De um livro de Saramago ninguém sai o mesmo que entrou (Diário da Biblioteca – XI, 24/06/2026)
- Valdemir Pires
- há 23 horas
- 8 min de leitura
De um livro de Saramago ninguém sai o mesmo que entrou

“Ler é um ato de poder.” (Alberto Manguel)
Se ler é um ato de poder, ler bem os melhores autores é um exercício de força (esta, a base de todo poder, mesmo que nem sempre explicitamente) com resultados democráticos, porque entre os melhores autores a diversidade e a variedade de tramas, dramas e formas é imensa, contribuindo para que o leitor se afaste das tentações autoritárias, geralmente associadas a visões de mundo monolíticas, que são destroçadas pelo aprofundamento cultural-civilizatório de que a boa literatura é uma ponta de lança. E não resta a menor dúvida de que José Saramago é um dos gigantes da literatura mundial com esta qualidade.
É impressionante o quanto o estilo de Saramago, a forma singularíssima de sua escrita, se mantém em seus livros. Ler O homem duplicado – como o fiz, por indicação do amigo Sebastião Neto Ribeiro Guedes, agora devolvendo-o à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” – é voltar ao universo linguístico-imaginário que ele cria em todos os outros livros dele que li (mencionados em notas anteriores deste Diário). Chistes e ditos populares saborosos explodem coloridos sem cessar, do começo ao fim, provocando no leitor um riso interno que carrega consigo reflexões profundas sem franzir a testa, já que o afirmado geralmente vem seguido de seu questionamento, quando não aparece nele mesmo embebido. Coisas assim, para dar apenas alguns exemplos, sempre bem contextualizadas na narrativa:
“O vinho foi servido e em seu tempo saboreado, agora há que beber o resto azedo que ficou no fundo do copo.” (p. 63)
“(...) a única coisa que dura toda a vida é a vida (...)” (p. 68)
“Como ensinavam os antigos, nunca digas desta água não beberei, sobretudo, acrescentaremos nós, se não tiveres outra.” (p. 203)
“(...) morrendo o bicho, acaba-se a peçonha (...)” (p. 227)
“Também em tempos que já lá vão, houve na terra um rei de grande sabedoria que, em um momento de inspiração filosófica fácil, afirmou, supõe-se que com a solenidade inerente ao trono, que debaixo do sol não havia nada de novo. A estas frases não convém tomá-las nunca demasiado a sério, não se dê o caso de as continuarmos a dizer quando tudo à nossa volta já mudou e o próprio sol já não é o que era.” (p. 246) (Mas que modo fenomenal de citar e questionar a sabedoria salomônica, a ela antepondo os conhecimentos astronômicos, especialmente os galileianos, que a Bíblia não leva – nem poderia levar – em consideração. Não é?)
“Costuma-se dizer, Dêmos tempo ao tempo, mas aquilo que sempre nos esquecemos de perguntar é se haverá tempo para dar.” (p. 293) (Não é?)
Acompanhar Tertuliano Máximo Afonso na descoberta e busca de seu outro-ele (o ator de segunda ou terceira linha Daniel Santa-Clara) e na luta dele consigo mesmo é uma viagem e tanto, sentado na poltrona confortável da boa literatura, de olhos voltados para os dilemas humanos e problemas da vida contemporânea. E, de quebra, como brinde ou amostra-grátis, é possível dar uma espiada nas questões centrais do fazer literário, como nessas passagens, entre outras:
“Há alturas da narração (...) em que qualquer manifestação paralela de ideias e de sentimentos por parte do narrador à margem do que estivessem a sentir ou apensar nesse momento as personagens deveriam ser expressamente proibidas pelas leis do bem escrever. A infração, por imprudência ou ausência de respeito humano, a tais cláusulas limitativas, que, a existirem, seriam provavelmente de acatamento não obrigatório, pode levar a que a personagem, em lugar de seguir uma linha autônoma de pensamentos e emoções coerente com o estatuto que lhe foi conferido, como é o seu direito inalienável, se veja assaltada de modo arbitrário por expressões mentais ou psíquicas que, vindas de quem vêm, é certo que nunca lhe seriam de todo alheias, mas que num instante dado podem revelar-se no mínimo importunas, e em algum caso desastrosas.” (p. 34)
“Por respeito à verdade, devemos dizer que António Claro [o verdadeiro nome de Daniel Santa-Clara] até agora, e apesar das inúmeras voltas dadas ao assunto, não conseguiu chegar a um traçado razoavelmente satisfatório de um plano de acção merecedor desse nome. No entanto, o privilégio de que gozamos [os narradores oniscientes e intrusos, no caso – está Saramago informando ao leitor], este de saber tudo quanto haverá de suceder até à última altura deste relato, com excepção do que ainda vai ser preciso inventar no futuro, permite-nos adiantar que o actor Daniel Santa Clara fará uma chamada telefónica para a casa de Maria da Paz (...) (p. 244) [Note-se que embora a edição do livro lido seja brasileira – Companhia das Letras – o texto está em português de Portugal, ao que parece, por exigência que o autor costuma fazer. Para além disso, saiba-se que o português se desdobra minimamente três idiomas, eu diria: o de Portugal, o do Brasil e o de Saramago, que organiza seus textos de modo pessoal no tocante às frases, mormente pontuação, e parágrafos.]
Os personagens principais de O homem duplicado são, evidentemente, os surpreendentes dois idênticos: o professor de História e o ator. Na ordem de importância seguem-se a mulher do segundo (Helena) e a potencial esposa do primeiro (Maria da Paz), que oferecerão material para que o narrador eleve ao máximo a dramaticidade e a tensão de haver de alguém um outro que pode passar-se por ele nas mais íntimas situações possíveis. Destaco dois outros que me chamaram particularmente a atenção. Primeiro o cão Tomarctus, que é “plantado” pelo narrador nas páginas 230, 258 e 260, durante visitas de Tertuliano à mãe, a fim de desempenhar papel decisivo, na página 303, quando ela, ao acionar a secretária eletrônica do telefone (assim espera o historiador), precisará ter certeza de que ele é ele, mesmo, e não António. (E aqui me pego pensando: de novo – conforme passagens anteriores deste Diário –, numa história lida, um cão; sem desconsiderar, sobre as coincidências que me fascinam, o que Saramago sobre elas pontua, nas páginas 170-171: “A vida real sempre nos tem parecido mais parca em coincidências que o romance e outras ficções, salvo se admitíssemos que o princípio da coincidência é o verdadeiro e único regedor do mundo, e nesse caso tanto deveria valer aquilo que se vive como aquilo que se escreve, e vive versa.”). O segundo personagem a destacar é o senso comum. Não se trata, propriamente, de um personagem, mas Saramago o faz funcionar como se fosse, inventando diálogos entre ele (o sr. Senso Comum) e Tertuliano. Nesses diálogos, o narrador-filósofo mete o senso comum em saias justas (melhor que os marxista a partir do conceito de ideologia), questionando seus conselhos diante das situações que a vida coloca (na verdade, descendo a lenha, com humor, no hábito corrente de buscar verdades onde nada mais há que percepções duvidosas e não raro previamente interessadas). Pelo sabor, vale reproduzir algumas passagens envolvendo essa personagem-sombra (à falta de melhor designação):
“Em minha opinião, senso comum e curiosidade são incompatíveis, Como te enganas, suspirou o senso comum, Prova-mo, Quem julgas tu que inventou a roda, Não sabemos, Sabemos, sim senhor, a roda foi inventada pelo senso comum, só uma enorme quantidade de senso comum é que teria sido capaz de a inventar, E a bomba atómica, foi também o teu senso comum que a inventou, perguntou Tertuliano Máximo Afonso no tom triunfante de quem acabou de apanhar o adversário descalço, Não, essa não, a bomba atómica inventou-a também um senso, mas esse de comum não tinha nada, O senso comum, perdoa-me que to diga, é conservador, aventuro-me mesmo a afirmar que é reacionário.” (p. 58) (E aqui, nesta breve passagem, um exemplo do há pouco dito idioma português de Saramago, com a construção de frases que, apesar dos “erros” de pontuação, são não apenas intelegíveis, mas também dotadas de um sabor específico.)
“Sou um homem, Não negarei que o seja, mas o costume tem sido ver sobreporem-se as tuas fraquezas às tuas forças, Portanto é homem todo aquele que não estiver sujeito a fraquezas, Também o é aqueles que as conseguir dominar, Nesse caso, uma mulher que for capaz de vencer as suas femininas fraquezas é um homem, Em sentido figurado, sim, podemos dizê-lo, Pois então digo-te eu que o senso comum se expressa como machista no mais próprio dos sentidos, Não tenho a culpa, fizeram-me assim, Não é boa escusa para quem não faz nada mais na vida que dar conselhos e opiniões, Nem sempre erro, Fica-te bem essa súbita modéstia (...)” (p. 222)
Além de lançar, sob risos, suspeição ao senso comum, Saramago também divaga, em O homem duplicado, acerca das palavras (o material, afinal, da arte literária que ele pratica), nunca com isso atrapalhando o “andar da carruagem” da história sendo contada. Belos exemplos:
“A roda inventou-se e ficou logo ali inventada para todo o sempre, enquanto as palavras, aquelas e todas as mais, essas vieram ao mundo com um destino nevoento, difuso, o de serem organizações fonéticas e morfológicas de carácter eminentemente provisório, ainda que, graças, porventura, à auréola herdada da sua auroral criação, teimem em querer passar, não tanto por si próprias, mas por aquilo que de modo variável vão significando e representando, por imortais, imorredouras, ou eternas, segundo os gostos do classificador.” (p. 61-62)
“Estranha relação é a que temos com as palavras. Aprendemos de pequenos umas quantas, ao longo da existência vamos recolhendo outras que vêm até nós pela instrução, pela conversação, pelo trato com os livros, e, no entanto, em comparação, são pouquíssimas aquelas sobre cujas significações, acepções e sentidos não teríamos nenhumas dúvidas se algum dia nos perguntássemos seriamente se as temos.” (p. 87)
“Se o acto existe, também deveria existir a palavra, As que temos encontram-se nos dicionários, Todos os dicionários juntos não contêm nem metade dos termos de que precisaríamos para nos entendermos uns aos outros, Por exemplo, Por exemplo, não sei que palavra poderia expressar agora a sobreposição e confusão de sentimentos que noto dentro de mim neste instante.” (p. 125)
“(...) tal como a experiência da comunicação tem abundantemente demonstrado, o poder de mobilização da palavra oral, não sendo, no imediato, em nada inferior ao da palavra escrita, e mesmo, num primeiro momento, talvez mais apta que ela arrebanhar vontades e multidões, é dotada de um alcance histórico bastante mais limitado, devido a que, com as repetições do discurso, se lhe fatiga com rapidez e fôlego e se lhe desviam os propósitos.” (p. 131-132)
“As palavras são o diabo, nós a crer que só deixamos sair da boca para fora aquelas que nos convém, e de repente aparece uma que se mete pelo meio, não vimos de onde surgiu, não era para ali chamada, e, por causa dela, que não é raro termos depois dificuldades em recordar, o rumo da conversa [aqui, no livro, um erro: em vez de conversa, está escrito conserva] muda bruscamente de quadrante, passamos a afirmar o que antes negávamos, e vice-versa (...)” (p. 209)
“São assim como uma espécie de coadores da voz, as palavras, ao passar deixam sempre ficar borras, para saber o que de facto nos tinham querido comunicar há que analisar essas borras minuciosamente (...) (p. 239)
Também sobre o tempo, esse misterioso “dado de realidade” que me fascina, vai Saramago fazer rir e pensar neste seu livro. Mas fica para o futuro leitor identificar em que pontos e páginas.
Há uma palavra – tamboril, um peixe – que está no livro única e exclusivamente para, de vez em quando, no fluxo da narrativa, mas sem qualquer necessidade, o autor lançar um chiste que em nenhuma das ocasiões falha: hahaha, lá vem o tamboril de novo!
Termino com uma curiosidade em termos de cruzamento de autores e obras, mas uma daquelas que ocorrem de modo inusitado: automaticamente me veio à lembrança, ao me deparar, na página 271, com a palavra busílis, o personagem Rosalvo, em Agosto, de Rubem Fonseca, pois busílis é um cômico bordão boca dele. Deu-me vontade de reler o aquele clássico do romance policial brasileiro.
Quem porventura, ou desventura, leu este texto até aqui em busca do que “acontece” no livro comentado, é convidado a perceber que bateu em porta errada, pois o que encontrou foi um pouco sobre a beleza da literatura, que reside na sua forma e não no seu conteúdo, embora devam os dois andar de mãos dadas para que nada se perca da arte literária. Fica, pois, o convite a ler O homem duplicado. Todo aquele que o fizer, irá saborear a delícia da forma inventada por Saramago, sem, todavia, decepcionar-se com o desenvolvimento do enredo e com o também saboroso final. Boa leitura! Gratuita, pegando na biblioteca, onde acabo de devolvê-lo. (E cá estou eu, finalizando estas notas como quem parece estar querendo ensinar – Estou? Se sim, me conforta saber que Saramago, entre tantas outras coisas, me ensinou, neste livro, que “(...) ensinar quem não sabe é uma obra de misericórdia (...)” (p. 260)
(Continua)
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