Calvino: para enfrentar a barbaridade
- Valdemir Pires
- 19 de mar.
- 3 min de leitura

(...) estamos vivendo no tempo das invasões bárbaras.
Não adianta olhar em torno, buscando identificar os bárbaros em algumas categorias de pessoas. Os bárbaros, desta vez, não são pessoas: são coisas. São os objetos que acreditamos possuir e que nos possuem; é o desenvolvimento produtivo, que devia estar a nosso serviço mas do qual estamos nos tornando escravos; são os meios de difusão do pensamento, que procuram nos impedir de continuar a pensar; é a abundância de bens, que nos dá não o conforto do bem-estar, mas a ansiedade do consumo forçado; é a febre da construção civil, que impõe um aspecto monstruoso a todos os lugares que nos eram caros; é a fingida plenitude de nossos dias, nos quais amizades, afetos, amores murcham como plantas sem ar e todo diálogo se apaga logo ao nascer, seja com os outros, seja com nós mesmos.
Recomendo a releitura do parágrafo acima, pausadamente, refletindo sobre cada passagem. Para se compreender, profundamente, aspectos da vida que estamos levando há décadas. E agora revelo que se trata do excerto de texto de uma palestra proferida por Italo Calvino em 1962, em Turim, Milão, Roma e Nápoes. Eu propositalmente não utilizei as aspas para identificar o texto alheio, que, aliás, gostaria que fosse meu, diante da realidade atual – que infelizmente não conta com a “vantagem”, ao tempo de Calvino, de um movimento como o dos hippies e dos beatniks – o fascismo é que hoje se assanha em todo canto e lugar.
Na ocasião em que Calvino assim se pronunciava, a sociedade da produção cientificamente conduzida, do consumo de massas, da televisão e do marketing, da indústria cultural dava passos largos, mas não tão longos e decisivos como os atuais, sob o impulso de uma fase posterior da revolução industrial, baseada não simplesmente na automação (mas na inteligência artificial), não na agora prosaica mídia televisiva (mas nas possibilidades abertas pela internet).
É incrível como a leitura de Calvino da realidade de seu tempo serve perfeitamente à nossa! O que permite afirmar, juntamente com tantos que já o fizeram antes, que o artista/literato domina uma capacidade de compreensão da vida que hoje em dia muitos insistem em reservar apenas à ciência, com sua alegada objetividade. Viva, pois, a arte! E assim, vivendo, nos ajude a viver melhor, compreendendo o mundo e a nós mesmos, como condição para viver tão bem quanto possível aos nossos talentos e à nossa sensibilidade.
Isso dito, recomendo a segunda releitura do parágrafo inicial. Para perceber que ele pode ser a base de um antídoto para nossas equivocadas decisões e práticas quotidianas (individuais e coletivas) que estão nos levando aos divãs dos psicanalistas e a cair nos braços das indústrias farmacêutica e hospitalar. Esse parágrafo contém um conjunto de elementos dos quais é possível extrair uma boa percepção do labirinto em que estamos metidos, começando a elaborar um mapa que, se não nos permitirá dele sair, ajudará a nele nos movermos, lidando adequadamente com a barbaridade reinante.
É claro que este meu comentário, assim como o texto que o ensejou não se dirige aos possíveis leitores “bem resolvidos” com o mundo tal como se apresenta. Que o desconsiderem, portanto, sendo, como são, “feitos de outro material” que não aquele que me constitui. Para esses, deixo outras palavras de Calvino, de 1964 (em Uma serenidade amarga):
“Bem-aventurados aqueles cuja postura ante a realidade é ditada por imutáveis razões interiores! A eles, dirijo a inveja daqueles que, como nós, acostumados a reagir aos estímulos mutáveis do mundo, vivemos expostos a contragolpes constantes e, por nunca terminarmos de decifrar o curso da realidade multiforme, em nossas posturas estabelecidas a cada vez, carregamos a consciência de errar.” Errar buscando acertar, porém, acrescente-se.




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