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A educação é a solução? Que educação?

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura
Imagem: Wix
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Quando, sem pensar nem titubear, diz-se: “A solução é a educação”, “Sem melhorar a educação só o pior pode vir”, “A educação antigamente era melhor” etc., repete-se um bordão talvez mais velho que a própria educação. Trata-se de formulações ocas, ditas quando não se tem a obrigação de fazer mais do que falar à toa, às vezes para evitar a necessária reflexão ou mesmo para “matar” uma conversa.

 

Antes de tudo, há que se perguntar: o que se entende por educação? Constatar-se-á que os falantes ocasionais, ainda que sejam profissionais da área educacional, confundem educação com escola: “A solução é a escolarização”, “Sem melhorar a escola só o pior pode vir”, “A escola antigamente era melhor” etc. E com um agravante: os ingênuos não se dão conta de que a escola é um, apenas um, e não o mais determinante, dos elementos que compõem um complexo sistema educacional.

 

Não se deve desconsiderar a possibilidade de que tanto a escola como o sistema educacional sejam eles próprios, os propagadores dos problemas diante dos quais os descontentes ou os indignados clamam por mais ou melhor educação, genericamente falando. Isso porque a escola e/ou o sistema educacional muitas vezes falham, mesmo. Tanto porque a disfunção escolar pode ser algo programático, perseguido como objetivo (educar mal para não emancipar e, assim, evitar oposição, protestos, questionamentos), como porque pode acontecer de o sistema educacional passar por momentos de desorganização involuntária, como, por exemplo, em períodos de transição social e/ou tecnológica, nos quais os atores e agentes não conseguem adequar seus papeis e funções à altura das novas exigências e necessidades. O pior dos casos é aquele em que à disfunção programática se mistura a desorientação dos gestores e agentes educacionais. Como parece ser o caso, atualmente, no Brasil.

 

Quando a crise educacional está posta, dizer que a solução (para o que quer que se queira e diga) é a educação é o mesmo que dizer que a solução é a desorientação e a falta de vontade política para enfrentar os problemas. Elementar.

 

Não, a solução não é a educação. Senão, vejamos. O sistema educacional está operando, as famílias seguem enviando seus filhos para as escolas e os professores e dirigentes escolares as estão recebendo todos os dias. Todavia 65% dos egressos das escolas são analfabetos funcionais, o mercado de trabalho enfrenta crescentes dificuldades para encontrar pessoas minimamente preparadas para os fazeres profissionais quotidianos, famílias realmente preocupadas (e com condições financeiras) em encaminhar os filhos para boas escolas sofrem para encontrar alternativas confiáveis, o contingente de capacitados para os desafios da nova economia de alta intensidade tecnológica é claramente insuficiente para um eventual projeto desenvolvimento nacional etc.

 

A solução tem que ser encontrada fora do sistema educacional; de fato tem que vir de algo ou de algum lugar capaz de reorganizar a escola e o sistema educacional, escapando da atual situação em que mais vale a escola de papel (à base de avaliações inadequadas que apontam performances ilusórias ou mesmo mentirosas) do que o papel da escola.

 

E a solução não pode tropeçar na ignorância explícita, evidente, óbvia, de achar que o problema educacional do país é a falta de disciplina dos alunos e que, pior, os melhores agentes para ensinar são aqueles que, mais do que serem formados à base de severa disciplina, o são, na realidade, formados para a obediência cega aos superiores: os militares. Entenda-se: a guerra contra a ignorância, a inabilidade, o despreparo para a vida em sociedade, a insensibilidade (guerra que se trava no terreno educacional) em nada se assemelha à guerra levada a efeito nos verdadeiros campos de batalha. Inclusive, se as “batalhas educacionais” forem adequadamente travadas, compreender-se-à, coletivamente, que matarmo-nos uns aos outros com requintes de crueldade é uma prática abominável, que se deve evitar a qualquer custo, com disciplina ou sem ela.

 

É mais fácil dizer de onde e de quem não virá uma solução minimamente aceitável para a crise educacional, e de onde e de quem não se poderá esperar a superação de tantos problemas sociais, políticos e econômicos, além de ambientais e geopolíticos, do que identificar um ponto a atingir ou uma trajetória a seguir com a finalidade de melhorar as nossas condições de vida individual, familiar e social. Por isso, parece de bom alvitre fazer um exercício exaustivo de esgotamento das alternativas erradas (como escola cívico-militares, por exemplo), indesejáveis ou inviáveis, criando, assim, um “vazio” a partir do qual “inventar” e pactuar novos alvos e novos caminhos para o futuro, no qual tenham chance de permanência a preservação do planeta, a sobrevivência da espécie humana e das outras, a paz, a liberdade, a sensibilidade, a justiça social, a alegria de viver. Difícil? Talvez bem menos do que seguir em frente do modo como estamos seguindo, pagando um preço absurdo por isso.

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