O homem que, confessadamente, amava os gatos (Diário da Biblioteca – XV, cont., 13/07/2026)
- Valdemir Pires
- há 2 dias
- 4 min de leitura
O homem que, confessadamente, amava os gatos

“Ler para perguntar.” (Franz Kafka)
Os irmãos Villas Bôas diziam que na floresta há sempre o que comer e o que beber, embora as opções não possam variar muito, no momento em que a necessidade se apresenta: para beber, água de córrego (a melhor), de cacimba ou de algum cipó (a pior, mas que ajuda muito em terreno seco); para comer, macaco nunca falta em terra (nas árvores), nem piranha (no mínimo) em água.
De modo similar, quem tem sede ou fome de ler, na cidade, tem sempre onde encontrar um livro: na livraria (mais caro), no sebo (mais barato), na biblioteca pública (gratuitamente); embora as opções não possam variar muito, no momento em que a vontade se apresenta. Com paciência e esperando ou fazendo a ocasião, na floresta se pode comer uma onça, um porco-do-mato, um pintado, um matrinxã. Com paciência e esperando ou fazendo a ocasião, na cidade é possível conseguir o que se queira para ler.
Pode-se tentar primeiro na biblioteca (grátis), depois no sebo (barato) e, por último, na livraria (caro), querendo-se economizar – quando possível – se a vontade, em princípio, não é possuir em casa o livro. É o que tentarei fazer, hoje, buscando na Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” o livro Orientação dos gatos, de Julio Cortázar.

De fato, desta vez vou renovar o prazo para devolução d´A marcha para oeste (quero reler umas passagens de que gostei demais), vou pegar o há muito desejado Uma história da leitura (de Alberto Manguel) e mais este dos gatos, de Cortázar. Por quê? Primeiro, por nunca ter lido nada dele (apesar de ter em casa Bestiário); segundo porque durante um café com Tito Kehl ele me recomendou um título deste autor argentino (por escolha, já que nasceu na Bélgica, em 1914); terceiro porque ontem à noite calhou de assistir, no Youtube, uma ótima entrevista que Cortázar deu a um excelente entrevistador da RTVE (Encuentros con las letras), em 1981, três anos antes de morrer. Nessa entrevista, ele confessa seu amor pelos tigres e pela miniatura de tigre que é o gato – cujo qual aparece já no título da obra que pretendo conhecer como introdução a autor. (Note-se: Não fossem a web e o Youtube, esta conexão entre mídias – TV/telespectador-biblioteca/leitor – jamais teria existido.)
-.-

Cheguei à biblioteca pouco depois das dez horas do dia friozinho e parcialmente nublado, intencionando lá permanecer até ficar com fome e ter que procurar almoço. Ao estacionar, deparei como uma cena inusitada, comovente e alentadora: um rapaz, sentado no chão, encostado na parede lateral da escadaria da entrada, ao lado de uma moto (aparentemente dele, talvez entregador), lia um livro (aparentemente mergulhado nele), tendo outros sobre o veículo. Vi cena semelhante há muito anos (2006?), em Araraquara – no caso, um mendigo.

Ao entrar, fui primeiro pegar Uma história da leitura (que já sabia existir no acervo), depois fui procurar Orientação dos gatos, descobrindo que pouco há de Cortázar na biblioteca (menos do que pareceu à olhadela na porção de livros com seu nome, porque entre eles havia dois ou três de outros autores, fora de lugar). Para não dar totalmente o braço a torcer à decepção, dei uma olhada nos títulos existentes e escolhi, para levar, o curtinho História de cronópios e de famas, porque a tradutora (Gloria Rodríguez), em nota preliminar, diz que “Na obra de Júlio Cortázar, as Histórias de cronópios e de famas não se situam como uma ilha à parte. Ao contrário, elas são muito elucidativas de uma visão característica do autor (...)” (p. 9). Mas fiquei de olho em dois outros daquela estante (mencionados na entrevista à RTVE), que ficarão para outra ocasião, considerando também o que diz Júlio Pimentel ao recomendar, no Nexo, livros para conhecer Cortázar.
Com os livros em mãos, dirigi-me ao local da “minha mesinha”, para a costumeira primeira abordagem das obras. Ela havia sido deslocada para as proximidades do vidro da fachada do prédio e estava ocupada por outro leitor, de costas para a luz que entrava. Talvez tenha sido ele a deslocar o móvel a fim de se favorecer de melhor ângulo dos raios de luz para ler, aparentemente muito míope que era, a julgar pelas características dos óculos. Escolhi outra mesa, sentei-me.
Comecei inspecionando Cortázar. Livro escrito entre 1950-59, entre Roma e Paris, publicado originalmente em 1962; elogiado pela tradutora; primeira parte do “Manual de instruções”, exuberante. Ótimo, vou ler com gosto.
Inspeção de Manguel (argentino, optou por nacionalidade canadense): contracapa, orelhas, primeiro capítulo (com quadros e fotos de “poses” leitores ao longo da história) “agarrantes”. Contém uma página de agradecimentos que se dirigem a muitas pessoas e também a várias bibliotecas. Na contracapa, uma coisa assim: “A leitura é a mais civilizada das paixões. Mesmo quando registra atos de barbarismo, sua história é uma celebração da alegria e da liberdade.” Uau! É isso aí! Vou começar a ler, sabendo que levou sete anos para ser escrito, e não vou conseguir parar. (Este livro, com a página 17 rasgada, reconstruída com durex, tem carimbos que revelam ter pertencido à Sala de Leitura do SESC de Piracicaba – doado, então para o acervo da biblioteca. Será que esta sala ainda existe? Vou descobrir, pois me interessa.)

Antes de ir registrar os empréstimos, fui ao banheiro da biblioteca. Notei que agora há dois vasos sanitários em funcionamento (antes era só um), o novo com uma porta que se fecha, ao contrário do antigo; ambos sem assento e tampa nos vasos. Na porta do box que agora funciona, pixações típicas de banheiros de rodoviária ou botecos. Uma: “Salve o movimento punk”. Salve. Outra: “Foda-se a opinião alheia”. Ora, o próprio autor está dizendo: “Foda-se a minha opinião!”, porque, afinal de contas, a opinião dele é alheia para todos os demais – atestado de intolerância e burrice em plena biblioteca.
Registrei os empréstimos e saí pensado: “Fiquei pouco na biblioteca, hoje. Preciso descobrir como faço para conhecer outras partes do prédio.”
Fui almoçar no Shopping Piracicaba, comi mal, paguei relativamente caro, com o preço acrescido de R$ 17 gastos com o estacionamento por menos de uma hora. Mas vi que meu livro Imagens do tempo se encontra lá na estante de Autores Locais da Livraria Leitura. Quanto tempo levará para atrair a atenção de alguém, ali, escondidinho?
(Continua)
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