O desinfluenciador digital
- Valdemir Pires
- há 1 dia
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Atualizado: há 18 horas

Jô Soares, o mais sofisticado humorista brasileiro, se fosse americano, teria alcançado fãs no mundo inteiro, com sua inteligência e sensibilidade impressionantes. E ele, no final da vida, começou a se autointitular “influenciador analógico”. Mais uma de suas tantas sacadas: o epíteto dizia muito sobre a visão de mundo dele, em contraposição às visões de mundo que àquela altura começavam a ser hegemônicas, no caldeirão da transição entre as mídias.
Além de provocar riso, evidentemente, Jô Soares aparentemente estava, com aquela brincadeira séria, se colocando no seu devido lugar e, ao mesmo tempo reafirmando-o como válido e interessante, por mais interessantes que pudessem ser outros lugares que então estavam sendo rapidamente criados, ocupados por tantos outros sujeitos: os influenciadores digitais. Sua atitude pode também ter sido causada pela desistência de lutar contra a corrente, a enxurrada, as ondas.
Colocar-se na condição de desinfluenciador digital teria sido uma postura mais ativa. Talvez Jô, eternamente inquieto, atingisse esse ponto, tivéssemos nós a felicidade de tê-lo conosco, saudável, por mais tempo do que tivemos. E sua contribuição seria praticamente inigualável.
Na infeliz falta dele, quem sabe, não comecem a aparecer, por aí, neste momento e cenário de cansaço digital, figuras assumindo essa condição, de desinfluenciador digital. Afinal, contra as numerosas e famigeradas fake news já despontam “desconfirmadores”.
O ponto de partida para assumir a condição de desinfluenciador digital pode ser a aceitação dessa máxima de Valter Hugo Mãe, em O filho de mil homens: “Ser o que se pode é a felicidade”.
Quando o que se quer ser corresponde ao que se pode, atinge-se o ápice da alegria, para não dizer felicidade. Mas isso acontece raramente e, quando acontece, não necessariamente é duradouro. Então, por prevenção, é melhor (por mais seguro) saber e ir em busca do que se pode. O comum, todavia, é tomar como norte o que se quer ser (ou ter, um desvio não raro).
Mas há um problema nisso: como encontrar o modo e os meios a serem utilizados para se saber o que se quer ser, além dos caminhos para ir em busca desse ideal, face aos obstáculos sempre existente no trajeto. Uma pessoa tem que ter boa noção (completa nunca será) do que deseja ser, assim como do porquê de ainda não ter chegado lá e de o que fará para chegar. Problema muito sério, na verdade, este, que muitos não resolvem nunca.
Na busca de solução, inevitavelmente, o sujeito terá que se esgueirar com seu ser/desejo de ser (todo mundo é isso, um ser/desejo de ser) entre muitos outros portadores de diferentes e iguais seres/desejos de ser. É nessa batalha diária que irá se deparar com o “ser o que se pode” de Valter Hugo Mãe: o que um quer, não é uma dádiva da natureza, mas uma construção, um conjunto de articulações com todos os demais à sua volta – coisa conflituosa. Diante, ainda, do desafio adicional de se ter que evitar a resignação estúpida: aceitar afirmativas do tipo “não ponha as asinhas de fora: fique no seu lugar”.
Os influenciadores digitais são figuras que se propõem a resolver, para os outros, esses problemas todos, sob a promessa de abreviar o tempo e esforços para isso. Embora não sejam incomuns os tais influenciadores incapazes de influenciar a própria vida do modo que recomendam para terceiros.
É triste constatar diariamente o quanto as pessoas – jovens, maduras e até idosas, mesmo – apresentam uma propensão a serem digitalmente influenciadas: condição sem a qual não existiriam influenciadores digitais, mas que, de resto, impediriam a existência também de influenciadores analógicos...
Então, a natureza do problema aqui discutido não é se a influência recebida é analógica ou digital: tem a ver, isso sim, com a disposição das pessoas para receber influência, e com a profundidade com que aceitam terceirizar a busca de descobertas essenciais modo de ser que almejam. Uma coisa é se deixar influenciar, por exemplo, pelo que falava e escrevia o intelectual que hegemonizou todo o século XX, o que exigia refletir o que ele oferecia a partir de toda uma vida de construção de raciocínios, ideias, debates, posicionamentos. Outra coisa, muitíssimo inferior, é se deixar levar por qualquer Zé Mané ou Maria da Esquina que está em busca de auditório digital e, para isso, se dirige à sua audiência com o que ela quer ouvir, apenas confirmando aquilo em que esta – mal-informada, sem esforço de raciocínio – já acredita (não se diga pensa).
Caso se queira um futuro melhor, do ponto de vista do pensamento e também dos sentimentos, será necessário cultivar e incentivar a figura do desinfluenciador digital, para que ele contribua para resgatar os milhões e milhões de influenciados das garras dos influenciadores digitais, que se multiplicam na internet mais rapidamente do que tiririca em solo fértil sob doses convenientes de sol e chuva.
Como e onde, contando com quem, é possível formar um batalhão de desinfluenciadores digitais? Dia desses, quem sabe, me debruçarei sobre esse imbroglio. Por agora, termino chamando a atenção para o paradoxo do desinfluenciador digital: para desinfluenciar é necessário, inevitavelmente, influenciar – isso é possível?
Se um dia eu matar essa charada, juro que serei desinfluenciador digital. Quem viver verá. Se souber e quiser...




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