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Sobre o voto popular de direita

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 1 hora
6 min de leitura

Potencial resultado do voto na direita no Brasil, em 2026
Potencial resultado do voto na direita no Brasil, em 2026

O sujeito popular de direita, que vem a dar no eleitor de direita: quem é ele? É aquele indivíduo anônimo, de poucas ou médias posses, para quem a vida é, em essência, uma luta pela sobrevivência e um permanente levantar/cair, no que tange aos afetos. Morre de ódios e também se derrete de amores; e precisa manifestar esses sentimentos extremos em relação a alguém ou alguma coisa, para sentir-se vivo, na sua quotidiana insignificância. Não raro é um poço de frustrações financeiras e de carências afetivas. Sente-se o tempo todo injustiçado, perseguido ou alvo de maus-feitos e maus-olhados que erguem fantasmagóricas barreiras ao seu progresso e felicidade.

 

Na maioria dos casos, sonha ser rico, poderoso ou notável, ou uma combinação dessas qualidades – das três ou duas a duas, à escolha. Se não for bonito, pensa que se ficar rico poderá dar um jeito nisso ou, pelo menos, amenizar rejeições, comprando aceitação. Quer riqueza, poder ou notoriedade de um jeito ou de outro, mirando-se naqueles que acha que possuem essas invejadas maravilhas. Arrisca em apostas, bajula (até rastejando ou lambendo sapato se necessário) quem acha que pode ajudá-lo, critica a corrupção alheia mas se estiver a seu alcance a pratica, reza por prosperidade sem saber o que é fé, troca CLT por PJ pelo orgulho se se dizer empreendedor, compra a prazo o que não pode à vista só para experimentar um naquinho de ostentação, se jovem não pensa em ter uma profissão (prefere ser influenciador e, se tiver algum dote para isso, jogador de futebol – para enriquecer sem ter que estudar...), não consegue se livrar de dívidas. Não perde nenhuma oportunidade de pisar em que está embaixo. Diminui os outros, para não sentir tanto sua baixa estatura.

 

O sujeito popular de direita – doravante simplificado como “o popular de direita” – é aquele que se auto-intitula “cidadão de bem”. Se bem que cidadania é uma coisa muito estranha ao seu modo de ver o mundo, posto que implica vida em comunidade, bem comum (república), coletividade, conceitos a que o individualista extremamente egoísta  que ele é, na prática abomina e na teoria desconhece.

 

Para o popular de direita, conhecimento é ferramentas para trabalhar – ou melhor, para empreender. Lê só o que é útil – textos técnicos ou de auto-ajuda – e acha literatura perda de tempo; prefeite páginas com bastante ilustração e poucas letras. Cultura e arte, para ele, só se vier junto com entretenimento, e não muito “cabeça”, que isso “enche o saco”.

 

O popular de direita tem algumas certezas sobre o governo, compradas por aí, sem pensar no preço e em como pagar: o governo gasta muito, cobra impostos demais, atrapalha a vida dos empreendedores (como ele, se deixarem), e é dominado por um bando de corruptos e malandros (não obstante sejam exatamente populares alguns ocupantes de cargos eletivos e mesmo concursados que bem merecem os adjetivos que descarregam sobre os políticos). Ele apoia quem defende liberdade (seja lá o que isso for e para quem, efetivamente), privatizações, cortes em políticas sociais (que só ajeitam a vida de vagabundos), truculêna de policiais e coisas desse tipo.

 

Está além da compreensão do popular de direita (e lá vem “textão” escrito em grego...) a necessidade de um determinado tipo de política econômica para assegurar o crescimento econômico e o emprego; a importância das políticas públicas (educação, ciência e tecnologia, saúde, segurança, urbanismo etc.)  para configurar um padrão de desenvolvimento sustentável, equilibrado e socialmente justo; a fundamentalidade da soberania nacional para que os residentes no país escolham eles mesmos o que querem para si em termos sociais, políticos, econômicos e culturais; a importância da democracia e dos Estado de direito como balizas do exercício do poder; o risco de desrespeitar as diferenças entre os indivíduos e grupos que compõem a sociedade. Compreender, aliás, não é um dos verbos preferidos do popular de direita. Compreender temas, assuntos, aspectos da vida mais complexos, para o cidadão comum é muito trabalhoso; para o de direita, perigoso: vai que se mete em armadilhas argumentativas de comunistas!

 

Há cidadão popular que seja, de fato, cidadão de bem no sentido verdadeiro e original da expressão? Sim, mas para ser assim, o popular precisa se emancipar intelectualmente, conseguindo pensar criticamente e, por essa via, fugir das armadilhas que o cercam de todos lados, por cima e por baixo, tentando arrastá-lo para a condição de canalha (ou falso cidadão de bem), que facilmente abre mão da dignidade por uns trocados ou umas vantagens a mais.  E, que ninguém se engane: não só da classe média vem muita gente para dentro dessas armadilhas: os pobres e muito pobres são extremamente vulneráveis a elas, longe de assumirem a condição de trabalhadores com consciência de classe, tal como concebidos pelo marxismo-leninismo. Esquecer disso nos processos de disputa eleitoral leva a discursos e apelos que são verdadeiros tiros que saem contra a culatra. E lembrar disso não é suficiente: é preciso encontrar meios e formas (de fato quase mágicos) para se atingir eficazmente os indivíduos com mentalidade de cidadão popular de direita ou tendente a ela; é muito difícil sensibilizá-los para que votem nos partidos e candidatos que efetivamente têm espírito público, visam o bem-comum, defendem a res publica e lutam pelo progresso social sob liberdades democráticas. O popular de direita e o eleitor de direita são como gêmeos siameses: só vivem se ligados um ao outro.

 

Como a experiência demonstra, o voto popular de direita é de muito difícil mudança, principalmente durante as disputas eleitorais mais acirradas. Para reduzir sua ocorrência, somente elevando o cidadão popular a patamares culturais nos quais certas sensibilidades humanas e determinadas habilidades mentais, que levam ao repúdio de comportamentos, posturas e atitudes destrutivas, como as da direita, especialmente se extremada. Mas como se faz para obter esta elevação dos indivíduos de modo a se chegar a uma vida coletiva de melhor qualidade, baseada na natureza progressista dos indivíduos? Eis a questão! A resposta a ela envolve certamente educação, sistemas educacionais, metodologias de ensino e assemelhados, mas não só, já que a própria educação é reflexo de aspectos da sociedade e da economia que ficam muito acima dela. O que determina, por exemplo, que a ênfase nas escolas e universidades seja mais técnica e menos humanista, ou o contrário? Os determinantes são fatores sociais, econômicos e políticos, e não apenas educacionais.


No curto prazo, a tentativa de convencer o popular de direita a não votar na direita fracassa sempre que se tenta convencê-lo de que as propostas de esquerda atendem aos seus interesses de classe, enquanto as de direita o massacram. Dizer que políticas sociais são necessárias para ele, é o mesmo que dizer que ele é pobre e precisa de ajuda do governo, quando ele se acha "classe média" com possibilidades de enriquecimento por meio de empreendimento ou graças à ajuda do Deus da prosperidade da igreja que ele frequenta.


O popular de direita também não se sensibiliza com discursos em defesa da soberania (principalmente se o ameaçador é americano - nacionalidade que ele muito admira e gostaria de ter, sonhando com Disney ou Miami); nem "com essas histórias" de direitos humanos e inclusão de minorias: ele come, bebe e dorme mastigando ódio contra ladrões e estupradores e crendices meritocráticas.


Dizer isso, vai parecer preconceito e falta de conhecimento do mundo do trabalho atual, mas é forte a impressão de que redução de jornada de trabalho, para os populares de direita é "coisa de outro mundo". Boa parte deles já se habituou e nem pensa mais na precariedade das suas condições salariais e de trabalho: estranham por completo a palavra sindicato. Muitos preferem trabalhar sem registro em carteira para aproveitar por alguns meses o seguro desemprego; outros contam os dias para conseguir migrar para atividades como as de condutores de veículos para o aplicativo Uber ou entregadores motorizados (de carro ou motocicleta) ou até de bicicleta para o iFood ou o Mercado Livre. O mais grave disso é que quanto pior a situação do indivíduo, menos ele acredita que não há soluções individuais para problemas coletivos. Por isso, é muito difícil "ganhar" a confiança, e mais ainda, o voto do popular de direita. Quando ele tem um celular (sonho de consumo a prestação) e entra em grupos de whatsapp de direita, aí ele se sente "filiado", confortável entre seus iguais - e muitos ficam "bem falantes", logo carregando atrás de si multidões de seguidores no mundo virtual barulhento. Trata-se de uma porção de "bolas de neve" se movimentando na rede mundial de computadores, dilapidando a boa prática política, alicerçada no debate bem informado, sério e responsável.


Dada a natureza da psicologia do popular de direita, o que oferecer a ele (sem ferir de morte princípios de esquerda) a fim de que mude de posição ou pelo menos fique neutro? Esta a pergunta-chave, para a esquerda, durante uma campanha eleitoral. Além de outra, cada dia mais clamando por resposta adequada: como ganhar espaço nas redes sociais e plataformas virtuais de modo a reverter a predominância da direita nesse universo?

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