Os transeuntes, os absurdos e o riso que salva (Diário da Biblioteca – XVI, 20/07/2026)
- Valdemir Pires
- há 11 horas
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Os transeuntes, os absurdos e o riso que salva

“(...) percebi a tempo que não devia contaminar os livros com a vida
doméstica.” (Carlos María Dominguez)
Hoje foi dia de ir à biblioteca correndo, apenas para devolver os Villas Bôas ([História d´A marcha para oeste) e renovar as datas para devolução do Cortázar (Histórias de cronópios e de famas) e do Manguel (Uma história da leitura). Em seguida, fazer umas compras e resolver alguns problemas no centro da cidade.
Somente agora, que escrevo os títulos dos três livros acima, simultaneamente, vejo que todos lidam com história: dois, no próprio título (embora a de Cortázar seja história literária) e um (o dos Villas Bôas) narrando a história da ocupação do Brasil Central. Também me dou conta de que a Argentina não ganhou a Copa Mundial de Futebol ontem – e jogou mal, disse-me Antônio, ao me atender na biblioteca – enquanto eu estava de posse de livros de dois argentinos: Manguel, que, argentino, optou por naturalizar-se canadense; e Cortázar, argentino, apesar de nascido na Bélgica.)
Dirigir e caminhar pela cidade sempre oportuniza observar o movimento e os acontecimentos que, no geral, catalogamos como normais, assim como os transeuntes que vão e vêm. Todavia, se os submetermos a uma reflexão que libere os olhos do “véu da normalidade” a que estamos habituados, nos damos conta de que não são poucos os absurdos com que convivemos nas ruas, sem que assim sejam percebidos.
Não me refiro aos absurdos extremos, como a existência, no mundo, de uma centena de pessoas que são bilionárias (uma delas, inclusive, atingindo o patamar de trilionário), enquanto uma parcela imensa e crescente dos seres humanos fica à beira da fome ou é engolida por ela.
Não me refiro às guerras em andamento, por exemplo, na Ucrânia, na Faixa de Gaza e no Estreito de Ormuz, nas quais numerosas vidas humanas são ceifadas com a facilidade com que se matam formigas, porque assim decidem meia dúzia de poderosos intransigentes.
Não me refiro ao padrão e nível de consumo das classes alta e média de todos os países, que estão sufocando o meio ambiente, com potencial para inviabilizar a vida no planeta.
Não, não é desses escandalosos absurdos que falo aqui. Penso, por exemplo, no absurdo da quotidianidade por trás da cara fechada de tantos transeuntes com que nos deparamos nas ruas e praças: gente que acorda cedo todos os dias, vai para o trabalho, trabalha o dia inteiro contrariada e, infeliz, volta para casa, toma banho, come e dorme, para repetir a mesma coisa no dia seguinte, ganhando muito pouco e, portanto, sonhando com as quinquilharias que poderá ter (quem sabe?), no futuro, comprando a prestação.
Quando se abre uma janela para observar com vagar e atenção a normalidade, descobre-se que ela, em si, é absurda. Que o diga Albert Camus, adequadamente cognominado “o mensageiro do absurdo” por causa da natureza de seus escritos.
Julio Cortázar é um escritor dotado de um notório e notável humor sarcástico. A ninguém ocorreu dar-lhe epíteto semelhante ao colado em Camus, mas seu Histórias de cronópios e de famas (e provavelmente outas obras suas, que ainda não li) é um detector literário de absurdos por todos os lados e a todo momento da vida. Relacionamentos afetivos e familiares, relações de produção e de consumo, assimetrias de poder, arte, ciência etc., tudo isso e mais Cortázar submete a um olhar distorcido/mágico capaz de descentrar o modo de entender (e sobretudo de aceitar) “as coisas como elas são”. Partindo de “bobagens”, como recintos que proíbem a entrada de bicicletas, como uma família que decide construir um patíbulo no jardim de casa, como um sujeito que joga um fio de cabelo com um nó no ralo da pia e depois vai atrás de recuperá-lo, como uma tia que para de viver porque tem medo de cair de costas, como um cara que joga o conteúdo de um tubo interminável de pasta de dentes sobre pessoas que passam abaixo de seu apartamento – partindo de narrativas incoerentes, inconsistentes, hilariantes, Cortázar diverte enquanto faz pensar.
Não há que negar que um leitor comum, que não chegou àquele nível em que literatura é mais forma (manejo artístico de palavras) que conteúdo (contação de histórias, narrativas geralmente com começo, meio e fim, sem perder o fio condutor da verossimilhança convencional), sente dificuldade, senão repulsa, diante da obra de Cortázar. Mas ele escreve de tal modo que mesmo este leitor comum, se generoso para com os autores com que se depara e paciencioso com os textos que lhe chegam, acaba gostando da experiência de descentrar-se um pouco no meio do centramento obrigatório da vida “normal”, pois termina lendo sem a ansiedade de compreender, contentando-se com a sensação de vagar por vielas desconhecidas e de rumo incerto – para variar um pouco o “conteúdo” de sua própria existência. Há beleza e delícia em ficar perdido, “navegando” por um texto cujas águas não são exatamente como as do mar, do rio, do lago, da chuva.
Ao me deparar com o título do conto iniciado na página 69 (“Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade que acreditamos existir, ou seja, como as leis poderiam ceder terreno para as exceções, acasos e improbabilidades, e aí é que eu quero ver”), caí na gargalhada e, ao mesmo tempo, me lembrei do título que dei ao trabalho de conclusão da disciplina Elaboração e Análise de Projetos do meu curso de Economia na Puccamp: “Projeto para Criação da Gráfica e Editora Nossa Senhora dos Prazeres Pecaminosos do Mundo Contemporâneo”, título que deixou exasperado o professor que o avaliou, impedido, todavia, de dar-me nota menor do que a merecida pelo zelo técnico: 9,5. Foi nesse trabalho que fiz uso, pela primeira vez, com total domínio, da calculadora HP-12C (financeira) que Regina me dera de presente, calculando o valor presente líquido e a taxa interna de retorno de um investimento de capital, “cujo marketing será prejudicado pelo nome dado à empresa” (daí 0,5 ponto a menos na nota, sob meus protestos, pois o objetivo era mostrar a viabilidade financeira da coisa em pauta, nada além).
Querendo deixar aqui um trecho do livro lido, achei ótimo este, por belo e representativo:
“Um homem vendia gritos e palavras e ia bem, embora encontrasse muita gente que discutia os preços e pedia abatimento. O homem concordava quase sempre, e assim pôde vender muitos gritos de vendedores ambulantes, alguns suspiros que lhe foram comprados por senhoras pensionistas e palavras para lemas, slogans, lembretes e falsas ocorrências.” (Fábula sem moral, p. 98)
Registro que na página 110 e 115, estão, respectivamente “Tristeza do Cronópio e “Relógios”, a serem considerados nas minhas reflexões sobre o tempo.

(Continua)
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