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  • Foto do escritorValdemir Pires

Vesgos e vagas, custos e costas



Afirmar que o emprego é variável de ajuste no longo prazo, nos climatizados modelos econômicos, não refresca o calor de ninguém, nesse conturbado verão de 2016. Em um contexto de alto custo rescisório, empresas postergam demissões, à espera de uma possível recuperação. Quando a recuperação não vem, ou ultrapassa os marcos da resiliência empresarial, o ajuste microeconômico, via corte da folha de pagamentos, é inexorável e, por somatório, turbinado por efeitos multiplicadores, o desajuste macroeconômico cobra seu preço principalmente dos que vivem de salários.


Os dados indicam que o ciclo de crescimento do PIB per capita entre 2001 e 2009 foi alimentado pela incorporação crescente de pessoas ao mercado de trabalho, com alguns analistas chegando a falar em uma situação de pleno emprego, na qual subsequentes melhoras do PIB só poderiam vir de aumentos da produtividade.


que parece, entretanto, o empresariado nacional preferiu continuar deitado em berço esplêndido e aproveitar essa disponibilidade de mão-de-obra para garantir seus lucros. A evidência está nos indicadores de produtividade: não importa como se meça, o desempenho da produtividade nacional é muito fraco nas últimas décadas. Interessante que, se alguma boa notícia houve, veio do agronegócio – mas justamente por este buscar reduzir sua condição anterior, de altamente intensivo em mão-de-obra.


Supostamente intensiva em capital, a indústria segue acreditando que usar vinte pessoas para trocar um pneu torna o processo mais eficiente. Por incrível que pareça, é uma solução mais cômoda do que buscar inovação, qualificação do trabalhador, substituição de maquinário, melhorias em processos. Com todos os custos envolvidos, ainda se prefere contratar mais carregadores de liteiras. Sem deixar, é claro, de protestar contra as altas taxas cobradas pelo governo para esse comércio de gente.


O ajuste possível continua sendo, então, o porta da rua serventia da casa. Com os adicionais perversos de se lançar as pessoas de volta ao mercado de trabalho em um momento de fraqueza do mercado de trabalho; e de afetar particularmente os mais jovens.  Para esses, pode-se deixar uma certeza: no próximo período de recuperação serão novamente contratados e estarão todos rindo e novamente falando em pleno emprego, enquanto a economia nacional seguirá derrapando, sem compreender a verdadeira essência de crescimento econômico forte e sustentável – a busca constante de aumento da produtividade. O que, por outro lado, exige um zelo adicional com o futuro: o que fazer com um contingente de trabalhadores de baixa qualificação e com egressos de cursos de nível superior de qualidade declinante?


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