Piracicabas
- Valdemir Pires
- há 1 dia
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Atualizado: há 8 horas

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Nenhuma cidade é a cidade que está sendo agora (presente). Toda cidade é, enquanto visível, a cidade em que se mora, se trabalha, se faz negócios, se passeia – a cidade da vida quotidiana, enfim. Mas dela faz parte, invisivelmente, tudo o que ela foi (passado) e tudo que ela sonha ser (futuro) por meio dos desejos e projetos que seus habitantes acalentam e articulam, consciente ou inconscientemente. Evoco Italo Calvino, em Os deuses da cidade (1975):
“Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.”
Daí concluir-se que ver – e compreender – uma cidade não é tarefa das mais simples. Já não é quando a metáfora de que se parte é a máquina; mais complicada ainda se torna quando a metáfora é a evolução biológica. Aí então, retornando a Calvino, percebe-se que:
“Lento e rápido que seja, todo movimento em curso na sociedade deforma ou readapta – ou degrada irreparavelmente – o tecido urbano, sua topografia, sua sociologia, sua cultura institucional e sua cultura de massa (digamos: sua antropologia). Acreditamos que ainda estamos olhando para a mesma cidade, e temos diante de nós outra cidade, ainda inédita, ainda a ser definida, para a qual valem ´instruções para utilização´ diferentes e contraditórias, e, no entanto, aplicadas, conscientemente ou não, por grupos sociais de centenas e milhares de pessoas.”
Agora fica mais fácil dizer que Piracicaba não existe: existem Piracicabas, umas que eu adoro tanto; outras, nem tanto assim; outras, ainda, que tendo a detestar, além das que não chego a conhecer.
Como para mim, Piracicaba foi, desde minha chegada (1983), até minha partida para Araraquara (2006), basicamente a Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), seu desaparecimento como que me faz entender muito claramente essa história de “mutação biológica” de um espaço urbano.
Tento me fazer entender assim, a partir da criação e da desarticulação do Campus Taquaral, à beira da Rodovia do Açúcar. Este campus universitário representou o crescimento e amadurecimento de uma instituição de ensino superior que “fez época”, atraindo anualmente milhares de alunos de todo o país e até estrangeiros, para seus cursos de graduação e pós-graduação extremamente bem avaliados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). A imagem de sucesso da Unimep bem pode ser evocada a partir do movimento de veículos na Rodovia do Açúcar, todos os dias, quando se aproximava o horário de início das aulas noturnas (dezenove horas). Era um fluxo enorme, de jovens que trabalhavam durante o dia e vinham para estudar à noite, cheios de esperanças, sobrecarregados pelos esforços diuturnos e pela necessidade de pagar altas mensalidades (ensino de qualidade custa). A Unimep, então, era uma referência, que ampliava a visibilidade de Piracicaba e enriquecia seu quotidiano, com a presença da numerosas repúblicas e alojamentos de professores que, no início, vinham de outras cidades, como Campinas e São Paulo, principalmente. O perfil dos profissionais de Piracicaba, em muitos setores de atividades, por décadas, teve sua qualidade definida a partir das salas de aulas, laboratórios e atividades extensionistas do campus Taquaral, com impactos que duram até hoje.
Pois o campus Taquaral deixou de ser local universitário, polo irradiador de educação e cultura, que atrai para si a juventude estudantil, o que faz com que o “organismo” Piracicaba sofra modificação de alto impacto e enormes consequências. Agora ali se instalarão dois (aparentemente modernos) centros de negócios: um, pertencente a uma rede de varejo farmacêutico local (Drogal) e outro de propriedade de uma rede de supermercados (Delta). O fluxo de professores, pesquisadores e estudantes será substituído pelo de fármacos e congêneres e pelo de alimentos, bebidas, materiais de limpeza e higiene pessoal etc. que abastecem as gôndolas de supermercado. Uma transformação de grande monta, uma Piracicaba se sobrepondo a outra...
Os que lamentam o triste fim de uma invejável biblioteca universitária, de um complexo desportivo que foi de ponta, de um belo e bem equipado teatro, entre outros bens culturais, choram de fato por uma Piracicaba que não é mais, e provavelmente não voltará a ser (tendo antes sido, por suas escolas de ensino pré-universitário exemplares, a “Atenas Paulista”): uma cidade orgulhosa de sua capacidade de, por si mesma, elevar quotidianamente o padrão educacional e cultural de seus cidadãos, com impacto para além de suas fronteiras. Note-se que as universidades que permanecem são sucursais de Campinas e de São Paulo – públicas (USP e UNICAMP); e as que vieram “em substituição à Unimep” (privadas), são “filiais” de redes focadas em formação profissional de acordo com demandas do mercado e a baixo custo (e também com qualidade nem sempre confiável) – são faculdades, não universidades, o que faz uma diferença muito maior do que o leigo pode supor.
Piracicaba nunca teve tantos supermercados como hoje em dia – todos, aliás, com grande dificuldade para contratar funcionários e retê-los. Também nunca se viu por aqui tanta drogaria – quase uma a cada esquina. O comércio varejista vai de vento em popa, não obstante a tão comentada tendência a que este seja substituído pelas compras/vendas online. Restaurantes, cafés não param de ser acrescidos ao “estoque” de bares e pontos de serviços dos mais variados tipos. A cidade, de fato, vê a cada dia seu “corpo”-cidade visível se transformar em gigante (para os padrões urbanos brasileiros e até mesmo paulistas), embora, talvez, sua “alma”-cidade invisível esteja encolhendo. E o antigo campus Taquaral é um local paradigmático dessa mudança, para muitos, dolorosa; para outros, alvissareira.
Leia comentário de Beatriz Vicentini sobre este artigo e outros tratando do mesmo assunto.




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