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A sociedade dos estimulantes e a vida que vale a pena

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 8 horas
4 min de leitura

Imagem: Wix
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Estimulante ou psicoestimulante é uma substância ou composto, também conhecido como droga, utilizado para alterar o funcionamento do sistema nervoso central, a fim de obter níveis elevados de liberação de energia, de atividade/movimento e de atenção/concentração. Também se associam a tentativas químicas de reduzir a tristeza ou aumentar a alegria. Esportistas de alto desempenho de vez em quando são flagrados fazendo uso desse recurso, proibido por desequilibrar artificialmente as condições competitivas. Alguns artistas lançam mão desse meio, buscando ampliar a própria percepção/criatividade; houve até momentos/escolas na história da arte que fizeram dos estimulantes um instrumento para, a partir de distorções da realidade e da fuga à “normalidade”, atingir “revelações” sensoriais materializadas em suas obras, algumas hoje pertencentes aos cânones das diversas formas de expressão artística.

 

Os estimulantes vão dos mais pesados aos mais leves, do LSD ao álcool, da cocaína ao cigarro, da maconha ao café. Os mais pesados geralmente transformam o usuário em viciado ou dependente, com severos prejuízos à sanidade física e mental, não raro com dificuldades para se livrar do problema, apesar de toda a  ajuda da medicina, com seus fármacos e tratamentos psiquiátricos.

 

A preocupação com os estimulantes só faz aumentar desde que se transformaram num mercado de escala global, muito bem articulado e altamente lucrativo, ensejando a criação de aparatos legais e policiais, em todos os países, para combater os traficantes e tentar reduzir o número de usuários. Aparatos que dia após dia se revelam ineficazes.

 

Acontece que o combate ao uso de estimulantes não tem afetado as causas de sua disseminação, fundamentalmente duas: a crescente necessidade de estímulos, da parte dos indivíduos (para suportar a vida ou para torná-la mais interessante) e a oportunidade de negócios lucrativos que ela cria. Jamais haverá polícia nem cadeia suficientes para impedir que desejos profundos e enraizados sejam eliminados.

 

O fato é que, ao longo de toda a História e talvez até antes dela, nunca se viveu sem recorrer a algum tipo de estimulante químico: a vida, “naturalmente” vivida, parece nunca ter sido suficiente para pelo menos uma parte dos seres humanos. A novidade é que na sociedade moderna, urbano-industrial e, acima de tudo, mercantil-capitalista (e portanto dependente de estímulos para elevar e diversificar o consumo de massas lucrativo para os ofertantes), a produção de estimulantes tornou-se uma atividade econômica racional-maximizante como é qualquer atividade produtiva voltada ao atendimento da demanda massiva concentrada nas cidades, locais, por sua própria natureza, eivados de estímulos visuais, sonoros, degustativos, olfativos, táteis, afetivos.

 

Atualmente, quem quer vender, se vê obrigado a oferecer não produtos ou mercadorias (como são todas as tralhas, em volume e variedade inimagináveis atualmente expostas nas gôndolas físicas ou virtuais fartamente disponíveis e acessíveis a quem possa pagar), mas as “experiências” (de preferência imersivas) proporcionadas por tudo que é colocado à venda. Quanto mais “exclusiva” a experiência anunciada, mais desejada e, portanto, mais há que se pagar pelo acesso (ou não exclusão) a ela.

 

Numa sociedade de massas, que pratica o consumo em larga escala e industrialmente padronizado, a autoafirmação (medida pela quantidade de acessos e por pela “singularidade” proporcionada) é colocada à disposição de quem possa pagar, com apelos milimetricamente calculados por especialistas de marketing. E quem pode pagar (mesmo que seja se tornando criminoso para conseguir o dinheiro necessário para isso – que é o que resta a quem não consegue ou não deseja se sustentar no “mercado legal”) pode, então, obter acesso à mercadoria-sensação que bem deseja. Tudo acontece de tal maneira que se pode dizer que o segredo para o sucesso de vendas é igualar o produto/mercadoria, qualquer que seja ele, a um estimulante! E, também, de modo a que o estímulo anunciado seja diferenciador (individualizador) de quem consome, a fim de que se distinga da massa sem contornos que apaga ou sufoca singularidades.

 

Ao fim e ao cabo, o que fica estabelecido é que, sem estímulo (e, portanto, sem determinadas práticas de consumo – sob determinados preços, claro), a vida não vale a pena. Ela vira um problema.

 

Disse o filósofo dinamarquês S. Kierkegaard (1813-1855), que viveu tão pouco, que “A vida é uma realidade a ser experimentada e não um problema a ser resolvido.” No mundo moderno – e mais ainda no pós-moderno – a vida se transformou, primeiro, num problema de sobrevivência material em mercados concorrenciais (por necessidade, alta e aceleradamente inovadores)  e, em seguida, num problema de sobrevivência espiritual  ou de autoafirmação individual (da alma singular) face à massificação reinante nas grandes cidades e no planeta transformado em mercado global.

 

O surrealista português Mario Cesariny (1923-2006) percebeu o inferno em que a coisa consiste e concluiu, não sobre o que é a vida, mas sobre como é possível vivê-la, apesar de tudo; ele disse: "Só existem três maneiras de viver neste mundo: ou bêbado, ou apaixonado, ou poeta." Ou seja, só dá para viver ser for quimicamente estimulado, envolvido até a alma e as vísceras por algo ou alguém, ou encantado pelo mundo através das palavras como forma de expressão (e não meramente de comunicação).

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