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  • Foto do escritorValdemir Pires

Josef K. e o “Enem dos Concursos”


Imagem: Rocío Perera, Unsplash


Vivendo nos vinte menores países do mundo há um total de pouco mais de um milhão e meio de pessoas. O número de países cuja população fica abaixo de 2,1 milhões de habitantes passa de cem, estando entre eles, por exemplo, Eslovênia, Letônia, Macedônia do Norte, Guiné Bissau, Timor Leste, Chipre.

 

Esses dados demográficos permitem aquilatar a dimensão do contingente que se mobiliza para se submeter às provas do Concurso Público Nacional Unificado (o “Enem dos Concursos”): são 2,1 milhões de candidatos, disputando 6.640 vagas – 316 candidatos/vaga.

 

Não é à toa que a “indústria dos concursos” (apostilas, cursos preparatórios etc.) está em polvorosa: seus agentes conhecem a psicologia dos “concurseiros”, que, na média, são pessoas cuja principal vocação é a de aposentado, decididas a investir na “aposentadoria com arteira assinada” pelos órgãos públicos. Desejam conquistar uma vaga no serviço público bem remunerada (em comparação com o mercado), com estabilidade no emprego e poucos desafios, excluída a rotina; pensam a vida à sombra fresca e enxergam o empregador governamental como frondosa árvore à beira de uma nascente; estão dispostas a fazer um grande esforço (preparação para as provas) que, bem-sucedido, será o último de suas existências.

 

Fazer esta afirmativa pode parecer exagerado (além de absurdamente antipático), mas infelizmente não é. Para reduzir o impacto negativo desta constatação, é importante lembrar que atualmente o Brasil conta com um volumoso número de egressos de cursos superiores, e também alguns de nível médio que, ao longo do último quarto de século formou (no âmbito do chamado Campo de Públicas) administradores públicos, gestores públicos, gestores de políticas públicas, gestores sociais e similares, muitos dos quais verdadeiramente vocacionados para atuação na burocracia em seus diversos níveis. Oxalá a formação de que são detentores esses diplomados dê a eles alguma vantagem de conhecimentos em relação àqueles que pela primeira vez na vida vão se deter diante de assuntos do interesse coletivo, do bem-estar social, da coisa pública, meramente a partir do viés de sua empregabilidade, posto que todos disputarão as vagas em condições que não privilegiam (porque constitucional e legalmente é proibido) os formados na área.

 

Está fora de dúvida que o Concurso Nacional Unificado, dado o volume de candidatos, dada a complexidade das provas, dada a novidade em que consiste, é um imenso desafio àqueles que o implementarão; desafio tanto quantitativo como qualitativo. Subjaz a ele a nobre e dificílima intenção de recrutar profissionais da melhor qualidade possível para ajudar o governo a enfrentar os extraordinários desafios estatais do século XXI, ligados ao desenvolvimento sustentável, à provisão de bens e políticas públicas, ao fortalecimento das instituições democráticas, ao enfrentamento das desigualdades, ao posicionamento nacional na geopolítica global etc.

 

É de se esperar que na fase de concepção de tópicos e na preparação das provas o cuidado esteja sendo extremo, pois é nesta fase que são construídas as barreiras aos candidatos indesejados (os oportunistas e também os de competência insuficiente) e as pontes facilitadoras para a passagem dos candidatos com perfil adequado (vocacionados e devidamente preparados).

 

Os elementos das provas para aferir competência e preparo são desafiadores, num mundo em que estes aspectos se tornaram relativamente fluidos (sendo preciso dominar a capacidade de constantemente aprender a aprender). Mais desafiadores ainda são os elementos necessários, nas provas, para detectar vocação, tendência a vir a ser funcionário público que não perca de vista sua missão no mundo conflituoso do poder público.

 

Não seria um despropósito, muito pelo contrário, incluir na bibliografia de referência um, dois ou três romances cuja temática trata da relação governo-sociedade, do quotidiano da administração pública, de conflitos entre o interesse público e privado etc. De saída, por exemplo, O processo (Kafka), A especulação imobiliária (Calvino), Ensaio sobre a lucidez (Saramago), dentre tantos outros (inclusive nacionais) que deveriam ser de conhecimento obrigatório para políticos e burocratas. O objetivo: aproximar os candidatos, por meio da arte literária, da sensibilidade necessária para lidar com os macroproblemas típicos da gestão pública contemporânea.

 

Seria alentador imaginar que dois milhões de brasileiros, ao se prepararem para se tornar burocratas e, portanto, para cuidar de nossos interesses coletivos, estariam, alguns pela primeira vez na vida adulta, lendo romances de alta qualidade, que carregam em suas histórias visões profundas do que a vida em sociedade tem sido nos tempos urbano-industriais sob erosão, que são os nossos. Do mesmo modo, seria bem agradável saber que, independentemente dos resultados obtidos por cada candidato nas provas, todos eles teriam se tornado pessoas melhores para a convivência com seus semelhantes.


Uma tal sugestão – texto literário em bibliografia para concurso público – é uma ousadia e tanto, evidentemente. Seria esperar dos burocratas (e seus chefes políticos) do “RH” governamental mais do que humildade, espírito de inovação: ao recrutar seus futuros pares, fazê-los refletir (no âmbito da sensibilidade) sobre os mais profundos problemas de seu universo, coisa de que talvez eles mesmos desejem evitar, no mais das vezes acostumados, como é sabido, a terceirizar as provas para entidades (especializadas em concursos e não em gestão pública) que, por sua vez, tendem a não ir além de elaborar e aplicar provas que tenham um mínimo de risco face a possíveis recursos da parte dos que se sentem prejudicados com os resultados (e haverá muitos no Enem dos Concursos, sem dúvida). Talvez, então, seja o caso de aproveitar a ideia nos eventos e momentos de capacitação inicial dos ingressantes: não como prova, mas como oportunização de leituras. A ideia, poderia, além disso, ser aproveitada para se criarem cursos para materializá-la nos programas e atividades das já existentes escolas de governo.

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