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Amor à leitura

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura


Lembro-me de ter lido, há muito tempo, que José Saramago – num de seus típicos rompantes contra inúteis lugares-comuns em defesa de valores, atitudes e posturas em declínio na sociedade – que são inúteis os esforços para convencer as pessoas a ler. Para ele, que entende que tentar convencer o outro é tentar colonizar o pensamento alheio, ou o indivíduo descobre o prazer da leitura, a seu modo, em algum momento da vida, ou jamais será um leitor que extrai alegria da convivência com os livros. Na época em que tomei contato com esta percepção de alguém tão digno de atenção acerca do assunto, eu estava produzindo resenhas curtíssimas para um projeto do governo de São Paulo, o Leia Livro, que as publicava em seu site e as difundia em rádios FM parceiras. Foi algo que balançou o meu entusiasmo em atrair leitores para os livros que eu ganhava das editoras para resenhar, no âmbito daquele saudoso projeto paulista.

 

Apesar da “paulada”, eu não desisti, continuei escrevendo resenhas, muito pessoais e despretensiosas, apenas para reter melhor as numerosas leituras anuais que mantenho. E, mais, no dia 7 de fevereiro de 2015, comecei a colecionar frases sobre leitura em caderninhos, inaugurando a prática como uma frase minha, mesmo: “Os livros no põem em contato com os mais atentos viajantes dentre nós; por isso, nos ajudam a conceber e aproveitar melhor os nossos próprios trajetos”. Cheguei, mesmo, a publicá-las com regularidade num blog que criei, retirando-as tempos depois. No início, coletei centenas dessas frases; em seguida reduzi o ímpeto: isso pode-se constatar olhando os caderninhos, nos quais as anotações são numeradas e datadas. A última, a de número 542, é esta, de Miguel Unamuno: “Ler é um caminho para a originalidade.” Do que não tenho a menor dúvida.

 

Não posso dizer o mesmo quanto à tendência das pessoas a aproveitar este caminho; creio até que são poucas as que se aventuram a lançar mão da oportunidade, assim como não devem ser muitos os que têm algum interesse em originalidade, na sociedade do consumo de massas e da cultura do entretenimento. Não obstante, permaneço resenhando/comentando leituras. Atualmente elas são publicadas no Diário do Engenho, de Piracicaba, e reunidas em meu site , atraindo inexpressiva quantidade de leitores.

 

Não abandonei a intenção de motivar à leitura, mormente literária, mas deixei de ser militante. Surgindo oportunidades, aproveito-as, mas não vivo à caça delas, aliás pouquíssimas: basta ver as pesquisas e estudos a respeito. Entendi que não se ensina a amar, desde que se entenda amar numa das definições de Ortega Y Gasset: “amar uma coisa significa empenhar-se para fazê-la existir, sem admitir, no que depende de nós, a possibilidade de um universo privado daquele objeto.”

 

Eu amo ler. Felizmente, porque isso me ajuda a apreciar a vida, a desejar viver. E digo ler qualquer coisa, mas, claro, especialmente literatura. Se me perguntam qual ou quais meus autores preferidos, não sei responder. Porque de cada um que leio, gosto de algo e, às vezes, por pura piedade ou reconhecimento pelo esforço (escrever não é fácil e na maioria das vezes é mal remunerado) retenho passagens até dos piores. Gostaria de ser, mas não consigo, como Italo Calvino, que respondendo à pergunta da revista Nuovi Argomenti (1959): “Quais os romancistas de sua preferência e por quê?”, listou grandes nomes da literatura universal e indicou o motivo pelo apreço que tinha por cada um.

 

Foi o mesmo Calvino, aliás, que me deu uma definição de mim mesmo, como leitor. Só agora, com mais de sessenta anos, descubro que minha atitude mental dominante é a de um leitor. Diz Calvino, no seu ensaio Mundo escrito e mundo não escrito, de 1983, e eu repito, sobre mim:

 

“Pertenço àquela parte da humanidade – uma minoria em escala planetária (...) – que passa boa parte de suas horas de vigília em um mundo especial, um mundo feito de linhas horizontais onde as palavras se sucedem uma por vez, onde cada frase e cada parágrafo ocupa seu posto estabelecido: um mundo que pode ser muito rico, quem sabe até mais rico que o mundo não escrito, mas que de todo modo requer um ajustamento especial para se situar dentro dele. Quando me afasto do mundo escrito para reaver meu lugar no outro, naquele que costumamos chamar de o mundo, feito de três dimensões, cinco sentidos, povoado por bilhões de nossos semelhantes, isso para mim equivale a repetir todas as vezes o trauma do nascimento, a dar forma de realidade inteligível a um conjunto de sensações confusas, a escolher uma estratégia para enfrentar o inesperado sem ser destruído.”

 

É por isso que hoje, em vez de convidar os outros a lerem, eu me resigno a rogar a todos que apenas me deixem fazê-lo. Todavia, não perco a esperança de que o exemplo fale por si, exemplo que procuro tornar visível pelas resenhas e comentário que ainda não abandonei, apesar do trabalho que dá escrevê-las e disponibilizá-las em invisíveis vitrines.

 

2 comentários

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Beatriz Elias
Beatriz Elias
há 4 dias
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Ler é algo extremamente pessoal. E mutável. Acho que é nesta perspectiva que é necessário se incentivar a leitura. Ao pegarmos um livro trazemos conosco as referências que pessoalmente acumulamos, o estado de espírito daquele momento, até mesmo o humor daquele dia. Assim, o mesmo livro jamais provocará a mesma reação em duas pessoas diferentes, em idades pouco semelhantes e que tragam consigo histórias relacionadas ou não com a temática do livro. Afinal, o livro que lemos quando tínhamos 20 anos nos levará a uma percepção muito diferente se o relermos aos 60 anos. Daí, creio eu, tanta dificuldade em efetivamente conseguirmos "criar" leitores ou levarmos pessoas em geral ao prazer da leitura.

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Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 3 dias
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Concordo plenamente!

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