizmente, em outubro do mesmo ano, outra postagem noticiou a retomada das mesmas contas. Para, agora, haver uma interrupção, desta vez sob a seguinte justificativa, de 18/02/2025: “Pensando na integração dos espaços e da comunicação das atividades culturais, a partir de hoje esse perfil será desativado. Todas as informações estarão no perfil @cultura.piracicaba no Instagram.” Neste perfil, a biblioteca fica diluída, a parte literária da cultura local perde; sumiram, por exemplo, a agenda e a retrospectiva que antes a biblioteca oferecia. Ficam as perguntas: É só nas redes sociais que a Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” está murchando? Desde quando o seu site oficial foi fechado para manutenção e quando essa manutenção será concluída? Há previsão de manutenções no seu prédio e de renovação de seus móveis, que andam descuidados ultimamente, e não por desmazelo dos funcionários?
Aproveito para procurar o que há da Biblioteca “Martinico Prado” na internet, para uma comparação entre Araras (onde o secretário de cultura é um grande amigo meu: Marcelo Daniel, o Mussa) e Piracicaba. Seu site é simples, mas funcional:

A galeria de fotos me faz ver que ela parou no tempo, perdendo um pouco o glamour que tinha nos anos 1970-80. Fiquei com vontade de revê-la fisicamente. Ainda mais depois de visitar também o seu Instragram (com poucas postagens, sendo a última de dezembro de 2025) e saber que em 2024 ela completou 70 anos, 8 mais que eu.
As duas bibliotecas da minha vida (a que foi do começo e a que provavelmente será a do fim) são um tanto pobrezinhas na internet. Para confirmar isso, basta visitar sites de outras bibliotecas, como, por exemplo, o da Biblioteca Parque Villa Lobos, de São Paulo.
Como pode Piracicaba ainda querer ser a Atenas Paulista, se vai dando mostras (física e virtualmente) de que não consegue chegar nem longe do que seria uma Alexandria Paulista, a não ser, talvez, considerando esta depois do malfadado incêndio?
“Bibliotecas modernas conectam pessoas ao futuro.” (Shiyali Ramamrita Ranganathan)




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