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Da economia política de Adam Smith à política econômica da China, o fracasso do neoliberalismo

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Valdemir Pires
há 3 horas
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Imagem: Wix
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Em 1992, contra George H. W. Bush, defendendo Bill Clinton, James Carville criou uma expressão que se tornou famosa: “It's the economy, stupid.” O estrategista eleitoral estava chamando a atenção para o fato de que o desempenho econômico elege um candidato ou derruba um governante, ou seja, que o político deve prestar atenção e levar em conta os conselhos do economista, para ganhar ou se manter no poder. Ele estava e continua certo.

 

Mas há um porém. Que economista deve o político ouvir? Sim, esta pergunta precisa ser feita, pois, primeiro, os economistas contemporâneos se dividem em escolas de pensamento, em alguns casos frontalmente opostas, quase inimigas; segundo, eles têm uma tendência a desconsiderar a política, as relações de poder na sociedade: seu conselhos pretendem-se “técnicos”, no sentido em que o termo abarca uma suposta neutralidade. É de tal forma assim, que vale parafrasear Carville, mas no sentido oposto, alertando os economistas atuais: “É a política, estúpido.”

 

O pensamento econômico nasceu como Economia Política. Refletia sobre o modo como a sociedade, dividida em diferentes grupos, de acordo com suas posses, papeis no processo produtivo e participação na distribuição da riqueza produzida (economia) e de acordo com seu poder para decidir sobre assuntos coletivos (política) podia funcionar eficiente ou ineficientemente, do ponto de vista do crescimento econômico (riqueza, a ser ampliada) e da liberdade (poder, a ser controlado). Desde os Fisiocratas, chegando a Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill, a discussão sobre o almejado reino da abundância nunca desconsiderou a política. Nos textos desses autores clássicos, o papel das instâncias poderosas e capazes de limitar as liberdades individuais sempre foram discutidas como determinantes e às vezes perigosas, mas "parte da coisa", desde os grupos que sustentavam o Mercantilismo, as corporações de ofício até o Estado monárquico.

 

Na década de 70 do século XIX, o pensamento econômico se tornou Ciência Econômica, com dupla pretensão: explicar as estruturas e processos econômicos “como são”, objetivamente, tecnicamente, cientificamente, sem espaço para juízos de valor e vieses ideológicos. Este passo foi dado pela Escola Neoclássica – fonte primeira do neoliberalismo do fim do século XX.

 

Este neoliberalismo (com sua ideia de “economia do lado da oferta”) surgiu em reação ao keynesianismo (a “economia do lado da demanda”) predominante desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1936, com sua Teoria Geral, Keynes pôs fim à hegemonia do pensamento neoclássico (Menger, Walras, Pareto, Fischer, Marshall etc.), com sua ideia central de mercados equilibrando idealmente oferta e procura, com o máximo de produtividade e de produção, dados os recursos disponíveis, desde que sem intervenção do Estado. Desde então, e aceleradamente até o início dos anos 1980, os keynesianos avançaram, com sua já heterodoxa visão a respeito do funcionamento dos mercados (flutuações do nível de atividade e emprego ao sabor das expectativas, sem propensão ao equilíbrio automático entre oferta e demanda), teorizando e levando à prática o que se tornou conhecido como política econômica: moderada intervenção do estado (do poder, da política) no rumo e no ritmo da atividade econômica, a fim de melhorar seu desempenho, em comparação com o que seria possível sem essa intervenção.

 

É notório que o keynesianismo aceitou e defendeu a política (o Estado) como parte indissociável da economia, fazendo isso contra os neoclássicos, estes, frontais inimigos da intervenção do Estado/da política (mesmo sob o capitalismo), em grande medida em reação ao marxismo, este, absolutamente antimercado e pró-Estado, mas agora socialista. É como se a palavra política, que compõe a expressão política econômica (invenção keynesiana), agora retornasse, resgatada da expressão economia política. Nisso, Keynes sendo uma espécie de socialista moderado...

 

E é esse “socialista moderado” que o neoliberalismo, sem sucesso, tentou, nos anos 1990-2010, enterrar. Os anos 2020 estão sendo praticamente de ressurreição do apreço à intervenção estatal: Europa e Estados Unidos não sobreviverão sem ela, está muito claro, nem econômica nem (muito menos) estrategicamente. E no caso da Europa, o que está sendo criado é um superestado, continental – a União Europeia. Coisa que os Estados Unidos não estão propondo nas Américas, Trump agindo truculentamente, bestialmente, de modo antes inimaginável, na Venezuela (rapto de um Presidente eleito, bem ou mal).

 

Enquanto isso, a China, com sua “economia socialista de mercado”, com relativa liberdade política e relações de comércio “tranquilas” com o mundo todo, talvez esteja praticando o melhor keynesianismo (aperfeiçoado?) que já se viu em toda a história, de mãos dadas com o marxismo (aperfeiçoado?).

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