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Livrarias (Diário da Biblioteca – XXIX,10/09/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 6 dias
3 min de leitura

Livrarias

Livraria Cultura do Shopping Iguatemi de Campinas, fechada em 2021
Livraria Cultura do Shopping Iguatemi de Campinas, fechada em 2021

“Hoje as telas dos computadores substituem os livros, e a sensação nega o pensamento.” (Harold Bloom)


Bibliotecas públicas são o paraíso dos leitores. Nelas podem ser encontrados livros de muitos autores, de incontáveis temas e assuntos, dos mais variados lugares, tudo bem organizado, fácil de localizar. Suas estantes permitem viajar no tempo: ali são encontradas obras que já não podem ser adquiridas no mercado porque as edições se esgotaram. O maior defeito delas é que, salvo raras exceções, não conseguem acompanhar o ritmo alucinante das novas publicações.

 

Assim, o purgatório dos leitores são as livrarias. Delicioso purgatório! Não chegam a ser paraísos porque impõe o sacrifício de ter que escolher o que comprar, pois do contrário o leitor afoito, sem freios, termina com o orçamento pessoal no vermelho. Sem bons livreiros, são também lugares em que a garimpagem é demorada e muitas vezes frustrante. E há também o problema da necessidade de destacar nos mostruários os títulos mais vendáveis, geralmente de gosto e valor duvidosos.

 

Mas inferno, inferno mesmo, para os leitores, é uma morar em uma cidade sem biblioteca e sem livraria, ou com biblioteca e livraria miúdas demais.

 

Eu vivi a infância, a adolescência e parte da juventude em Araras, no Estado de São Paulo. Pequena cidade que, felizmente, dispunha de uma biblioteca até que razoável (a “Martinico Prado”), mas nenhuma livraria. Tinha apenas duas papelarias que também vendiam livros, bem poucos, excluídos os didáticos: a Ripp e a Zanella. Eu fui freguês de carteirinha da Zanella, comprava a prazo, pagava prestações todos os meses. Delas vieram os primeiros livros da minha biblioteca pessoal, acrescidos regularmente, depois, pela assinatura de um tal Círculo do Livro.

 

Quando me mudei para Piracicaba, conheci a Libral, um pouco maior e já fiquei feliz. Depois fui para Campinas, estudar Economia, e aí, sim, conheci verdadeiras livrarias, sem serem papelarias, especialmente a Papirus, também editora – tornou-se lugar de passeio, às vezes triste, porque havia muito livro na lista dos desejados e poucos na cesta de comprados, dado o orçamento restrito de estudante pobre. Depois veio a Tecnarte, cujo dono me vendia a prestação: fiz a festa – comprei vários títulos represados no bloco dos sonhos de consumo literário.

 

Eu nem sabia que podia existir alguma coisa como a Livraria Cultura (a primeira), no Conjunto Nacional, lá na Avenida Paulista, em São Paulo. Quando fui lá pela primeira vez, ah, meu Deus!, onde estou? Eu quis morar lá... Quanto livro!, que maravilha de livreiros: cultos, atenciosos!

 

Mais tarde passei a frequentar, de vez em quando (embora desejasse mais), as megastores Saraiva e Cultura nos shoppings centers de Campinas, viajando para lá, com Regina, saindo de Piracicaba, onde morava. Livros, livros e mais livros, folheados em gostosas cafeterias, ao longo de toda a tarde e começo de noite.

 

E houve um tempo em que, mesmo em Piracicaba, havia verdadeiras livrarias, principalmente a Nobel, com várias lojas, a do Shopping Piracicaba a maior e contando com uma cafeteria bem agradável. Ali fui freguês constante. Mas assim como a Cultura e a Saraiva, a Nobel de Piracicaba desapareceu.

 

Agora o Shopping Piracicaba ganhou uma Livraria Leitura. Ainda bem, pois a cidade, uma das 30 maiores economias locais do país, passou um tempão sem livraria.

 

O futuro das livrarias físicas é incerto, pois as compras pela internet, desde os tempos da vendedora pioneira, no Brasil, neste tipo de canal (exatamente a extinta Livraria Cultura)  até os dias atuais (com a hegemonia da Amazon e com a contribuição também da agregadora de sebos – a Estante Virtual, comprada pelo Magazine Luiza), nem os cafés atraem mais os consumidores de livros, sendo os leitores (os verdadeiros leitores e não meros consumidores de livros) em número insuficiente para assegurar escala que compense os custos das lojas. Eis que a economia (mais precisamente a deseconomia de escala) engole a livraria. E o purgatório do leitor se torna o inferno do vendedor  de livro, do livreiro, seja ele grande ou pequeno.


Sorte que há gente, grande e pequena, que continua tentando manter as portas abertas, no setor, procurando reinventar e ressignificar o varejo livreiro. Torço por todos eles. E rezo para não terminar meus dias sem livraria por perto, mesmo tendo me tornado, novamente e essencialmente, leitor de biblioteca pública.

 

(Continua)

 

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