Do Matadouro, direto para Lisboa (Diário da Biblioteca – XX, 12/08/2026)
Do Matadouro, direto para Lisboa

“Outro disse que as pessoas não conseguiam mais ler
suficientemente bem para transformar o texto impresso dentro de
seus crânios.” (Da cena de um debate radiofônico sobre a morte do
romance, em Matadouro 5, de Kurt Vonnegut)
Pois é! Parece coisa de louco, essa de Billy Pilgrim viajar no tempo, entrar em disco voador (que vem de Tralfamador), dizer que a morte não é nada num Universo em que “Todo o tempo é todo o tempo. Não muda. Não se presta a alertas ou explicações. Simplesmente é. Viva o momento (...) (p. 94).
A filha de Billy, Barbara, preocupava-se com essa “mania” do pai (“O que vamos fazer com você:”), depois de sua volta da guerra e de um acidente que lhe fraturou o crânio. Ela achava uma loucura o pai pensar o que pensava sobre o tempo e achar possível viajar nele, como se fosse uma estrada.
Mas, note-se: mesmo sem que Billy saiba (Vonnegut, seu criador, entretanto, sabendo, com certeza), a Física – primeiro a relativista e depois a quântica – o socorrem para que seja levado a sério em suas divagações sobre o tempo (embora viagens no tempo, mesmo, ninguém tenha feito, ainda, em carne e osso, pele e sangue). Exceto Billy Pilgrim (e os personagens de ficção científica): “Billy Pilgrim soltou-se no tempo. Billy foi dormir um viúvo senil e acordou no dia de seu casamento.” (p. 30) Mas Pilgrim nunca foi de carne e osso...
Vonnegut, sim, o autor e criador de Pilgrim, este foi de carne e osso (até 11/04/2007, quando atingiu os 84 anos de vida e morreu), tinha cérebro e também coração, sensível, atento. Participou da Segunda Guerra Mundial e estava no local em 13/02/1945, quando Dresden foi bombardeada e completamente destruída (algo pior do que Hiroshima e Nagazaqui, dizem alguns). Portanto, Vonnegut deve tido várias vezes a necessidade de se reinventar, como dois de seus personagens: “Então ambos [Pilgrim e Rosewater] estavam tentando reinventar a si próprios e ao universo em que viviam [num ala para pacientes mentais de um hospital de veteranos]. A ficção científica era uma grande ajuda.” (p. 109) A guerra é terrível! Mas, é uma das coisas da vida...
“Coisas da vida”: o bordão que permeia Matadouro 5 do começo ao fim. Sempre fechando um trecho em que se fala de morte. A morte é coisa da vida. E quem há de negar?
Um: Num livro escrito por Trout (este, criação de Vonnegut), um personagem viaja no tempo feito Billy Pilgrim. Então, certa vez, viajou e encontrou Jesus com doze anos, aprendiz de seu pai carpinteiro. Num belo dia, apareceram na oficina dois soldados romanos com uns pergaminhos com o esquema de um aparelho de matar torturando do modo mais perverso possível: uma cruz. Pai e filho agradeceram a oportunidade de terem trabalho para sustentar a casa. Com a mesma cruz (um bem de investimento do imperial Estado romano), foi morto um agitador que as multidões chamavam de Cristo. “Coisas da vida.” (p. 211)
Dois: O próprio Pilgrim (tendo aprendido com o personagem de Trout?) um dia viajou a 13/02/1976 (o livro é de 1969) e – VEJAM! – então “Os Estados Unidos da América foram balcanizados, divididos em vinte nações menores para nunca mais representar uma ameaça á paz mundial. Chicago sofreu um ataque de bomba de hidrogênio por chineses furiosos. Coisas da vida.” (p. 151), mas não para aquele ano...
“E assim por diante”, para usar aqui outro bordão de Matadouro 5 que tem por finalidade não alongar muito a conversa sobre um dado assunto, por desnecessário ou aborrecedor. Mas sobre bordões, o último do livro: “Se algum dia passarem por Cody, no Wyoming, perguntem por Bob Indômito.” Experimentem!
E se por acaso conseguirem ir a Ilium (nada é impossível), perguntem por Valencia Merble Pilgrim, aquela filha de optometrista rico que esculhambou o carro do amado marido ao ir correndo para o hospital em que ele estava para morrer. Peça que digam como ficou o carro, para ver se concordam com o narrador-personagem de Matadouro 5: “(...) o traseiro do Cadilac tinha se transformado no sonho erótico de um lanterneiro. (...) O porta-malas escancarado parecia a boca de um idiota explicando que não sabia nada de nada.” (p. 191)
Pobre Valencia, traída. Em sua viagem no tempo, Billy andava com a atriz Montana Wildhack, em Trafalmador. E ela não passava, de fato, de uma qualquer. Andava com uma frase pendurada no pescoço, assim:

Como Maggie White, ela talvez fosse “uma pessoa sem graça, mas um convite sensacional para se fazer um filho.” (p. 179). Talvez, ainda, fizesse parte daquela massa a respeito da qual o narrador-personagem, em dado momento diz: “Assim como muitos americanos, ela [a mãe de Billy] estava tentando construir uma vida que fizesse sentido a partir de coisas que encontrava em lojas de presentes” (p. 46) E mais sobre a natureza dos Estados Unidos, ao final na década de 1970 (mas que parece ainda mais atual, hoje):

Pois é! Parece que este personagem-narrador (“Meu nome é Yon Yonson, trabalho em Wisconsin, numa serraria de lá.” – p. 13) tem olhos de lince, jamais precisaria de um optometrista. Como escritor que foi, fala bastante de literatura. Dostoiévski, Blake, Stephen Krane – nesse nível. Cita Horácio em latim: “Ai de nós! Os anos correm céleres.” E malha com vontade a autora de Os vales das bonecas, de 1966, Jacqueline Susann. Quanto a Kilgore Trout, o autor prolífico e medíocre de livros de ficção científica que é um dos mais importantes personagens secundários de Matadouro 5, dizem ter sido inspirado em Theodore Sturgeon (de fato Edward Hamilton Cullen Waldo)...
Mencionando Trout como dono de um jornal local, o narrador-personagem de Matadouro 5 faz uma das mais hilárias críticas ao tão americano ideal de self-made man . Trout faz de tudo para convencer um garoto seu empregado a vender a quota de exemplares atribuídas a ele mediante remuneração ínfima. Argumentando com o rapaz, “Falou sobre todos os milionários que haviam entregado jornais quando meninos. O garoto retrucou:
– É... Mas aposto que eles pediram demissão depois de uma semana, porque isto aqui é uma senhora merda.” (p. 176) (Aqui lembrei-me de quando pedi demissão das Lojas Cem recém-inauguradas em Araras, poucos dias depois de ser admitido, ainda que precisasse muito do emprego para não passar fome. Coisas da vida.)
Vonnegut não poupa críticas, mesmo, sempre com bom humor. À programação da TV americana: “Mas era cedo da noite para programas que permitissem a aparição de pessoas com opiniões peculiares. Eram pouco mais de oito horas, então todos os programas eram sobre bobagens ou assassinatos. Coisas da vida.” (p. 209) À movimentação frenética em busca de enriquecimento: “Casualmente, Trout tinha escrito um livro sobre uma árvore cujas folhas eram notas de vinte dólares. Suas flores eram títulos do governo. Seus frutos, diamantes. A árvore atraía seres humanos que se matavam uns aos outros em torno de suas raízes e produziam um excelente fertilizante. Coisas da vida. (p. 175) Deixa no ar notas de pessimismo, como esta, em que o personagem Rosewater (fanático pelos livros de Trout, indicando-os a Pilgrim) se dirige aos psiquiatras dizendo “Acho que vocês terão que inventar um monte de novas mentiras maravilhosas, ou as pessoas simplesmente não irão mais querer continuar vivendo.” (p. 110)
E assim por diante. Porque agora tenho que ir lá na biblioteca devolver Matadouro 5.
-.-
Já na chegada à biblioteca, ao estacionar o carro na vaga de idoso, bate o pessimismo, mais miúdo, porém, que o de Vonnegut: Caramba, os caras da prefeitura prometeram um plano de reformas para a biblioteca (cadê?), mas até agora não foram capazes sequer de trocar o globo da luminária externa quebrada há meses, ali na frente!

Entro no prédio, devolvo o Vonnegut, vou às estantes buscar dois livros para a próxima semana. Primeiro, um dos apenas dois que a biblioteca possui da Série Amores Expressos, na qual escritores brasileiros contemporâneos, enviados para diferentes cidades do mundo, escreveram romances nelas ambientados, publicados pela Companhia das Letras. Desde que começaram a publicar essa série (2008?), eu desejei ler as obras, interessado nos resultados de uma tal experiência; e também para, afinal, saber quem são os escritores brasileiros contemporâneos e como escrevem. Escolhi Estive em Lisboa e lembrei de você (de Luiz Ruffato, uma edição com o alerta “Comercialização proibida”) e a inspeção preliminar, lá na “minha mesa”, foi suficiente para manter a escolha, vindo eu a ser, provavelmente, o primeiro leitor do volume, pois as condições da capa (dobras ainda rígidas) e do miolo (totalmente compacto e limpo) fazem suspeitar que nunca foi aberto, estando, ainda, a parte superior bastante empoeirada.
O segundo livro escolhido foi Além das crises, esperança – Almir Maia: educação como compromisso, de Beatriz Vicentini. Desde que fiquei sabendo da existência dessa obra, quis lê-la. A autora não conseguiu segurar um exemplar para mim, a meu pedido, faz anos. Felizmente havia na biblioteca três exemplares, na seção de autores piracicabanos e textos sobre a cidade, o que me permitiu emprestar um (diferentemente do que aconteceria se houvesse apenas um). Tive um pouco de dificuldade para localizar o livro nas estantes. Inicialmente fui procurar numa prateleira com o rótulo “Unimep” – neste ato dei-me conta de que possuo em casa mais materiais sobre aquela instituição de ensino superior do que biblioteca municipal. Fico em dúvidas sobre doar ou não o que tenho, como por exemplo, a série completa sobre a famosa política acadêmica unimepiana.
Li os textos iniciais de Além da crise e também o primeiro capítulo, lá na “minha mesa” na biblioteca. Gostei, como suspeitava, conhecedor de outros textos da Bia. Ao longo da semana mergulharei na leitura completa, evocando este universo de sonhos (que foi) e de pesadelos (em que se transformou) a Unimep.
Aproveitando estar ali, diante de um rico acervo que ajuda a conhecer e compreender Piracicaba, fui passear ao redor das estantes da sala. Fiquei encantado com a existência de uma porção de materiais históricos. Fiquei feliz em constatar que na estante “Economia” estão um livro em que há um capítulo que escrevi, junto com meu então orientando Israel Valdecir de Souza (O desenvolvimento de Piracicaba, organizado por Eliana Tadeu Terci) e o caderno Piracicaba em Dados, resultado de um projeto de pesquisa que eu coordenei na Unimep, numa parceria com o Sebrae.

Bem, espero que os dois livros apanhados sejam suficientes para a próxima semana, pois na anterior (marcada por insônias) tive que complementar a leitura de Matadouro 5 com Balaio (excelentes ensaios sobre livros e leitura, de Ana Maria Machado) e Assassinatos na Rua Morgue e outros contos (deliciosa coletânea de clássicos contos de Edgar Allan Poe). Não sei em qual deles fui colocado diante de situações mais tétricas: se nas narrativas de terror de Poe ou se nas reflexões de Ana Maria sobre leitura e educação no Brasil. Felizmente, Ana Maria, no caso, preservando o otimismo e se revelando batalhadora incansável pela democratização da literatura e pela sua incorporação (ou reincorporação) desta necessária arte nos currículos escolares do país; seus argumentos em defesa da leitura literária de boa qualidade, desde a infância, são contundentes.
Antes de ir-me, fui fuçar num mostruário com dezenas de obras sobre Piracicaba e livros de autores locais que foi colocado nas proximidades das estantes, em comemoração ao aniversário da cidade, ocorrido no último 1º. de agosto. Dá gosto ver como Piracicaba vem sendo mantida no universo mágico da escrita. Há títulos dos mais variados tipos. Vi também no expositor de sugestões, Odisseia. Biblioteca antenada com acontecimentos da cidade e da cultura, esta, acompanhando a programação dos cinemas!

Ao sair da biblioteca e dirigir-me ao carro para voltar para casa, observo que o edifício em construção ali na frente (Rua Saldanha Marinho, 330) avançou bastante, já atingindo sete andares. Trata-se da primeira edificação vertical numa clareira sem este tipo de prédio ao redor da praça em que ficam a biblioteca e uma escola municipal. Logo, logo, essa clareira será página virada no livro da arquitetura e do urbanismo locais.

(Continua)
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