Calvino: para enfrentar a barbaridade

(...) estamos vivendo no tempo das invasões bárbaras.
Não adianta olhar em torno, buscando identificar os bárbaros em algumas categorias de pessoas. Os bárbaros, desta vez, não são pessoas: são coisas. São os objetos que acreditamos possuir e que nos possuem; é o desenvolvimento produtivo, que devia estar a nosso serviço mas do qual estamos nos tornando escravos; são os meios de difusão do pensamento, que procuram nos impedir de continuar a pensar; é a abundância de bens, que nos dá não o conforto do bem-estar, mas a ansiedade do consumo forçado; é a febre da construção civil, que impõe um aspecto monstruoso a todos os lugares que nos eram caros; é a fingida plenitude de nossos dias, nos quais amizades, afetos, amores murcham como plantas sem ar e todo diálogo se apaga logo ao nascer, seja com os outros, seja com nós mesmos.
Recomendo a releitura do parágrafo acima, pausadamente, refletindo sobre cada passagem. Para se compreender, profundamente, aspectos da vida que estamos levando há décadas. E agora revelo que se trata do excerto de texto de uma palestra proferida por Italo Calvino em 1962, em Turim, Milão, Roma e Nápoes. Eu propositalmente não utilizei as aspas para identificar o texto alheio, que, aliás, gostaria que fosse meu, diante da realidade atual – que infelizmente não conta com a “vantagem”, ao tempo de Calvino, de um movimento como o dos hippies e dos beatniks – o fascismo é que hoje se assanha em todo canto e lugar.
Na ocasião em que Calvino assim se pronunciava, a sociedade da produção cientificamente conduzida, do consumo de massas, da televisão e do marketing, da indústria cultural dava passos largos, mas não tão longos e decisivos como os atuais, sob o impulso de uma fase posterior da revolução industrial, baseada não simplesmente na automação (mas na inteligência artificial), não na agora prosaica mídia televisiva (mas nas possibilidades abertas pela internet).
É incrível como a leitura de Calvino da realidade de seu tempo serve perfeitamente à nossa! O que permite afirmar, juntamente com tantos que já o fizeram antes, que o artista/literato domina uma capacidade de compreensão da vida que hoje em dia muitos insistem em reservar apenas à ciência, com sua alegada objetividade. Viva, pois, a arte! E assim, vivendo, nos ajude a viver melhor, compreendendo o mundo e a nós mesmos, como condição para viver tão bem quanto possível aos nossos talentos e à nossa sensibilidade.
Isso dito, recomendo a segunda releitura do parágrafo inicial. Para perceber que ele pode ser a base de um antídoto para nossas equivocadas decisões e práticas quotidianas (individuais e coletivas) que estão nos levando aos divãs dos psicanalistas e a cair nos braços das indústrias farmacêutica e hospitalar. Esse parágrafo contém um conjunto de elementos dos quais é possível extrair uma boa percepção do labirinto em que estamos metidos, começando a elaborar um mapa que, se não nos permitirá dele sair, ajudará a nele nos movermos, lidando adequadamente com a barbaridade reinante.
É claro que este meu comentário, assim como o texto que o ensejou não se dirige aos possíveis leitores “bem resolvidos” com o mundo tal como se apresenta. Que o desconsiderem, portanto, sendo, como são, “feitos de outro material” que não aquele que me constitui. Para esses, deixo outras palavras de Calvino, de 1964 (em Uma serenidade amarga):
“Bem-aventurados aqueles cuja postura ante a realidade é ditada por imutáveis razões interiores! A eles, dirijo a inveja daqueles que, como nós, acostumados a reagir aos estímulos mutáveis do mundo, vivemos expostos a contragolpes constantes e, por nunca terminarmos de decifrar o curso da realidade multiforme, em nossas posturas estabelecidas a cada vez, carregamos a consciência de errar.” Errar buscando acertar, porém, acrescente-se.




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