Fotos da alma da Unimep
- Valdemir Pires
- 4 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de abr.

Leia no Diário do Engenho.
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O Diário do Engenho publicou um conjunto de fotos (ver aqui: https://diariodoengenho.com.br/unimep-registros-de-uma-historia-de-luta/#comment-206563) “nas quais se registra a última grande greve de alunos, professores e funcionários da Unimep contra os desmandos da então Rede Metodista de Educação – greve e movimento esses datados de agosto de 2017.” Trata-se de imagens que falam mais que qualquer texto, como bem registrou Beatriz Vicentini imediatamente (ver aqui: https://www.facebook.com/share/p/1E1Qv3FN6o/). Acho que seria muito interessante que ex-unimepianos (professores, alunos, dirigentes, funcionários) enviassem fotos que tenham de suas vidas nos campi, para que assim se amplie a percepção do que neles havia e acontecia, cultivando educação, cultura, formação profissional, ética, boa política etc.
Creio que “fotos da alma da Unimep” podem ser tão (ou mais) reveladoras quanto as de seu “corpo” (prédios, locais, fazeres, eventos), no esforço de se registrar, para a eternidade possível, o quão boa e bela – e sonhadora, sobretudo – foi essa instituição de ensino superior que se extinguiu. Chamo de alma da Unimep o pensamento educacional por trás do ensino, da pesquisa e da extensão universitária que nela se praticava. Pensamento coletivamente construído, por meio de intensos debates e também através de numerosos embates, principalmente no âmbito sindical, à frente a Adunimep (associação dos docentes).
O pensamento educacional aplicado ao ensino superior formulado pela Unimep foi todo ele registrado em documentos publicados pela Editora Unimep (ou, antes, impressos pela gráfica da instituição), que eram amplamente distribuídos para a comunidade acadêmica, que neles se orientava quotidianamente. Para que se saiba quais são, enviarei de tempos em tempos, para o Diário do Engenho, fotos de capa deles, com breves comentários a respeito.
Começo com os textos “Vida e missão” e “Credo Social da Igreja Metodista”, sem os quais a Igreja Metodista não teria dado início à experiência socioeducativa progressista que foi a Unimep. Trata-se da síntese das decisões do XIII Concílio Geral da Igreja Metodista, realizado de 18 a 28 de julho de 1982. Não se trata da certidão de nascimento da Unimep, pois o que ela viria a ser ainda estava, naquele momento, sendo gestado no útero do metodismo no Brasil.

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A brochura “Vida e Missão” é a primeira foto da alma da Unimep em seus tempos áureos, funcionando como uma espécie de portão que se abria para o caminho – para o belo caminho – que em seguida se trilharia, não sem pedras logo de início, não sem um abismo no final, como hoje, tristemente, se sabe.
As fotos seguintes apresentam a Política Acadêmica progressista da instituição, decorrência lógica e coerente dos princípios enunciados no texto “Vida e Missão”. Entre um e outra, transcorre quase uma década de lutas: “Vida e Missão” veio a lume em 1982, enquanto que “Em busca de uma Política Acadêmica” (foto da capa abaixo), documento que organiza as bases da trajetória educacional da Unimep, é de 1991. Trata-se dos “Documentos finais dos Fóruns de Política e Avaliação Acadêmicas de 1990 e 1991” (com prefácio de Almir de Souza Maia), que irão desembocar na “Política Acadêmica”, publicada em 1992.
Por que o período 1982-1991, que os dois documentos delimitam, foi de lutas? Porque apesar das decisões progressistas do XII Concílio Geral da Igreja Metodista (divulgados no “Vida e Missão”), vivia-se um momento de forte disputa no âmbito do metodismo no Brasil. Disputa que se situava no contexto da transição da ditadura para a democracia no país, no qual, em termos religiosos, uma teologia da libertação crescia às expensas (talvez à sombra) de uma postura teológica conservadora, tanto na Igreja Católica como nas vertentes protestantes do cristianismo.
Assim como na política geral do país, na política particular do metodismo venceu a vertente progressista, pela força da “onda democratizante” então vigente, mas também pela ação decisiva de atores políticos concretos que lideraram movimentos históricos, como a luta pelas Diretas-já e, em seguida, pela Constituinte que resultou na Constituição de 1988; assim como pela resistência de professores e estudantes à tentativa de golpe de forças conservadoras do metodismo ocorrida em 1985, contra o que acontecia na Unimep, acontecimento assim recentemente relatado pela jornalista Beatriz Vicentini:
Em 1985, quando aconteceu uma tentativa de intervenção e afastamento do então reitor da UNIMEP, Elias Boaventura – os que viveram aqueles 40 dias de ocupação do campus centro, com certeza se lembram - , houve de tudo. A reação da comunidade acadêmica, dos favelados da cidade, dos jornais de grande circulação e os locais, que transformaram em manchete o que acontecia, as visitas semanais às segundas-feiras de políticos de várias orientações prestando solidariedade quando as assembleias aconteciam no campus Centro, que permaneceu ocupado 24 horas por dia e sob controle de professores, alunos e funcionários por 40 dias. A direita metodista tentou mostrar sua força. (ver relato completo aqui: https://www.facebook.com/share/p/1DhCHtcZqh/ )
Pode-se afirmar com segurança que a Unimep do final dos anos 1980, dos anos 1990, até os anos iniciais do século XXI replicava, no nível microcósmico institucional, o que acontecia no Brasil e, em certa medida, na América Latina e no mundo: um avanço democrático e uma crença muito forte nas possibilidades educacionais. Ler a Constituição de 1988, o documento “Vida e Missão” (da Igreja) e o texto “Em Busca de uma Política Acadêmica” é estar diante de palavras, raciocínios e valores/crenças que seguem e convidam a seguir numa mesma direção: em busca de um mundo melhor – mais justo e equitativo, mais democrático e propenso ao diálogo; se não mais bonito, menos feio – mais fraterno, com mais solidariedade. Não foi à toa que o então Reitor, Almir de Souza Maia fez constar do prefácio a “Em Busca de uma Política Acadêmica” o seguinte: “Lendo agora os documentos-sínteses deste processo, verificamos haver neles muito de utopia, perspectiva que não podemos perder sob o risco de deixarmos escapar a dimensão de nosso papel social enquanto educadores. Um dos méritos destes documentos é aliar o sonho à visão de realidade onde estamos mergulhados.”
Não teria sido o fato de perder de vista a sua utopia o que levou a Unimep à derrocada? Ou teria sido a perda de capacidade de ver a realidade? Ou, talvez, teria a sua morte a ver com a incapacidade institucional de “aliar o sonho à visão de realidade”? Afinal, aquele contexto político geral que deu ensejo ao sonho unimepiano, que os atores metodistas de meados dos anos 1980 foram capazes de agarrar, desapareceu a partir do final dos anos 1990, sem que as lideranças que enfrentaram a onda neoliberal, que sobreveio, tenham sido capazes de preparar e conduzir a transição.
Continua




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