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Guerras, revolução e autoajuda

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 17 horas
  • 3 min de leitura


Imagem: Wix
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Desde o final dos anos 1980 em diante, sob a cantilena do “fim da história”, ou seja, desde a alegada derrota de sistemas econômicos que não os mercantis-capitalistas, passando a valer ad infinitum (em tese) um liberalismo renovado (embora não tanto) – neoliberalismo, revolução tornou-se um vocábulo, se não proibido, mal visto e mal recebido. Isso em todo o mundo, pois vivia-se até há pouco uma celebrada globalização, livre da Guerra Fria, com seu “jeitão” de confronto entre ideologias, uma delas fruto de uma das mais famosas revoluções de que até agora se teve notícia, a soviética.

 

Um discurso genérico combinando individualismo e liberdade tomou conta da vida, como se esses valores fossem a própria finalidade da existência humana, e não condições desejáveis (embora só até certo ponto, esquecia-se) para nelas se organizar a vida pessoal e as relações sociais. O que parecia ser o triunfo final e definitivo do eu singular, soberano diante do mundo, para criar (ou, de preferência, inovar, como requer a produção praticada sob a égide da competição mercantil), acabou se revelando, de fato, um mar de incertezas e ansiedades. Isso porque em tal ambiente, é cada um por si e que vença quem puder.

 

Abandonada qualquer esperança de mudar o mundo, para fazê-lo mais propício à felicidade coletiva (o que só é possível à custa de um tanto de liberdade, o egoísmo freado por doses de altruísmo), o remédio que restou tem sido a autoajuda: aquele tipo de esforço típico de comportamentos individuais defensivos face às incessantes ameaças de infelicidade e tristeza.

 

Enquanto o discurso revolucionário (solução coletiva) convidava a mudar o mundo, para nele todos poderem viver melhor, a onda da autoajuda acena para uma solução individual: sugere que cada um cerque-se das condições necessárias para colher o máximo de alegrias e evitar ao máximos as tristezas, gire o mundo para o lado que girar, caso siga girando.

 

Que não se espere ajuda de outrem, cada um se vire por si mesmo; o que é possível, seguindo as receitas “científicas”, “filosóficas” ou “religiosas” oferecidas em profusão, agora no mar de informações da internet (por gurus, coaches, influenciadores e quetais), por mais “picaretas” que possam parecer (e em geral são). E lá vai a multidão! Totalmente esquecida de seu potencial poder, existente quando em vez de se deixar hipnotizar, toma em suas mãos aquilo que de fato lhe interessa: os aparatos socioeconômico e culturais a partir dos quais a vida coletiva se organiza. E lá volta a multidão: triste, aborrecida, totalmente desorientada, prontinha para defender a violência e a guerra, como se a culpa pelo mal-estar generalizado fosse da civilidade e da paz. E então a guerra se generaliza, ninguém mais sendo capaz de convencer o outro de que a paz é muito melhor, para todos e para cada um. A mesma guerra que, se levada a efeito por revolucionários (como foram os protagonistas hoje chamados socialismos reais), seria – como foi – condenada...

 

Não há autoajuda que possa nos tirar deste pântano conflituoso e sangrento que tem se revelado o atual período de declínio das potências capitalistas centrais, nem empreendedorismo (que nada mais é do que uma versão econômica da autoajuda genericamente concebida). O que precisamos é de uma revolução no pensamento, que se reflita na articulação das nossas ações e interrelações pessoais; revolução que seja capaz de relativizar a importância da produtividade (e de sua mãe – a pressa, e de seu pai – a potencialização dos ganhos), do conforto material (e de seu beneficiário e propulsor – o consumo excessivo) e da necessidade de autoafirmação a partir do ter (e não do ser). Qual pode ser a chama a detonar essa mudança? Há ou pode haver pavio embebido de combustível para que ela se alastre? A resposta a essas perguntas é difícil, enquanto fácil é aquela que se pode dar a uma outra pergunta: “Aonde estamos indo do modo e no ritmo em que estamos caminhando? Resposta imediata: Estamos nos deslocando para onde, ao chegar, saberemos que melhor teria sido ficar no lugar de que partimos. Estamos fazendo a guerra, não para revolucionar, mudar para melhor, mas para involuir, mudar para pior. Puro e infrutífero pessimismo? Não! Tentativa de alertar. Eficaz? Provavelmente não. Falta-lhe o otimismo vibrante que só os ofertantes de ferramentas de autoajuda são capazes de oferecer como se fosse ouro puro, enquanto é, de fato, mero latão.

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