Os irmãos que amavam os índios (Diário da Biblioteca – XV, 13/07/2026)
- Valdemir Pires
- há 2 dias
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Os irmãos que amavam os índios

“A narrativa do índio é sempre minuciosa. Ele é a criatura do
detalhe.” (Orlando e Cláudio Villas Bôas)
Indo de casa à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” para devolver A marcha para oeste, dos irmãos Villas Bôas, sinto como se o meu carro fosse um barco rústico, com o qual eu estivesse me transportando de volta da selva do Brasil Central para o meu lugar no Sudeste industrial onde moro, pois desde que comecei a ler este livro fabuloso senti-me levado para aqueles rincões inexplorados do país quando os Villas Bôas para lá foram, em busca de aventuras, participando da histórica Expedição Roncador-Xingu (1943-1948), subordinada à Fundação Brasil Central (FBC), criada por Getúlio Vargas, em 1943, para promover a chamada “Marcha para Oeste” do país (extinta em 1967, dando origem à SUDECO – Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste).

Até então, a minha noção de selva era a de uma imensa extensão de área coberta de vegetação densa, cujas bordas não podem ser vistas nem mesmo de dentro de um avião acima das nuvens, movendo-se em alta velocidade: um mar de árvores, que eu jamais poderia imaginar, conhecedor que era, até então, apenas de matas (como a da Fazenda Mata Negra, de Araras). Esta noção da imensidão vegetal amazônica, eu adquiri quando, voando pela primeira vez na vida, fui de São Paulo a Manaus, para participar, de 28 de fevereiro a 5 de março de 1993, do XII Congresso do ANDES-Sindicato Nacional, representando a Adunimep. Lembro-me do espanto que tomou conta de mim, olhando pela janelinha do avião, meus colegas rindo do quanto me embasbaquei.

A selva, de dentro, eu nunca vi, presencialmente. O máximo que experimentei foi passear (cheio de medo) de canoa, conduzida por entendidos na arte, entre igarapés, em Manaus; e navegar num barco de turismo nas águas do Amazonas, indo até onde se dá o encontro entre o Negro e o Solimões, podendo ver, no trajeto, de longe, os índios que habitam as margens. Mas os quatro olhos dos irmãos Villas Bôas, mediados pelos seus dedos escritores, me levaram para dentro da floresta selvagem (ajudados, acrescente-se, pelas belas 71 fotos em preto e branco que seu livro, aqui comentado, traz entre as páginas 224-225 e 416-417). E, confesso, fiquei ainda mais embasbacado do que naquela ocasião em que sobrevoei a floresta amazônica. Terreno, vegetação, rios, animais, índios – todo um mundo é trazido à sensibilidade do leitor de A marcha para oeste, de um modo tão vivo que ele sente como se estivesse caminhando ao lado dos participantes da epopeia de ocupação do Brasil Central, transpirando a cântaros, com sede, com fome, sendo quase devorado pelos insetos. Sim, Orlando e Cláudio Villas Bôas narram minuciosamente, são criaturas do detalhe (onde, dizem alguns, mora Deus; onde mora o diabo, afirmam outros; enquanto alguns, rejeitando o maniqueísmo, acreditam residir o amor).

Ao lado disso, quem lê este livro se aproxima de um modo muito especial (vivo, radiante) daquilo que é a verdadeira história do Brasil. Por um lado, uma história de poderosos de plantão (eleitos ou catapultados por golpes, os “grandes” e, os menores, colocados em posições de pequeno e médio mando por meio de jeitinhos convenientes ao status quo, como, por exemplo, colocados em cargos de “livre nomeação”) sempre a serviço dos “donos do lugar” (depois de tê-lo roubado dos índios), a troco de pequenos e às vezes grandes privilégios para ajudá-los a manter todo um povo ignorante e em condições de vida miseráveis. De modo leve, sem uma palavra de julgamento em toda a narrativa, emerge emblemática a figura do tenente-coronel Floriano de Mattos Vanique:

“(...) chefe da guarda pessoal do Presidente da República [Getúlio Vargas] e que, por indicação do próprio presidente fora convidado a chefiar a Expedição [Roncador-Xingu]. Inicialmente o chefe da guarda relutou em aceitar o convite. O ministro [João Alberto Lins de Barros – da Coordenação e Mobilização Econômica] conseguiu convencê-lo. Falava-se no palácio que já havia algum tempo o presidente desejava afastá-lo. As más línguas iam mais longe: diziam que o Brasil avançou para o oeste só para que o presidente pudesse se livrar de um incômodo no Catete.” (p. 35) (Incômodo, aliás, que antecedeu um outro e definitivo, gerado também por um ocupante do mesmo cargo, Gregório Fortunato, o Anjo Negro, envolvido no atentado da Rua Tonelero, bem narrado no romance policial Agosto, já comentado neste Diário.)
Esse militar aparece numerosas vezes no diário dos Villas Bôas, em quase todas elas deixando de fazer o que deveria estar fazendo (às vezes simplesmente sumindo) ou atrapalhando o que outros estão fazendo a bem do avanço da expedição que formalmente comanda. Em nenhum momento ele é chamado de corrupto, mas há um episódio (no ano de 1948, cfe. p. 352) em que ele tenta se apropriar “amigavelmente” de umas pranchas de madeira que os expedicionários, com imenso esforço (dada a falta de infraestrutura, que o militar deveria estar provisionando e não o faz) estão preparando, extraindo madeira da mata “a unha”; foram precisos complexos ardis para evitar a disfarçada apropriação indébita. O leitor atento bem pode ficar com a impressão de que Vanique não passava de um lambe-botas que, talvez sabendo demais, foi acomodado num cargo público para cujo exercício não tinha a menor habilidade ou disposição: comandar homens na selva, quando estava acostumado a ser um policial superpoderoso na capital do país. Tanto assim que logo seguiram-no antigos comandados no Catete, que terminaram por cometer arruaças tremendas enquanto participantes da expedição (chegando a prender numa cela, de que jogaram fora a chave, um delegado que quis freá-los em seus abusos): coisa, afinal, tão comum na história política do Brasil.
Só tardiamente (depois de se casar novamente, após o suicídio da primeira esposa, e praticamente se manter no Rio de Janeiro) Vanique foi retirado do comando da empreitada de avanço rumo ao Brasil Central, assumido, em janeiro de 1949, por aquele que sempre a levara avante, junto com os irmãos: Orlando Villas Bôas.
Orlando, Cláudio e Leonardo – filhos de falidos agricultores paulistas – eram homens talhados para o que realizaram durante décadas, como sertanistas e indigenistas que se tornaram (nunca saberemos como nem porque, apenas suspeitando que tenha sido por idealismo e espírito de aventura, catalizados por inspiração vinda do Marechal Rondon). E eles sabiam se relacionar com “os de cima” (políticos, militares e burocratas) e com “os de baixo” (sertanejos e índios) para “fazer a roda girar” e a picada avançar. Eles sempre se deram bem, externando sua gratidão, registrada no diário-livro, com algumas dezenas de pessoas que, quotidiana e concretamente atuaram de modo a justamente serem incluídas entre os heróis anônimos da marcha para oeste. O tempo todo, na narrativa, são tecidos louvores a médicos, enfermeiros, pilotos de avião, operadores de rádio e trabalhadores braçais (ainda que alguns desses fossem antigos garimpeiros, tropeiros e assemelhados, com densa ficha criminal) e índios.
Nas páginas 219-220, são mencionadas figuras notáveis da expedição, com destaque para os “sertanejos”: José Acelino de Almeida (velho Piauí, ex-garimpeiro), Félix (ex-policial de captura de Goiás), Elias, Zacarias (“cafuso sempre presente para qualquer serviço”), Perpétuo, Umbelino Nepomuceno (Baiano, cabeça-dura), Cassiano, Nicanor (sempre disposto a brigas), Raimundo, Nelson, Luís Valadão, João Coisa-Boa, Eduardo (motorista, orgulhoso de sê-lo, sempre recusando “desvio de função”), Sebastião Garibaldi (telegrafista), Aires Câmara Cunha (auxiliar de enfermagem, dono do bordão “Maravilha de natureza, seu compadre!”). Também houve situações em que foi preciso energia e decisão para se livrarem de alguns indivíduos “complicados”, como quando um aconteceu de um trabalhador “não soube respeitar as índias” ou quando, disseram “Dispensamos o trabalhador Nascimento, por ineficiência. Aliás, no dia que chegou registramos a nossa pouca confiança no seu serviço; o jeito, a cara, os modos não o recomendavam.” (p. 274)
Os brancos com quem a Expedição contava não iam muito além dos índios no que diz respeito ao conhecimento do mundo civilizado. Além de violentos, supersticiosos e, alguns, festivos cantores de cururu (na p. 76 estão versos dos velhos Cuca e Félix, e de João Preto e Joaquim Come-Língua, lembrados por Orlando e Cláudio) e contadores de histórias, “Convém lembrar que (...) também não conheciam cinema e, embora mais reservadamente, ficaram tal e qual os índios, entusiasmados com a coisa [uma projeção de filme feita para eles na selva]. E o mais interessante não é isso, e sim trabalhadores sertanejos que já tivemos, e ainda temos, que conhecem, viram e andaram de avião, mas desconhecem completamente automóvel. Trem, então, nem se fala, não fazem a menor ideia.” (p. 297). Trator e helicóptero (p. 542), aliás, são máquinas que aparecerão no diário da Expedição somente no final, quase que já às portas do recém-criado Parque do Xingu (1961), assim como força e luz (p. 540).
Índios (sempre abundantemente presenteados por utensílios, ferramentas e colares, para facilitar a aproximação, o que evoca o primeiro encontro com os portugueses), são muitos os nomeados ao longo de todo o livro, de caciques e pajés a mulheres, jovens e crianças, de numerosas tribos e famílias. Desde o primeiro encontro com os xavante, em 25/07/1945 até a atração, mais tarde, txucarramãe (ou caiapós), dos txicão e dos krinkatiree (suiá), muitos foram os personagens indígenas de destaque na saga relatada. Dizem os indigenistas (p. 277): “É oportuno lembrar que a região do alto Xingu, por movimentos migratórios ainda não estudados (...) reuniu representantes das quatro grandes famílias linguísticas indígenas do Brasil, classificadas de acordo com as suas características culturais: tupi [kamaiurá, awéti] caribe [kalapalo, kuikuro, matipu, tsuva, aipatse], aruak [waurá, mehinoko, yawalapiti] e jê [suyá ou krinkatire, memkrognotire], e algumas ainda com seu dialeto. Incluem-se, também, línguas isoladas, que são aquelas que não se enquadram nas famílias citadas.”; e acrescentam, posteriormente, os iarumá, nahukuá, txicão, juruna, waurá, além dos desaparecidos anumaniá, tonori, urupatsi, auara, cutenabu (os coletivos sempre sendo denominados no singular): os juruna, por exemplo. E reconhecem, no final (p. 537): “Euclides da Cunha, se tivesse conhecido o índio, teria, por certo, alterado, com relação a ele, a sua máxima dedicada ao sertanejo: ´antes de tudo é um forte...´ Teria, sem dúvida, acrescentado: ´Não se fanatiza nem perde a oportunidade de rir de tudo´”; e, mais adiante (p. 541): “Os trabalhadores do BEC, que no momento estão acampados ao nosso lado, ficaram impressionados com a disposição dos índios na Expedição. E há quem diga que o índio é indolente....”
Os Villas Bôas não se cansam de explicitar sua gratidão pelos que os ajudaram. São muitas as menções aos voos, às aeronaves (heroicas sucatas doadas pela Força Aérea Brasileira: WACO, TGP, Fairchild e Paulistinha) aos pilotos do CAN (Correio Aéreo Nacional) e à perícia e dedicação de alguns pilotos de teco-teco, tão presentes e indispensáveis. Sem o CAN e sem os pilotos de teco-tecos que ligavam a vanguarda à retaguarda da Expedição (numa verdadeira “pinguela aérea” – apelidaram), no seu avanço, a empreitada se tornaria impossível, inclusive porque não haveria os voos de reconhecimento prévio necessário como apoio ao pessoal de terra. Tanto que a cada progresso no terreno, o que tinham que fazer, junto com as instalações precárias para permanecerem no lugar, era construir uma pista de pouso (à base de enxadas, machados e facões). Registram (p. 458): “Não sabemos se já existe um dia da aeronáutica civil ou do ´piloto civil´. É possível que sim. Temos dia de tudo neste país. Justo seria que, naquele dia que fosse o da ´aeronáutica´, houvesse uma menção especial ao piloto civil do sertão. Pilotos de teco-teco, de táxi-aéreo, que cortam regiões isoladas, descendo em campinhos, saindo de varjões, levando remédios e trazendo doentes. Heróis anônimos.”
Ajudam por demais, nos transportes, também os fabricantes de canoas (especialmente os índios, que as fazem com cascas de jatobá – como, é detalhadamente explicado nas páginas 310-311) e os construtores de batelões (um ou outro sertanejo habilidoso, que era preciso atrair), além dos “motoristas”, também várias vezes mencionados por sua perícia. E há os telegrafistas e operadores de rádio, sempre elogiados, exceto um tal Celino, que por páginas e páginas é criticado (ridicularizado, melhor dizendo) de maneira muito bem-humorada, por tantas vezes deixarem os expedicionários “na mão” por sua imperícia constante:
“A estação foi toda examinada e considerada boa. A fonia ficou funcionando bem. Não são falhas da estação os nossos horários truncados [contatos falhos], Senhor Técnico, é o nosso risonho operador que tem uma válvula queimada.” (p. 270)
“Nosso rádio funciona admiravelmente bem, desde que não haja mensagem para ir e vir...” (p. 295)
“Não temos tido comunicação com o Kuluene. Eles estão mudos. Com certeza pane, que pode ser dos aparelhos, do motor ou ´antropológica´. Como a situação lá é idêntica à daqui [todos passando fome], não é nada impossível que o Celino [operador de rádio deslocado para o Kuluene] tenha comido a estação.”
Os médicos, por sua vez, são quase endeusados (com destaque para o dedicado dr. Noel Nutels), por constantemente salvarem vidas de sertanejos e índios, afetados não só pela malária reinante, mas também por crises geradas por desnutrição e ingestão de alimentos estragados.
Um fotógrafo é explicitamente elogiado (Manzon, cujo auxiliar era Marcel Cognac: “Manzon não fotografa, ele fixa quadros e tipos.”), mas não tão afetivamente quanto os cachorros, que aparentemente prestavam mais serviços do que os burros e mulas (muitos mortos por exaustão no transporte de cargas) na trabalheira diária (caça, detecção e afastamento de intrusos – animais perigosos ou índios bravos). No Natal de 1948, este registro:
“Por uma coincidência, Borduna [um dos cães da expedição] descansava a pata machucada sobre uma folha de revista onde se via a fotografia de um cãozinho peludo detentor de um prêmio numa exposição. Se numa exposição desse tipo valesse a ´folha de serviço´, o que apresentaria esse mimoso peludinho? Nada, a não ser o paladar educado capaz de consumir leite vitaminado, presunto, rações especiais e coisas finas.
Dirão os entendidos que a raça apurada é a que vale. Ora bolas – diria o Borduna –, já se esqueceram o que aconteceu às criaturas da super-raça? Raça de galinha, vá lá, dá mais ovos. De vaca também, dá mais leite; de cavalo idem, corre mais. Mas de cachorro? Que se respeitem o útil São Bernardo, o pastor da vigilância, o fila pegador de bois, mas esses peludinhos comedores de presunto, esses fox lisinhos, antipáticos, isso não. Queria ver – continuaria o Borduna ou o Roncador – o que fariam esses grã-finos frente a uma onça; na batida dos porcos, no rasto de uma anta; na toca de uma paca; nas pegadas de um veado; queria vê-los correndo na mata, saltando paus, estrepando-se nos tucuns, furando grotas, atravessando rios e lagoas, esbarrando com jacarés, se alimentando quando há boia, roendo coco e comendo peixe. Queria vê-los, ainda, vigilantes a noite toda para dar o alarme na aproximação do índio bravo. Não dariam no couro esses bonitinhos, como, por outro lado, morreriam entediados os nossos vira-latas se, de coleiras vistosas, ficassem aguardando o julgamento do concurso.” (p. 457-458) (Talvez esta comparação entre cães sertanejos e cães citadinos tenha sido também uma alegoria para marcar a diferença entre os homens de frente da Expedição e aqueles que estavam “por trás” dela, nos espaços de poder, especialmente políticos e burocratas.)
Ainda que em tom de troça, Deus e alguns santos católicos comparecem como auxiliares nas jornadas dos sertanistas. Por exemplo: Deus, p. 523; anjo da guarda, p. 584; Santa Luzia, p. 455; na p. 449: “O nosso pacto com São Pedro é chuva só de noite.” Já o tempo, tem a face de um inimigo: “Nada mudou. A noite correu chuvosa. Só mudou o calendário, que aliás nunca tivemos. O sertão dispensa o compromisso com o calendário, que inibe a criatura, que escraviza, que nos empurra e nos refreia. Nada mudou, repetimos.” (p. 326); “Matamos o tempo antes que ele nos mate.” (p. 356)
Entre a Expedição Roncador Xingu (1943-1948) e a criação do Parque Nacional do Xingu (clara decorrência dos esforços e articulações dos Villas Bôas) e da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), muita água rolou, para não dizer suor e sangue. Este monumento geográfico (de grande extensão) à dedicação indigenista e ao próprio índio tem por alicerce um credo totalmente explicitado em passagem d´A marcha para o oeste:
“Temos sempre em mente que toda a sociedade brasileira tem para com o índio uma dívida imensa que não vem sendo paga [aliás até hoje]. Vítima de uma sociedade mais forte, ele teve de ceder a nosso favor um patrimônio que era seu, e isso para que pudéssemos nos transformar em uma nação. Hoje espalhados pelo imenso território não passam, eles os índios, de diminutas ilhas abandonadas pelos conquistadores que se arvoram em seus tutores.” (p. 537) Sendo o Brasil Central, nessa história, uma “(...) área de refúgio de índios de todos os quadrantes, pressionados pela invasão branca.” (p. 278)
É claro que muitos foram os momentos, durante as décadas heroicas da ocupação do Brasil Central, em que os sertanistas enfrenaram desânimo: falta de pessoal e de suprimentos e ferramentas, motores de barcos e rádios falhando incessantemente, asas de aviões quebrando nos voos arriscados, animais de carga morrendo de exaustão ou empacando, clima adverso (especialmente calor e chuvas), terrenos e rios quase intransponíveis, condições sanitárias arriscadas e sucessivas doenças, instalações precárias, fauna ameaçadora à espreita, índios bravos e arredios ameaçando ou evitando contado, descaso e até esquecimento da parte de quem deveria planejar e possibilitar a execução das ações etc. se um etcetera ainda couber. Nacionalistas que eram, os Villas Bôas garantiam hasteamento e arriamento diário da bandeira nacional nos acampamentos, cumprindo todo o ritual característico, inclusive discursos patrióticos nas datas cívicas, mas há uma passagem no diário assim, em reação ao descuido dos responsáveis pelos suprimentos (que em certa ocasião os privou inclusive de uma nova bandeira para substituir a danificada pelo uso):
“A República Nacional do Xingu sai a qualquer momento. Para garantir a nascente República, organizaremos o mais original exército do mundo – o Exército dos Nus [não lhes enviavam roupas]. Com mandioca e peixe [não lhes enviavam alimentos] aguentaremos mais brigas do que os homens do Conselheiro. Faremos do Kuluene um novo Vasa-Barris. A nossa maior arma secreta é enviar o Celino [o radio-operador que não funcionava, já mencionado] para as estações de rádio do inimigo.” (p. 314)
Assim, feito o índio que “Não se fanatiza nem perde a oportunidade de rir de tudo”, os Villa Bôas “tocavam em frente”, com bom humor, espargindo chistes nas páginas de seu diário, como esses:
Sobre a mortificante presença e ação contínua dos insetos:
“Marcamos hoje, 22 de fevereiro, como um dos dias mais quentes que suportamos nesta estação, e também o mais rico em piuns e maruins. Pode ser muito bem que o dia de hoje seja uma data festiva para esses insetos, ou então, quem sabe, o congresso nacional da espécie.” (p. 467)
“Temos a impressão de que aqui é o quartel-general dos borrachudos e seus afins.” (p. 542)
“Duvidamos que a horta vingue. Isto aqui é a pátria das formigas. Dia virá em que chegarão à conclusão de que foi aqui o centro de dispersão da saúva.” (p. 305)
Sobre os frequentes episódios de fome:
“(...) de alguns dias para cá, não temos tomado café, simplesmente porque há muito não temos café. Em compensação temos nos servido de chá. Um chá diferente, sertanejo. O nome é sugestivo: ´chá de quarqué foia´. (p. 346)
“Amanhecemos hoje com o mesmo apetite com o qual deitamos ontem. Houve quem sonhasse com ovo de tracajá. Um mais requintado, chegou a sonhar com ´virado de feijão com linguiça e ovo frito´. Como sonhar não é proibido, todos amanheceram mais ou menos alimentados.” (p. 346)
“Um macuco (a melhor caça de pena) ´poeta´, que estava piando fora de hora, foi convidado a reforçar o nosso jantar.” (494)
“Pescar à noite é sempre bom. Mas muitos têm tentado e nada conseguido. Os peixes daqui dormem cedo.” (p. 448)
“Em verdade o melhor mesmo seria que a vanguarda só trabalhasse, não comesse. Esse negócio de comer dá um trabalho danado para a retaguarda.” (p. 449)
Sobre problemas com a “pinguela aérea”:
“Ele [o piloto] estava a quarenta minutos daqui e a uma hora e meia de Xavantina, ficou indisposto e resolveu enfrentar a hora e meia! Há manobras que a razão desconhece!” (p. 347)
“O CAN, obediente às recomendações do brigadeiro Ivo Borges, continua não vindo ao Xingu. Não obstante o campo esteja firme. Parafraseando o axioma ´há razões que própria razão desconhece´, podemos dizer que ´há razões que a própria aviação desconhece´” (p. 455)
Sobre as condições sanitárias e dificuldades com equipamentos:
“Interessante isso. Rio das Mortes, com 250 metros de largura, sem população a montante, água azul correndo sobre pedra, com inúmeras cachoeiras e saltos (...) ter água mais impura que esta nossa da lagoa – suprida apenas por um corregozinho que cai na cabeceira. Ciência é ciência, assim como lei é lei, não há como protestar, mas que é gozado, isso é.” (p. 307-8)
“Com reza, chave de fenda e alicate, voltou a funcionar [o rádio].” (p. 222)
Sobre excentricidades de algumas pessoas:
“Tudo corre normal: o dr. Noel catando pernilongo; o dr. Sick estudando passarinhos e o pessoal empenhado na capina.” (p. 274)
“Diz ele [Aires Câmara Cunha] que voltou noivo de Aragarças, da filha de um fazendeiro, chamado Moraes. Não duvidamos. É possível até que a moça saiba.” (p. 213)
Frente a tantas dificuldades e reveses, fica difícil imaginar quais eram as fontes da resistência dos Villas Bôas (além do riso) em sua luta em defesa do índio e da ocupação do Brasil Central preservando sua cultura. Mas uma delas certamente é o fascínio que tinham pela floresta e pela vida selvagem. Seu diário/livro cantam-nas e descrevem-nas, no geral e nos detalhes:
Espaço: “Esses campos e lagos são verdadeiras clareiras abertas pela própria natureza na cobertura maciça das grandes matas. Estas são excepcionalmente densas. As copas altas dos tarumãs, dos jatobás, dos paus-d´arco, dos tamboris, dos angicos e das gameleiras se entrelaçam formando um teto compacto. Os enormes e retorcidos cipós-de-mucuna, enleando os grandes vegetais, parecem querer estrangulá-los num abraço sem fim, enquanto os cipós-de-imbé, enlaçados nos galhos mais altos, descem livres, paralelos aos troncos, dando a impressão de fios de um tear imenso. Esta selvagem região não é apenas um hábitat de tribos indígenas, mas também um paraíso da fauna.” (p. 240241). (Eis a mata vista de dentro, e não de cima, como eu vi.) Que “Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá”, que nada... com todo respeito a Gonçalves Dias. Minha terra tem as selvas / (complete o verso o leitor com dom poético)
Tempo: “O sol estava a pino. Era a hora da quietude geral. Em qualquer ocasião, na solidão da selva, tem-se a impressão de que nessa hora do dia a natureza descansa. Aquietam-se as folhas nas árvores; cessa o sopro do vento. Mais devagar parecem correr as águas do rio e até os encaxoeirados revoltos não estrondam com o mesmo vigor; as aves não voam, os animais terrestres não caminham. A natureza toda dorme por um instante. E o índio repousa.” (p.601), como nós deveríamos também fazer, no que os vizinhos de língua espanhola chamam siesta.
A água e os seres vivos, madeiras e comida: “Anteontem cruzamos um córrego de água bonita. Hoje estamos em plena mata seca. Embora as valas entre morros e os planos e baixios se alternem, há sempre um lugar que ofereça cacimba. Não é uma água boa como a de um córrego, mas é sempre melhor que a do cipó.” (p. 492) Ou seja, água mesmo onde não se estão num ou diante de um rio caudaloso. “O vale do Xingu tem uma fauna riquíssima. (...) jacarés, tracajás, sucuris, ariranhas, (...) piratingas (...) piranhas (...) queixadas, caititus, quatis, tamanduás, pacas, veados, cervos, (...) onças-pintadas (...) antas (...) anhumas, siriemas, araras, gaviões-de-penacho, acauãs, harpias (gaviões-reais), jaburus, garças-brancas, gaivotinhas, socós-boi, mutuns, jacubins, jacomins, jaós, amambés (...) (p. 265-266) Pesca boa: “(...) principalmente peixe de couro: piraíba, Piratininga, jaú, pirarara e outros parentes menores de melhor paladar – pintado, surubim, filhote, barbado etc.” (p.442) “A enchente que começa vem tocando para longe as varas de porcos-do-mato (queixada, caititu), os veados, as antas, as pacas etc. Hoje foram para a panela o lombo e uma perna de jaguatirica ´assassinada´aqui perto. Com a chegada dos índios que vieram lá de cima, começamos a comer peixe. Peixe bom pego na flecha: matrinxã, tucunaré, jaraqui e outros. Ontem eles trouxeram quatro tracajás.” (p. 159) As frutas da mata são a graviola, o tatutuá, a cajazinha-do-cerrado, o coco, enfim, todos juntos não valem uma banana.” (p. 359). Mas tem pequi, para juntar ao arroz e carne. Árvores, além das já citadas: “De certa altura em diante temos encontrado muita madeira por nós desconhecida. No rol das conhecidas relacionamos: almescão, mururé, pindaíba, sucupira-da-mata, caju-de-janeiro, tarumã, faveira, murici, pau-mirim, pau-de-óleo, joaru (tucum verdadeiro), inajá e outras. Na margem dos córregos, muito buriti.” (p. 482). Na região do São Benedito: figueira, paineira, jaracatiá, itaúba, peroba, ipê, muracatiara, mogno (p. 560)
O rio que tem razões indígenas que a razão do civilizado bem conhece, embora não respeite: “O Maritsauá passou a ser para nós um rio hostil. É um rio índio, não quer saber de civilizado. Pensando bem, ele tem razão. Vamos derrubar árvores, abrir campos que não passarão de feridas nas suas matas fechadas, fazer barulho, agitação, quebrar, enfim, a sua tranquilidade milenar. Prefere ele viver áspero, bruto como nasceu. Que vá a maquinaria do progresso descer em outros vales. Aqui não. Aqui bastam os ruídos que são os seus, o estrondo das árvores arrancadas pelo vento e o barulho das águas volteando os pedrais. O rio está nos expulsando.”(p. 434)
Este “entender o rio”, em sua pacífica mas enérgica manifestação repulsiva, revela a profunda diferença entre os historicamente conhecidos (violentos e cobiçosos), bandeirantes “paulistas” e os jovens paulistas que se tornaram os principais indigenistas brasileiros: enquanto, no processo governamentalmente patrocinado (primeiro de fora – por Portugal, depois de dentro – por Getúlio Vargas) para a conquista do Brasil profundo, os primeiros buscavam riquezas para si, à custa dos índios, enquanto os últimos buscavam os índios, amealhando não riquezas materiais, mas uma experiência de vida aventurosa que não há ouro ou pedras preciosas que possam pagar. Bandeiras diferentes, hasteadas visando a constituição de diferentes nações, com diferentes valores (ainda hoje em confronto na política e na economia nacionais), no mesmo território. Ambas as bandeiras fincadas ou hasteadas com enorme e admirável empenho humano (para o bem e para o mal), com auxílio de tecnologias precárias mesmo nas respectivas épocas; o que dizer, então, face às atuais?
Apesar do rio índio esforçando-se para expulsá-los, assim repelindo o “processo civilizatório” (para lembrar Darcy Ribeiro, que, no antigo Serviço de Proteção ao Índio, redigiu o projeto de parque nacional indígena concebido pelos Villas Bôas) que o ameaçava e à “sua gente”, os três irmãos (Orlando, Cláudio e Leonardo) não arredaram pé de seus intentos. Abriram caminho para a formação de vilas e vilarejos que se tornaram cidades, algumas hoje bem grandes para os padrões brasileiros e mormente para aquela área do território nacional, mas esta história, é apenas em poucas páginas esboçada no capítulo 14 d´A marcha para oeste, os próprios autores remetendo os interessados em melhor conhecê-la à obra de Durval Rosa Borges, Rio Araguaia – corpo e alma, que assim que puder, lerei. E, quem sabe, um dia não visitarei o hoje denominado Parque Indígena do Xingu, objeto de apenas duas páginas no livro dos Villas Bôas?
Os obstáculos que os Villas Boas tiveram que enfrentar para fazer o que fizeram, mudando a cara e também um pouco do caráter do Brasil Central e, junto, de todo o país, não foram apenas aqueles encontrados no terreno, no lugar, na fauna, na flora, dentre os habitantes e aventureiros que para lá se dirigiam em busca de riquezas; eles se fizeram presente na própria organização e ao longo de todo o processo da empreitada governamental em que estiveram envolvidos por praticamente toda sua vidas adulta. Primeiro, tiveram que passar por rústicos para conseguir ingressar na Expedição Roncador-Xingu (depois de recusarem a candidatura deles quando se apresentaram “de cara limpa”); posteriormente tiveram que liderar (como espécie de castigo por terem se oposto ao apoio armado militar ou policial) a entrada numa área dominada por índios bravos, que ameaçavam quem se aproximasse. Houve momento crítico (p. 446) em que foram obrigados a mentir, em mensagem ao general Borges Fortes, para a marcha não ser interrompida: disseram que chuvas não atrapalhariam, quando estavam sendo torrenciais; e que os suprimentos eram o bastante, quando já não estavam sendo suficientes – e conseguiram ser liberados, apesar da clara oposição do coronel Vanique. Como sem aviões nada poderiam na selva, as dificuldades para consegui-los, mesmo sendo sucatas da FAB, sempre foram enormes; tinham que se contentar com sua precária “pinguela aérea”: “Chegamos a sonhar com um Nortwind, um carroção obsoleto, praticamente encostado pela FAB, mas que em verdade é o ideal para os nossos campos. É pesado, come campo, mas compensa pela carga que transporta.” (p. 342). Uma vez, para tomar conhecimento de como a expedição e seus resultados estavam sendo avaliados “lá em cima”, tiveram que aguardar que lhes chegasse um número atrasado (em março de 1948) da hoje historicamente famosa Revista do DASP contendo um relatório produzido por uma comissão nomeada para este fim em maio de 1947. A relação e as comunicações entre comando central, retaguarda e vanguarda não eram lá essas coisas. E isso tornava precária toda a logística, baixando com frequência a moral da tropa que, de fato, não era numerosa (era de fato insuficiente para as tarefas implicadas) nem dotada de meios adequados. Mas existiam os Villas Bôas, eles estavam lá e lá permaneceram até o fim, Leonardo não sobrevivendo para ver o tamanho da façanha, sua memória preservada no nome do Posto Leonardo, uma base histórica no Parque Indígena do Xingu. Orlando, morto em 2002, foi homenageado pelo principal ritual xinguano em homenagem aos mortos, o Quarup; da mesma maneira Cláudio, em 1998.
Enquanto lia A marcha para oeste, ia me dando vontade de conhecer um pouco mais a respeito de seus autores, esses idealistas consequentes e tenazes. Então combinei manter-me na lida com a mídia impressa e buscar mídia virtual como apoio. Assim, no Youtube encontrei e assisti com gosto a participação de Orlando Villas Bôas numa edição do Roda Viva da TV Cultura de 1993. Isso enriqueceu deveras a continuidade da leitura, durante a qual eu me mantinha perguntando: “Quem escreveu o que, que partes, neste diário, se dois são os autores? Impossível que tudo tenha saída a quatro mãos.” As falas de Orlando na entrevista contêm algumas repetições e um quase bordão ou cacoete (“de tal arte”) que se tornou relativamente fácil perceber sua escrita predominantemente a partir do capítulo 8. Mais tarde, assisti também uma entrevista concedida por Orlando Villas Bôas Filho à TV Câmara São Paulo, em 2017, curioso para saber como este vê e compreende o pai e seu legado, descobrindo que ele o faz com apreço e admiração, à sua maneira dando continuidade à luta em defesa dos índios e das minorias, como o pai, também criticando, como o velho, os rumos que a política em defesas dos índios e a Funai tomaram ultimamente. Do outro filho de Orlando, Noel, pude ver um conjunto de vídeos no canal do Youtube dele, que constituem um pedaço bonito da memória da saga do pai e dos tios – é um belo complemento às fotos que o livro aqui comentado traz. Quanto ao livro, caso uma nova (e oportuna) edição venha a ocorrer, seria bom que trouxesse um índice onomástico e também um glossários sobre vegetação/árvores/madeiras, animais (terrestres, aves e peixes), rios e córregos, localidades, aviões da “pinguela aérea” etc.).
[Dedico esta crônica/resenha ao professor Roberto Carlos Miguel, colega na UNESP/FCL-Araraquara, entusiástico participante de numerosas operações do Projeto Rondon, desde 2006; e ao administrador público Aaron Emmanuel Paronetto Caetano, ex-aluno no mesmo campus, e que, acompanhando Roberto numa das operações (2013 - São João de Pirabas PA), voltou fascinado pelo que lá viu e fez (e imaginando o que ainda poderia – e de fato, ainda hoje, pode – ser feito), desenvolvendo seu TCC a respeito da experiência, sob minha orientação.
Ao mesmo tempo, recomendo a leitura desta crônica/resenha, bem como do livro de que trata, a todos os estudantes do Campo de Públicas, chamando a atenção para o quanto a experiência vivida pelos irmãos Villas Boas, na “Marcha para Oeste”, revela e desvenda do que há, de bom e de ruim, às vezes de perverso, nas relações de poder (política) e nas estrutura e nos processos da “máquina pública” (administração), potencializando ou atrapalhando o atingimento de objetivos coletivos e nacionais plasmados em iniciativas governamentais.]
(Continua)
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