O “acervo humano” da biblioteca (Diário da Biblioteca – XI, cont., 24/06/2026)
- Valdemir Pires
- há 52 minutos
- 6 min de leitura
O “acervo humano” da biblioteca

“O motivo mais profundo da leitura tem de ser a busca da
sabedoria.” (Harold Bloom)
Chuvisca e está frio. É preciso ligar o aquecedor e dirigir o fluxo de ar ao para-brisa para remover a umidade que nele se acumula e embaça a visão. Da rua José Antônio Tricânico, que oferece uma visão aberta para os lados do centro da cidade, dá para ver que tudo está nublado. O trânsito na avenida Dois Córregos, normalmente complicado, está mais lento do que o normal: em dias chuvosos mais pessoas saem de casa de carro, aumentando nas ruas o número de “barbeiros”. O volume de veículos aumenta na avenida Piracicamirim e, mais ainda, na rua Moraes Barros, com o agravante de que uma das faixas nelas é reservada aos ônibus. Leva quase quarenta minutos para, sem forçar passagem, chegar do Jardim Santa Rita à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, para devolver O homem duplicado (de José Saramago) e pegar Agosto (de Rubem Fonseca), cuja existência na biblioteca foi verificada, previamente, na internet (número de chamada 869.93 F676a).

São 10h50min, cedo para almoçar, tarde para ir direto à biblioteca e lá ficar o tempo necessário para uma boa visita, pois esta implica em de lá sair quase às três da tarde, chegando-se pouco antes de meio dia – aí a fome vai pegar. Indecisão, que em trânsito se resolve: ir direto à biblioteca, ver depois o que fazer com a fome.

Chego, estaciono na “minha vaga” de idoso; vejo que a luminária logo à frente dela continua quebrada: indício de que a promessa da prefeitura, veiculadas na imprensa na semana anterior, de que vai reformar o prédio, na sequência à limpeza feita na área de armazenamento que estava entulhada e suja (reagindo a denúncia recente), ainda está por vir.
Vou direto buscar Agosto, passando pelo setor de empréstimos e cumprimentando os três funcionários que lá estão, num momento de ausência de usuários, detendo-me num cantinho próximo dali, em que, descubro, quem quiser pode tirar foto num pequeno cenário, segurando nas mãos cartazes com frases espirituosas sobre livros e leitura (que ideia interessante para motivar os usuários crianças e jovens!).

Pego, dentre os três disponíveis, o livro em edição pertencente a uma coleção da Folha, vou à sessão de empréstimos para devolver um (Saramago) e pagar outro (Rubem Fonseca), pensando em logo seguir para a “minha mesinha”, que vi desocupada. Mas, um comentário meu, destacando que estava pegando Agosto por causa de uma palavra (busílis) encontrada em O homem duplicado, deu início a uma conversa com os três funcionários que durou pouco menos de uma hora, enquanto não apareceu nenhum usuário. Conversa de fato maravilhosa, sobre livros, a biblioteca (sua história, seus problemas, sua importância para a cidade), a Unimep (na qual os três estudaram), sobre nossas vidas de leitores: sim, os três funcionários (Antonio, Marcelo e Élcio) são leitores qualificadíssimos: todos com formação de nível superior humanista (Filosofia, História e Letras) – donde se afirmar que, ao que parece, também o “acervo” humano, vivo e dialogante, da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” é de alto valor, para complementar maravilhosamente seu rico acervo material.
Da conversa saí sabendo que os problemas que a biblioteca atualmente enfrenta não são os primeiros. Já na inauguração, em 2010, os disjuntores se desligaram durante a cerimônia, por causa da inadequação do projeto elétrico; pouco tempo desde sua entrada em uso, o prédio precisou ser acrescido dos vitrôs atuais, em substituição aos vidros originais (semelhantes aos da entrada), pra que o ambiente pudesse receber a necessária ventilação; rachaduras e outros problemas estruturais já motivaram (em 2013) ação do Ministério Público contra a empresa construtora (que faliu); na gestão anterior (Luciano Almeida), foi proposta a transferência do acervo (“devidamente” diminuído) para o Engenho Central, cedendo-se o prédio (concebido para ser uma biblioteca), primeiro, para abrigar a unidade de saúde que hoje fica ao lado do Mercado Municipal e, segundo, para servir de sede à Polícia Federal – sem que nunca os funcionários fossem consultados.
A conversa também me informou sobre o movimento dos sebos em Piracicaba, dando conta de que hoje os mais significativos são o Estação Cultural (na rua Governador) e o Sebo do Formiga, na Moraes Barros, próximo ao antigo prédio da Pinacoteca. Fiquei motivado a conhecê-los, além de curioso para conversar com o Carlinhos, expert em livros, como aqueles antigos livreiros que eram verdadeiros intelectuais, descrito com entusiasmo por Antonio, complementado por Elcio, este, um verdadeiro “rato de sebos” desde a adolescência.
Mas que conversa! Que presente recebido num dia chuvoso e frio! Transformou a biblioteca, para mim, num ponto de interesse ainda maior do que antes, quando eu buscava apenas livros. Ah, ia me esquecendo: conversamos também sobre a Unimep (que será feito de sua biblioteca?), lembrando carinhosamente de pessoas de lá, por eles conhecidas, como os professores Ercílio Deni, Joseane, Buco, Virgínia, Donato etc.
Terminada a conversa (que poderia ter prosseguido), fui, enfim, à “minha mesa”, para a “acção preambular de aproximação” (Saramago, O homem duplicado, p. 173, hahaha) ao livro de Rubem Fonseca. A ótima apresentação de capa (por José Geraldo Couto), me situa: é um livro que faz uso de fatos da história nacional (o conturbado final do período getulista) para desenvolver uma trama policial admirável.
Como o exemplar que tinha em mãos, de bela capa dura, pertencente antes a Rachel Canto (cujo nome aparece escrito a caneta azul numa das primeiras páginas), estava um tanto estropiado, resolvi apanhar outro, em perfeito estado, dessa vez da Companhia das Letras. Fui à sessão de empréstimos, troquei e voltei à inspeção. Muito boa, também, a apresentação de capa deste segundo exemplar, me situou ainda mais acerca do que esperar da leitura. Abri o livro, deparei com duas epígrafes, uma de James Joyce, no seu idioma (inglês) e outra de Carlo Ginsburg, em italiano. Por isso, antes de sair da biblioteca, passei de novo na sessão de empréstimos e fui comentar com Marcelo (o historiador), uma coincidência envolvendo-o: eu fiquei sabendo da formação acadêmica dele nesse dia, no qual apanhei um livro que mescla História com narrativa literária, e cujo autor presta tributo ao criador da corrente historiográfica conhecida como a do paradigma indiciário (preocupada, por assim dizer, com os acontecimentos históricos de pequena monta, que não são tomados pela historiografia convencional como acontecimentos) que, veja-se!, morreu na quarta-feira passada (17/06). (Embora, ao falar de coincidência, eu não devesse desconsiderar o que havia lido na noite do dia anterior, no conto A mensagem, de Clarice Lispector: “Mas há muito – desde que era jovem – ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termos de ´coincidência´. Ou melhor – evoluindo muito e não acreditando nunca mais – ele considerava a expressão ´coincidência´ um novo truque de palavras e um renovado ludíbrio.”)
Devo registrar que enquanto inspecionava o primeiro exemplar de Agosto, notei, na estante à minha esquerda, o livro A marcha para o oeste, dos irmãos Villas Bôas: é o que tomarei emprestado quando devolver Rubem Fonseca.

Bateu a fome, antes da hora que eu imaginava que bateria. Decidi voltar para casa e almoçar com a família. Mas subindo a Rua do Vergueiro, acabei parando no primeiro estabelecimento que vi oferecendo comida: a Padaria Delícias da Gula, com um self-service simples e bem-feitinho. Só foi triste ver que a chuva havia danificado o teto do prédio, derrubando estuque no chão atrás do balcão e provocado goteiras que ainda pingavam ali. Lamentando, o dono (suponho ser dono o rapaz que me atendeu) informou que a chuva estava fazendo estragos, inclusive derrubando uma grande árvore sobre estruturas na Praça José Bonifácio. Pois é! Num dia triste, estive num bom lugar para ler um livro; e acabou sendo também um bom lugar para bater um bom papo.
“Aproveitando” a tristeza, retornei para casa por um caminho (rua do Vergueiro-avenida Ulhoa Cintra-rua do Rosário-avenida Paulo Moraes-avenida Antonio Fazanaro-avenida Rio das Pedras-avenida Eurico Gaspar Dutra – 15 quilômetros) que me fez passar ao lado do campus Taquaral da Unimep: sob a chuva fina, mato cobrindo o terreno e escondendo as edificações, provavelmente caminhando para a ruína. Estarão ali, ainda, os livros da rica biblioteca universitária?

Mas hoje à noite tem Brasil versus Escócia (por isso as camisetas sendo vendidas ali nas proximidades da Estação da Paulista). Vai ser esta uma partida de futebol para nos dar alegria?

(Continua)
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