A minha biblioteca pessoal (Diário da Biblioteca – XXXI, 15/09/2026)
Atualizado: há 8 horas
A minha biblioteca pessoal

“A finalidade de uma biblioteca é provocar reflexão.” (Marina
Colasanti)
Uma biblioteca pessoal, se não for herdada, vai se constituindo ao longo da vida, na dinâmica da relação de seu proprietário com os livros, de modo que às etapas da vida correspondem fases da biblioteca. Isso se dá de tal modo, que nas estantes permanecem registrados passos e marcas constitutivos da biografia do leitor. Isso fica muito claro quando se visita a biblioteca de uma pessoa que, por alguma razão, foi conservada após sua morte. É o caso, por exemplo, de acervos de intelectuais que ganham espaços próprios em bibliotecas públicas, franqueados à visitação. Visitar a Sala de Estudos Sociais - Coleção Octavio Ianni (COI) na Biblioteca da Faculdade de Ciências de Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), como eu fiz em várias ocasiões, é algo que se aproxima de visitar aquele importante sociólogo e entabular conversa com ele; o ambiente parece ter alma, convidando ao estudo, engendrando inquietações. (Também a Unicamp homenageia este notável intelectual, dando seu nome à biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.)
A minha biblioteca (de fato, minha e de minha esposa Regina) é pequena, simples e não tem nada que possa despertar interesse por preservação depois que eu deixar de existir. Mas desde que dei início a ela e até que eu não possa mais “brincar” com suas peças, é parte importante do meu modo de ser e de pertencer a mim mesmo. Ela não tem um acervo de bibliófilo (como a de Umberto Eco, a de José Mindlin, a do Ésio Macedo Ribeiro ou da minha amiga Josiane Maria de Souza, por exemplo), pois eu, apesar de adorar livros (fisicamente falando), sempre fui mais atrás de seus conteúdos, pouco me importando com raridade, qualidade da encadernação, beleza das capas etc., até porque, as aquisições sempre me foram custosas: cada livro comprado sempre correspondeu a um desejo ou necessidade de outra natureza a que foi necessário renunciar.
De início, a minha biblioteca aparece como uma improbabilidade. Eu nasci e vivi até os vinte anos em Araras, cidade desprovida de livrarias dignas desse nome. Estudei em escolas que não tinham bibliotecas. Meu pai nunca leu e minha mãe era analfabeta, este perfil se repetindo com meus avós maternos e paternos; os irmãos de minha mãe, sem exceção não liam, nenhum tendo chegado a cursar o ginásio. Excepcionalmente, para minha sorte, meu tio (Anésio) e minhas tias (Odete e Iná), tendo cursado apenas até a quarta série primária, liam muito: fotonovelas e gibis, os três, livrinhos de bolso com histórias de faroeste e de heróis (como Fantasma e Tarzan), o tio. Felizmente, também, fui jovem interessado em ler em tempos em que as bancas de jornais, abastecidas principalmente pela Editora Abril, forneciam muita coisa interessante, vendida em fascículos ou coleções seriadas, a preços acessíveis dividido ao longo do tempo.
A condição de leitor, evidentemente, antecede a de proprietário de um acervo organizado de livros, ou biblioteca. Assim sendo, minha biblioteca jamais teria existido se eu não tivesse começado a ler o que, depois de eles terem lido, me davam os meus tios paternos, a meu pedido, por curiosidade e também por admiração por aquilo que eles faziam com regularidade. Os conteúdos gráficos, especialmente as letras, umas atrás das outras, nos gibis e revistas e, mais ainda, nos livretos não ilustrados, pareciam-me mágica ou feitiçaria, pela possibilidade que ofereciam de mergulho num universo imaterial que, ao fim e ao cabo, de algum modo se materializavam em quem os abordava dominando uma técnica.
Quando eu estava cursando a terceira e a quarta séries do então denominado ensino primário, consegui, não me lembro de que modo, os Manuais do Escoteiro Mirim, do Tio Patinhas e do Peninha. Os textos ilustrados desses livrinhos da Editora Abril, vendidos em bancas, me conquistaram, provavelmente atingindo o objetivo da coleção: eram divertidos e, ao mesmo tempo, instrutivos – eu brincava aprendendo. Então eu comecei a querer mais e melhor. Veio então a frequentação à Biblioteca Municipal “Martinico Prado”, em Araras. Estantes cheias de livros. Que maravilha! Passei a sonhar com uma miniatura daquilo, em casa, onde nem havia espaço para isso.
Com economias do meio salário-mínimo ganho mensalmente como guarda-mirim (office-boy recrutado entre garotos de famílias pobres, basicamente por donos de pequenos negócios locais, travestidos de benfeitores), aos treze anos consegui comprar três caixotes de madeira que, empilhados, viraram uma estante ao lado de minha cama, no quarto dividido com um irmão mais novo. Ali depositei os Manuais da Abril Cultural, acrescentando, com o passar do tempo, outros itens, entre os quais os livros escolares, na época comprados (a duras penas), porque não eram oferecidos gratuitamente pelos governos.
Durante a quinta e a sexta séries do ensino primário, na Escola Estadual (então de) Primeiro Grau “Yolanda Salles Cabianca”, em Araras, aluno muito dedicado e com bom rendimento, dava-me bem com os professores e com o diretor, Cícero de Oliveira Filho. Foi ele quem cedeu uma sala para que eu, entusiasta, começasse a organizar a biblioteca da escola, num tempo em que elas não as possuíam e nem se cogitava que viessem a possuir. Doações foram recolhidas, um pequeno acervo foi iniciado e começou a ser utilizado. Eu, claro, além do organizador, fui um dos mais assíduos usuários. Combinava empréstimos de livros da escola com outros, da biblioteca municipal. Uma professora atenta, Rochele Fender, indicou-me, com sucesso, para o Prêmio Non Scholae Sed Vitae, recebido em Campinas, por essa iniciativa. Além de um certificado enorme, ganhei também vários livros muito bonitos, todos de capa dura: dicionário, mapas e obras patrocinadas pelo Ministério da Educação. Foram todos enriquecer e enfeitar a minha estante de caixotes de verdura.
A essa altura, todos, principalmente professores, colegas de classe e outras pessoas da escola, sabiam que eu gostava de ler. Um auxiliar de secretaria, chamado Milton Nantes Pestana, era leitor de literatura e tinha uma boa quantidade de títulos, que já não cabiam no cubículo em que ele os mantinha, em sua casa, que ficava bem em frente ao portão da escola. Um dia ele me ofereceu vários deles, uns vinte, por um preço baixo, a ser pago em pequenas prestações. Eu aceitei de pronto, fascinado, pois eram livros bem encadernados e com capas duras, coloridas, com títulos impressos em ouro. Estava formara a minha biblioteca pessoal! Neste momento foi dado o passo mais importante para minha trajetória de leitor, aleatório, de romances, novelas e contos. Num tempo em que literatura não fazia parte do currículo escolar, a não ser como penduricalho de Língua Portuguesa.
Em seguida vieram as compras semanais nas bancas de jornais, primeiro a do Seu Guariento (lembro o sobrenome, e me esqueci do nome dele), defronte ao Supermecado Fávaro do Jardim Marabá (onde eu trabalhava de balconista nos finais de semana, ganhando uns trocados adicionais para gastar com livros e sair com os amigos nas noites de sábado); e, depois, a banca do Marcelo, na Praça Barão de Araras, mais sofisticada, bem à frente do Banco do Brasil, onde me tornei menor-aprendiz, com um salário melhor. Das bancas vieram coleções formadas por fascículos comprados semanalmente e depois encadernados – um verdadeiro vício, delicioso. Que continuou com a inscrição num Círculo do Livro, cujo pagamento mensal, com valor fixo, assegurava uma obra a cada mês, escolhida dentre as listadas e comentadas numa revista que vinha pelo correio.
As compras literárias tiveram que ser contidas quando, às vésperas de completar dezoito anos, terminou o período de menor aprendiz no Banco do Brasil. O salário que o Bradesco – novo empregador – passou a me pagar, como escriturário, era menor, por um período de trabalho maior (oito, em vez de seis horas diárias, no Banco do Brasil). Coincidiu, esse momento, com o início de minha militância político-partidária, quando o país retomava a democracia. Eu andava lendo Jorge Amado (primeiro autor de que desejei ter o conjunto da obra) e ciscava pelos livros da Coleção “Os Pensadores”, da Abril Cultural. E foi essa militância, demasiadamente exposta numa comemoração de Primeiro de Maio, que resultou na minha demissão sumária do Bradesco e na posterior impossibilidade de conseguir novo emprego em Araras, num momento de crise econômica nacional. Eu estava, então, comprando os títulos quinzenais da Coleção “Os economistas”. Só não interrompi porque minha avó paterna, Joana Pires Bueno, lavadeira de roupas para terceiros, conseguindo isso não sei como, me ajudou a pagar os números faltantes. Devo a ela, pois, ter me tornado economista.
Cursar o ensino superior foi, certamente, uma façanha. Eu não só era pobre, muito pobre, sem ter a quem recorrer para qualquer tipo de ajuda, como, exatamente no momento de entrar para a faculdade, estava desempregado e sem perspectivas de me empregar, numa cidade que colou um selo de esquerdista (para não dizer comunista) na minha testa. Esta é uma longa história, que não cabe nem convém contar aqui. O fato é que achei soluções e terminei bem essa história. Mas não faço dela motivo de orgulho. Ter sido, como dizem, (fazendo questão de dizê-lo em inglês) um self-made man, não me faz bater no peito e dizer, feito Júlio César: "Veni, vidi, vici", pois prefiro protestar contra tudo o que, entre nós, vivendo em sociedade, cria dificuldades e obstáculos que não deveriam existir para que cada um possa fazer o melhor ao seu alcance para atingir sua melhor versão, em benefício de todos.
Tendo que trabalhar durante o dia, para garantir a sobrevivência, não era possível estudar em universidade pública, cujos cursos eram diurnos ou em período integral. Assim, vieram as mensalidades do curso de Economia, primeiro da Unimep, em Piracicaba, depois na Puc de Campinas. Junto com este gasto, os outros, com livros que eu fazia questão de ter, visando uma biblioteca pessoal com os livros básicos necessários à formação de economista. Foi uma correria, uma luta tremenda. Mas eu sentia que valia a pena, a vida estava tomando um rumo que me atraía. Reforçado pela alegria de dividir tudo com Regina, que cursava História também na Puccamp. Sendo ela leitora voraz, nossas bibliotecas se juntaram; compramos estantes de aço para acomodá-las nas quitinetes que alugávamos em Campinas. Em dado momento, encapamos a maioria dos livros com papel pardo, imitando o que faziam na biblioteca de Araras, a fim de proteger os volumes. Agora, além de literatura, contávamos com obras de Economia, História, Sociologia/Ciência Política etc. Éramos fregueses das livrarias Papirus e Tecnarte (do atencioso livreiro Augusto), visitadas toda semana, para saber das muitas novidades e nos apossamos de uma lasquinha.
Em Campinas, conheci bibliotecas universitárias. Primeiro a da Puccamp; depois, da Unicamp, além da central, as setoriais da Economia e do IFCH. Na Unicamp, como bolsista de iniciação científica do Núcleo de Estudos Estratégico, sob orientação do Coronel Cavagnari, comecei a deixar de ser leitor de um só idioma. “Espanhol é português: pegue um dicionário e vá em frente”, ordenou o militar intelectual, passando-me uma listinha de títulos, informando haver todos na biblioteca do IFCH. Dele ganhei um livro do Pinochet que contamina minha biblioteca, mas conscientemente: “Sem conhecer o inimigo não se pode pensar em lutar para vencer”, disse-me.
As bibliotecas da Unicamp, com acesso livre, podendo-se consultar os fichários (os acervos ainda não estavam informatizados) e buscar os títulos por conta própria, eram verdadeiros paraísos, complementados por pequenas livrarias que havia no campus, sob o comando de livreiros intelectuais. Isso contribuiu para maior rigor na escolha de títulos para a biblioteca pessoal, levando, inclusive ao descarte de uns ruins, para ceder espaço cada vez mais escasso nas estantes. Também ali aconteceu a descoberta dos periódicos científicos, que movimentam a fronteira do conhecimento, constituindo-se numa janela, na biblioteca, diferente da dos livros, que se abrem mais para o portal do conhecimento consolidado. Minha biblioteca passou a contar, então, com alguns desses periódicos (chegando a quase mil números), mais tarde, com arrependimento posterior, descartados da estante para onde foram levados, em Araraquara, sob a crença de que tal tipo de literatura estaria facilmente disponível online.
Além das origens já mencionadas dos livros da minha biblioteca, preciso acrescentar outras, significativas, além das compras frequentes em livrarias e sebos (as últimas sistemáticas tendo sido de todos os títulos de Italo Calvino e de dezenas de livros sobre o tempo), como: doações de editoras a troco de resenhas escrita para o projeto Leia Livro (do governo de São Paulo), doações de livros técnico-científicos destinadas ao professor de Economia (para possível adoção em disciplinas), presentes de amigos (principalmente Sebastião Neto Ribeiro Guedes – que tem uma bela notável biblioteca pessoal, Alexandre Motta e Zé Pedro Antunes), doações de autores que conheci e encontrei por aí, compras feitas em eventos literários (raramente com autógrafos, pois não costumo solicitá-los), livros publicados por amigos e a mim doados ou por mim comprados (entre eles, André Satlher Guimarães, Claudinei Coletti, Sebastião Neto Ribeiro Guedes, Vivian de Moraes, Tadeu Marcato, Newman Simões, Renata Soares Junqueira) e, por último, livros que eu escrevi e publiquei, além dos TCCs e dissertações de mestrado da esposa Regina e do filho Bruno.
Quando me mudei de Campinas para Piracicaba, havia tantos livros e revistas científicas que, para acomodá-los, seriam necessárias duas ou três estantes de aço adicionais, do tipo que eu já tinha. Então mandei fazer, num dos quartos do apartamento recém-adquirido, grandes estantes de madeira para consolidar, enfim, minha primeira biblioteca (também no sentido físico da palavra), desfigurada pelo fato de o mesmo quarto, pouco depois, com alegria, ter que abrigar o filho recém-nascido. Foi nessa mesma ocasião que me vi obrigado a descartar um grande armário de aço de quatro gavetas contendo pastas suspensas lotadas de recortes de jornais organizados por temas de interesse (hemeroteca) desde o começo do curso de graduação (quando a Folha de São Paulo trazia ótimos cadernos e excelentes reportagens), e também um alentado volume de revistas semanais antigas, formado por edições recebidas ao longo de assinaturas que eu mantinha (Veja, Isto É, Senhor) e por um grande lote mais antigo, a mim presenteado por um ex-gerente do Banco do Brasil de Araras, Antonio Longhi, quando eu lá trabalhava.
Com um acervo bibliográfico já considerável (quase três mil itens), precisei estruturar uma verdadeira biblioteca-escritório, inclusive por necessitar, como professor e pesquisador, desse equipamento. Por isso, ao construir minha primeira casa, tardiamente, um cômodo foi definido e modestamente mobiliado como tal. Os livros puderam, então, ser organizados, catalogados (com a ajuda inestimável do filho Bruno, ainda criança) e acomodados em estantes apropriadas, ficando ao alcance da mão na medida das necessidades (do professor-pesquisador) e dos desejos (do apreciador de literatura). É esta a minha biblioteca, finalmente. Ela é o pontinho, a coordenada geográfica exata, na Terra, em que melhor me sinto, onde posso ler e escrever ou simplesmente devanear entre livros ou entre páginas. Nesse pontinho, também guardo comigo toda a minha história pessoal passível de documentação em papel, na forma de arquivos (em armários sob as estantes com livros) de documentos pessoais que vão desde diplomas, certificados, registros, manuscritos, projetos e relatórios acadêmicos, dossiês, revistas e jornais com publicações de artigos meus ou contendo entrevistas que concedi etc. A tudo isso se acrescenta uma quantidade de arquivos no computador e em suportes magnéticos acerca dos quais me é impossível falar aqui, além de discos, fitas e CDs/DVDs com que já não sei mais como lidar.
Vou me divertir, em breve, quando puder baixar todos os livros para limpá-los e higienizar as estantes (trabalho duro e demorado que toda biblioteca exige), aproveitando para aplicar em cada um o meu recém-adquirido carimbo de ex-libris. Menos divertido, mas necessário, será atualizar o catálogo no computador, pois novos títulos foram acrescentados, enquanto alguns foram retirados (realocados, descartados ou doados). Espero, todavia, não ter que fazer, de novo, o que já tive que fazer por três vezes na vida: mudar de casa, tendo que desmontar, encaixotar, transportar e colocar em novas estantes todos esses livros.
Algo que está me preocupando, hoje, é que que numerosos volumes da minha biblioteca envelheceram mal, começando a dar claros sinais de exaustão de material: encadernação desmanchando, capas se entortando, páginas ficando quebradiças. Se eu puder, vou aprender a restaurar livros e me munir de equipamentos e materiais para me dedicar a esta atividade artesanal. Vamos ver...
Neste momento, em que escrevo (setembro de 2026), a minha biblioteca-escritório está sendo utilizada pelo filho Bruno e pela nora Bárbara, que nela trabalham em home-office, até que a casa deles fique pronta. Paralelamente, a biblioteca infantil da minha neta Ana Luiza está sendo iniciada, com livrinhos que parecem fazenda ou floresta – cheios de bichinhos. Alguns deles são bilíngues ou estão em inglês, em contraposição à minha biblioteca, quase exclusivamente em português.

Eu os folheio os livrinhos da netinha, ajudando-a a associar os nomes dos bichos à imagem deles, assim como os sons que emitem: “Aqui, Ana! A vaca: muuuu!” E ela aponta e repete. Vejo como incerto o destino dos livros que foram do Bruno quando criança, todos ainda guardados na minha biblioteca, pois eles não têm características que lhes permitam competir com as publicações atuais, com mais imagens e cores e menos texto, algumas feitas de pano, outras de plástico, podendo acompanhar a criança no banho.

Será que quando a neta Ana crescer (hoje ela tem somente um ano), conseguirei ler, inteiro, para ela, A ilha do tesouro, de R. L. Stevenson, como fiz para o filho Bruno, pequeno, numa praia do litoral norte de São Paulo? Ou será que Ana, como o pai dela, quando criança, vai pedir que lhe leiam e expliquem manuais de instrução de máquinas e equipamentos?




Comentários