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De visíveis a inviáveis? - As cidades da Península Arábica sob ataque

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 16 horas
  • 3 min de leitura

Imagem: Wix
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As cidades visíveis da Península Arábica (Cidade do Kwait, Manama, Doha, Abu Dhabi, Dubai e Mascate) são exemplos de superação: ergueram-se sobre o terreno árido do deserto e transformaram-se em polos globais de atração turística e de negócios, graças a uma combinação de recursos abundantes (petrodólares) com visão estratégica, aplicados com discernimento econômico e habilidade política. Circulando por essas metrópoles, não há quem não se sinta colocando os pés no futuro.

 

Tais zonas urbanas requintadas e futuristas, que em meu livro As cidades visíveis: esboços de futuros são consideradas paradigmas de um específico jeito de viver, a partir de uma escolha de modo de vida de alto custo, podem, diante de um conflito prolongado entre seu vizinho radical e poderoso (o Irã) e as potência norte-americana (aliada a Israel), passar, rapidamente, de notáveis e desejáveis a inviáveis. Mísseis e drones iranianos, visando alvos militares americanos, mas afetando também locais e atividades civis, como costuma acontecer, fizeram de algumas delas palco de medo e fugas nos últimos dias, com forte repercussão sobre seu futuro. Cancelamento de vôos, interrupção de atividades econômicas, debandada de famílias ricas, incerteza quanto aos investimentos atuais e futuros – tudo isso faz lembrar que o Oriente Médio nunca foi, nem jamais será, um local paradisíaco como as cidades visíveis árabes têm feito parecer nos últimos anos.

 

O espantoso desenvolvimento recente das capitais dos países do Península Arábica e de Dubai (a mais notória cidade visível da região) é um exemplo inconfundível do quanto se pode conquistar dirigindo a objetivos claros e bem articulados o elevado volume de recursos financeiros que uma dádiva da natureza (petróleo e gás natural) coloca nas mãos de governos e famílias reais capazes de se impor a seu povo e, adicionalmente, de mobilizar massivos contingentes populacionais de outras regiões para seus projetos.

 

Por outro lado, essas cidades exuberantes se revelam um construto frágil quando expostas a ataques militares de vizinhos, por conta de sua explícita adesão aos interesses norte-americanos (e, por extensão, israelenses). Do dia para a noite, suas estruturas urbanas admiráveis, suas economias de serviços vibrantes e seu brilho (literal e figurado) no ambiente turístico e financeiro global são ofuscadas pela ameaça destrutiva de conflitos militares que tendem à radicalização.


O que as cidades visíveis da Península Arábica estão vivenciando estando no meio do conflito EUA/Israel-Irã é uma situação em que fica claro o quanto a abundância de recursos e a clareza de objetivos econômico-financeiros são insuficientes para assegurar a continuidade de um modelo de desenvolvimento, na medida em que este carece, muito mais do que parece à primeira vista, de um ambiente em que prevaleça a paz. Sob a explosão de bombas, o ataque de drones e mísseis (artilharia), o que leva anos e décadas para ser construído, em minutos e horas se perde, antes mesmo da instauração de confrontos de forças no terreno (infantaria), afugentando consumidores, produtores, investidores e atraindo, como sempre, os corvos em busca de más notícias e os urubus à caça de restos mortais.

 

A dramaticidade do que ocorre no momento no Oriente Médio amplia-se pelo fato de a matriz energética mundial depender de fontes ali existentes e do tráfego de hidrocarbonetos pelo Estreito de Hormuz, facilmente controlável, por suas características geográficas, por potências capazes de agir militarmente nas águas do Golfo Pérsico.

 

Os acontecimentos que ora ameaçam o “modelo árabe” de cidades do futuro colocam em risco, também, a ordem mundial tal como configurada desde o fim da Guerra Fria, na medida em que o Oriente Médio não passa de um dos cenários nos quais o confronto entre a potência declinante (Estados Unidos) e a potência emergente (China) se manifesta, com o agravantes da aceleração imposta por um indivíduo aparentemente fora de controle e mentalmente desequilibrado: Donald Trump.

 

Por enquanto, a ameaça paira sobre Dubai. Poderá se expandir para Xangai? Se isso acontecer, outra fonte de esboços de futuros – as cidades visíveis chinesas – começará a ruir, assim como a possibilidade de paz mundial e de contenção do uso de armas nucleares.

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