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Pomares, hortas e jardins feitos de livros (Diário da Biblioteca – XXVI, 09/09/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 2 dias
3 min de leitura

Atualizado: há 20 horas

Pomares, hortas e jardins feitos de livros


Biblioteca Binhai, em Tianjin, na China (Foto: Fred Dufour / AFP)
Biblioteca Binhai, em Tianjin, na China (Foto: Fred Dufour / AFP)

“Há tantos que escrevem e tão poucos que lêem.” (André Gide)


Eu nunca vi nem ouvi tanta agitação em torno do livro e da leitura como atualmente. É clube de leitura aqui, feira do livro ali, festa literária acolá. Há uma porção de celebridades comentando obras, são incontáveis os youtubers, tiktokers bombando nas redes sociais,  algumas grandes marcas da moda estão associando seus logotipos à cultura literária etc. Tudo isso enquanto o que se constata, por meio de pesquisas e sondagens e também pela simples observação dos comportamentos quotidianos, é o declínio da leitura, enquanto o número de horas desperdiçado na rolagem de telas conectadas à rede mundial de computadores cresce exponencialmente.

 

Fica a dúvida: serão todo esse barulho e toda essa parafernália visual elogiosa ao livro e à leitura mera hipocrisia? Ou será que fazem parte de estratégias comerciais e de marketing para conquistar (ou manter) fatias de mercado numa economia que está passando por profundas (e ainda não totalmente compreendidas) transformações? Tanto apelo a que se leia e se compre livros (nos seus formatos tradicional, em papel, ou nos novos formatos, como ebooks e audiolivros) faz parte de um genuíno movimento cultural contra a perda de profundidade que a atual “sociedade do conhecimento”, com suas tecnologias da informação e da comunicação está engendrando, ou não passa de um novo avanço daquilo que se convencionou chamar de indústria cultural, com seus apelos ao entretenimento raso?

 

Seja como for, posiciono-me, como sempre, a favor do livro e da leitura, sem necessariamente transformar essa postura em apelo ao consumo (muito menos ao consumismo) ou ao simples entretenimento. Acho interessante que se leia pela importância e pelo prazer de ler. Importância relacionada ao processo de crescimento intelectual, fundamental à qualidade da vida individual e coletiva – processo esse que o livro aprofundou e acelerou como nada antes na História. Prazer que se obtém ao utilizar os livros (literários, no caso: poesia, romance, novela, conto, teatro) para “treinar” o espírito no “esporte” da sensibilidade.

 

Tanto para cultivar a o intelecto, como para “adestrar” a sensibilidade, nada como livros. Bons livros, claro, pois há também – e muitos – deles que prestam um desserviço a esse cultivo e a esse adestramento, como a literatura-lixo (de puro entretenimento, vazio) e as obras de auto-ajuda. E tais bons livros nem precisam ser comprados, nem precisam fazer parte de bibliotecas pessoais, tantas vezes, hoje em dia, objetos de ostentação, com seus volumes coloridos e em capa dura, edições especiais e boxes. Basta que sejam tomados emprestados em bibliotecas públicas, essas mesmas que, no Brasil, começam a ser abandonadas ao pó, à umidade (livros deixados em salas com goteiras), às traças.

 

Vai nessa afirmativa um pouco – ou muito – de desgosto, evidentemente. Desgosto por ver e ouvir tanto apelo à leitura, não para que, verdadeiramente, se leia, mas para que se compre livros ou que se apareça por aí, em espaços de consumo ou nas redes sociais, folheando volumes de obras que nem sempre se lê, de fato. Ao passo que as bibliotecas públicas, incluindo as universitárias, há tempos estão perdendo tomadores de empréstimos e frequentadores. Enquanto, paralelamente, a reclamação contra os altos preços dos livros – que poderiam ser lidos sem custo algum, pegos em bibliotecas – se tornou uma gritaria, não raro acompanhada de demandas para que o governo subsidie e/ou compre para doar.

 

Sou por mais leitura e menos livros (não menos títulos, mas menos volumes), combinação ambientalmente sustentável que bibliotecas públicas proporcionam (um volume, muitos leitores – menos pressão para produzir), com a vantagem de que as bibliotecas públicas oferecerem acesso gratuito a ambientes de convivência com numerosas prateleiras cheias, que ensejam passeios pelos pomares e hortas que abastecem o intelecto e pelos jardins que inspiram e fortalecem a sensibilidade.


P.S. 10/09/2026: Sabendo do conteúdo desta nota no Diário da Biblioteca, Regina comentou que Paulo Ratz, que ela segue, abordou o assunto, também, me enviando o link do Youtube. Vi ontem e gostei. Por isso, insiro aqui o link, considerando o conteúdo complementar à minha nota, rico em informações, acrescido de opiniões que vale a pena ouvir.

 

(Continua)

 

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